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Amalia Bautista – Contra ‘Remedia Amoris’

Não sou desse género de mulheresincapazes de amor e de ternura.Odeio o sacrifício e repugna-mea vaidade que nasce da violência,mas sei o que é valor e o que é sangue.Quero ser a mulher de um mercenário,de um poeta ou mártir, vai dar ao mesmo.Porque sei olhar nos olhos dos homens.Conheço quem merece a minha ternura.…
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Eugénio de Andrade – As Mãos

Que tristeza tão inútil essas mãos que nem sequer são flores que se dêem: abertas são apenas abandono, fechadas são pálpebras imensas carregadas de sono.
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João Cabral de Melo Neto – de “Os Três Mal Amados”

(…) Joaquim: O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome. O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros…
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Rui Pires Cabral – «He loved beauty that looked kind of destroyed»

Gostava dessa espécie de beleza que podemos surpreender a cada passo, desvelada pelo acaso numa esquina de arrabalde; a beleza de uma casa devoluta que foi toda a infância de alguém, com visitas ao domingo e tardes no quintal depois da escola; a beleza crepuscular de alguns rostos num retrato de família a preto e…
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Nuno Júdice – Como Aves, Cuja Passagem

Como sombras passaram entre nós, como sombras. Uma vez perante alguns amigos e desconhecidos, afirmei conhecê-los e citei os seus nomes. Mas o que não correspondia a um acto heroico, nada significava hoje, mesmo entre amigos e desconhecidos. Só se eu próprio me tornar uma sombra, e também eu passar a uma outra vida. Durante…
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Wendell Berry – A Paz das Coisas Selvagens
Quando as dores do mundo crescem em mime eu desperto na noite a um mínimo ruídotemendo pelo que poderá ser de minha vida e das de meus filhos,eu saio e me deito onde o pato carolinodescansa em sua beleza na água, e a garça se alimenta.Eu penetro na paz das coisas selvagensque não tributa suas…
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Hilda Hilst : Dez chamamentos ao amigo

I Se te pareço noturna e imperfeita Olha-me de novo. Porque esta noite Olhei-me a mim, como se tu me olhasses. E era como se a água Desejasse Escapar de sua casa que é o rio E deslizando apenas, nem tocar a margem. Te olhei. E há um tempo Entendo que sou terra. Há tanto…
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Tamara Kamenszain – O Eco de Minha Mãe

Não posso narrar. Que pretérito me serviria se minha mãe já não se afasta mais de mim? Exúbere então me detenho ante um estado de coisas demasiado presente: ser a descuidada que dela cuida enquanto outros a negligenciam por mim. São as pessoas que me restaram e a gramática se torna um escândalo quando ela…
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Anna Akhmátova – Último Brinde

Bebo ao lar em pedaços,À minha vida feroz,À solidão dos abraçosE a ti, num brinde, ergo a voz… Ao lábio que me traiu,Aos mortos que nada veem,Ao mundo, estúpido e vil,A Deus, por não salvar ninguém. Trad.: Rubens Figueiredo Последний тост Я пью за разоренный дом,За злую жизнь мою,За одиночество вдвоем,И за тебя я…
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Rui Lage – EN 314

Ardidas há muito as velas de ignição que davam centelha ao meu antigo e primeiro coração. Agora sou apenas um ponto morto, sem tração: rolo sem atrito mas também sem aflição. A estrada adormece em bosques propícios a emboscadas, mas já não tenho crenças que mereçam ser cobiçadas. E os meus sonhos, até os meus…