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Antonio Cicero – Prólogo

Por onde começar? Pelo começo absoluto, pelo rio Oceano, já que ele é, segundo o poeta cego em cujo canto a terra e o céu escampo e o que é e será e não é mais e longe e perto se abrem para mim, pai das coisas divinas e mortais, seu líquido princípio, fluxo e…
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Luis Alberto de Cuenca – Quando Penso nos Velhos Amigos

Quando penso nos velhos amigos que saíram de minha vida, unindo-se a más mulheres que alimentam seu medo e os enchem de filhos para tê-los por perto, controlados e inermes. Quando penso nos velhos amigos que se foram para o país da morte, sem passagem de volta, só porque procuraram o deleite nos corpos e…
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Sophia de Mello Breyner Andresen – Espera

Dei-te a solidão do dia inteiro. Na praia deserta, brincando com a areia, No silêncio que apenas quebrava a maré cheia A gritar o seu eterno insulto, Longamente esperei que o teu vulto Rompesse o nevoeiro.
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josé luís peixoto – arte poética

o poema não tem mais que o som do seu sentido, a letra p não é a primeira letra da palavra poema, o poema é esculpido de sentidos e essa é a sua forma, poema não se lê poema, lê-se pão ou flor, lê-se erva fresca e os teus lábios, lê-se sorriso estendido em mil…
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Ian Hamilton – Poema de Aniversário

Firme em suas mãos Sua caneca de barbear com a Exposição do Império. Você a conserva agora Como escarradeira, as pombas presunçosas, O 1938 dela Manchados por gotas de seu sangue. Esta noite, Meio sufocado, canceroso, Desiludido, Você bate os dentes contra sua boca dourada de porcelana E espera por um ataque. Trad.: Nelson Santander…
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Ivan Junqueira – A tua data

Alguém só morre em sua data, que é única, ôntica, enfática. Nunca depende de quem vai nem de quem fica ao pé da lápide. É quando o corpo, enfim, se acaba, e, se dele a alma se aparta, não cabe a ninguém afirmá-lo, nem se a tinha, em vida, o finado. É quando as lâmpadas…
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Paulo Henriques Britto – Nenhum Mistério

I Não chega a ser desespero, mas não por haver esperança. Falta a ênfase, o tempero, o sal da intemperança, sem o qual não é iguaria à altura de grandes gestos. É mais da categoria das migalhas, dos restos. Pois dessa matéria escassa há que se tirar sustância. (Até mesmo na desgraça é pra poucos…
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Nuno Júdice – O Eterno Retorno

Agora, ao ouvir uma peça de música Barroca, como se isso servisse para alterar A cor do céu ou a cor dos sentimentos, Apercebo-me de que a música é, só, O que ficou de ti. O resto – amor, Corpo, palavras, desejo, um riso – ficou Não sei onde, nem exatamente sei quando: sei só…
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Amalia Bautista – Nu de Mulher

Para ti nunca passei de um blocode mármore. Esculpiste nele o meu corpo,um corpo de mulher branco e formoso,em que não viste nada a não ser pedrae o orgulho, isso sim, do teu trabalho.Nunca imaginaste que eu te amavae que tremia quando, docemente,me modelavas os seios e os ombros,ou alisavas as coxas e o ventre.Hoje,…
