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Joan Margarit – Canção de Ninar

Dorme, Joana. E que este Loverman obscuro e trágico do sax de teu irmão em Montjuïc possa acompanhar-te toda a eternidade pelos caminhos que são bem conhecidos pela música. Dorme, Joana, dorme. E de preferência não esqueças de teus anos no ninho que dentro de nós tu deixaste. Enquanto envelhecemos, conservaremos todas as cores que…
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José Mateos – Canção 10

Canção 10 (Ruínas de Bolonha) Disse o sol do entardecer,aqui, defronte ao mar:Morreré começar a voltar. Trad.: Nelson Santander José Mateos – Canción 10 (Ruinas de Bolonia) Aquí, frente al mar, lo diceel sol del atardecer:Morires empezar a volver.
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Inês Dias – Um estranho no meu túmulo

Chegamos tarde a nós. Eu tinha a pele gasta, o coração no fio. Tu eras um longo muro de cimento areado em que deixava a carne inteira a caminho do encontro. A primavera ficava-nos sempre à esquerda e tu cada vez mais dentro de mim até não sentir nada, até estares já do outro lado.…
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Carlos Drummond de Andrade – Procura

Procurar sem notícia, nos lugares onde nunca passou; inquirir, gente não, porém textura, chamar à fala muros de nascença, os que não são nem sabem, elementos de uma composição estrangulada. Não renunciar, entre possíveis, feitos de cimento do impossível, e ao sol-menino opor a antiga busca, e de tal modo revolver a morte que ela…
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Táxis Varvitsiótis – Assim também a morte

À memória de Andréa Karandonis Asa ou marfim É tudo espesso Como o ferro e a madeira Como a proa inquebrável De um navio Rumo ao infinito Assim também a morte Espessa impenetrável Como galeria de mina Muro indestrutível Poço sem fundo Carvão aceso Para alcançar-lhe o duro cerne Tons de rasgar O pano entretecidos…
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Nuno Júdice – Natal

Deito-me à sombra da árvore sem sombra – a árvore cujas raízes nascem da infância – e é natal, e nunca mais chega a meia-noite dessa noite sem fim. Rezo pelas mais obscuras incertezas, pelas almas que hesitam nas encruzilhadas, pelos vagabundos que esperam a meia-noite para se sentarem à porta da igreja, na única…
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Joan Margarit – Cemitério de Montjuïc

Algo permanece das almas, como a brisa que surge depois que alguém passou, e que faz estremecer uma leve cortina na janela. Pelo caminho de pedras ásperas que não esquecem mas calam, severas, o que sabem, o vento deixa um silêncio de lágrimas por vidas como as nossas, perdidas. “Jazigo perpétuo”, a terra sempre dura,…
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Amalia Bautista – Noite de São João

Que queimaremos esta noite, quantasvelhas feridas daremos nós às chamas,de que nos livraremos para não o recordarnem sequer dos piores pesadelos diurnos?Que lançaremos nós ao fogo ou em que fogueiraslimparemos a vida para nos renovarmos,para o tempo que reste, para o que consigamosroubar a tantas mortes?Chega a noite de São João, continuamosvivos e juntos apesar…
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Nelson Santander – Cinema Paradiso e a visita cruel do tempo
Cinema Paradiso e a visita cruel do tempo, uma crônica de Nelson Santander
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paulo leminski – sossegue coração

sossegue coração ainda não é agora a confusão prossegue sonhos afora calma calma logo mais a gente goza perto do osso a carne é mais gostosa