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José Asunción Silva – Obra Humana

No interior da floresta intocada em que, uma noite, no início de maio, tocou a velha ramagem folhada da pálida lua o primeiro raio, poucos meses depois a luz de gás da aurora na estação iluminou o curso da locomotiva audaz que por trilhos duríssimos cruzou. E onde fora certa vez um abrigo, porto seguro…
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Carlos Drummond de Andrade – Desfile

O rosto no travesseiro, escuto o tempo fluindo no mais completo silêncio. Como remédio entornado em camisa de doente; como na penugem de braço de namorada; como vento no cabelo, fluindo: fiquei mais moço. Já não tenho cicatriz. Vejo-me noutra cidade. Sem mar nem derivativo, o corpo era bem pequeno para tanta insubmissão. E tento…
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Paul Valéry – Cemitério Marinho

Ó min’alma não aspires A uma existência imortal, Mas goza plenamente Tudo o que estiver ao teu alcance. Píndaro Píticas III Este teto tranquilo, onde caminham pombas,Palpita entre pinheiros e tumbas;Compõe-lhe de luz o meio dia justoO mar, o mar, sempre recomeçado!Que recompensa após meditaçãoN’um longo olhar sobre a calma dos deuses! Puro lavor de finos lampejos consumaTanto diamante de…
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Berta Piñán – Duas Garças

Chegaram no sábado. Vimo-las cedo porque nesse dia chegou também o frio e passamos a manhã falando do tempo. São duas, e me pergunto que destino imprevisto as trouxe a esta árvore precisa, a este lugar exato em que o tempo delas cruza, como um sinal confuso, nosso tempo. De tarde falamos sobre elas: “Esta…
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Vasco Gato – Eterno Outono

Estou com a idade pousada nas mãos. Explico-me com dedicação aos berços fundos onde cada coisa dorme o seu medo de morrer. Há na tristeza um perigo de terminar: o eterno outono parece belo a quem perdeu todas as sementes. Pergunta-se um nome e ninguém responde. Onde fica essa ilha a que só chegamos por…
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Nuno Júdice – Poema (Arredores)

A brancura dos ossos, em contraste com a terra argilosa, com a erva, com a parede arruinada, faz-me lembrar leite, papel, cal, e também as tuas mãos – frias. Bebo o seu brilho numa noturna memória. Uma contaminação de corpos não reduz a minha solidão; nem a música, nem o riso, nem o vinho. Lágrimas…
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Helder Moura Pereira – “Eu não tinha nada de felino…”

Eu não tinha nada de felino, tu sabias que eu não tinha nada de felino. Nenhum de nós se admirou quando medi mal a distância e falhei o salto. Enquanto ia no ar parecia que era um salto bom, porém houve qualquer coisa que correu mal e caí com estrondo no chão. Ninguém riu. Não…
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Filipa Leal – Entrevista de Emprego

Desculpe, tem toda a razão, não pensei que fosse umaspecto impeditivo,prejudicial ao nosso relacionamento, claro, claro,ao nosso relacionamentoprofissional, tem toda a razão, devo ter cuidado com as palavras,sim,e o senhor, o senhor gosta de palavras, não, mas tem ao menoscuidado com elas,e de mulheres, o senhor gosta de mulheres, pergunto, trata-as comrespeito,o senhor sabe pontuar…
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César Vallejo – Paris, Outubro de 1936

De tudo isto eu sou o único que parte. Deste banco eu me vou, de meus calções, de minha grande situação, de minhas ações, de meu número dividido de lado a lado, de tudo isto eu sou o único que parte. Dos Campos Elísios ou ao dar a volta à estranha viela de la Luna,…
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Maria do Rosário Pedreira – Ondas

Dei-te o meu corpo como quem estende um mapa antes de viagem, para que nele descobrisses ilhas e paraísos e aí pousasses os dedos devagar, como fazem as aves quando encontram o verão. Se me tivesses tocado, ter-me-ia desmanchado nos teus braços como uma escarpa pronta a desabar, ou uma cidade do litoral a definhar…