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Vicente Gaos – A vida

Os ardorosos signos da vidapulsam na atmosfera do verão.O mar respira tal como um varão,como uma criatura enfurecida. Oh gozo e amor, sangue furioso,cósmica vibração de um mundo arcano.Mundo que sinto ao tatear teu crâniofrágil quando nele minha mão pouso. Te amo, sim, te amo, sonho forte,Fecho os olhos e te sinto inteira– Oh luz…
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Rui Diniz – O desaguar dos crepúsculos no Ebro

Eu estava presente quando o corpo do hernandez deu à costa. Era um corpo magro e extraordinariamente roxo, evocava os últimos dias da sua vida, quando se demorava o menos possível nos cafés de barcelona, perseguido até por si próprio. De facto a loucura procurava-o lentamente. Durante a noite, em tempo de lua cheia, a…
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Ramón de Garciasol – Ávila do Silêncio

Silêncio: cala-me até as raízes, lava minha carne, meu suor de morte, a caspa cotidiana. Quero ver-te, Senhor, em paz, pelo que me dizes sem esta feroz contenda confusa, extinta a chama, pedra pura de eternidade sem fim, viva verdura sem o sal da dor e das cinzas. Silêncio: chove mais. A terra dura está…
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Ian Hamilton – Legado

Estamos no inverno agora e estou aquecido, Acamado, feliz por ter sobrevivido. Minha mobília Me cerca. Eu posso alcançar meus livros. E você, noite após noite, Até “o fim” Ficará comigo. Entre nós Há lenitivos, esta dor E estes poemas inacabados eu lego a você. Muitas vezes deve ser assim. Escurecemos suavemente enquanto você conta…
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Carmen Conde – [Declaro que morreu e que seu túmulo]
![Carmen Conde – [Declaro que morreu e que seu túmulo]](https://singularidadepoetica.art/wp-content/uploads/2019/01/tumblr_inline_phmpjoek1n1ufxp92_1280.jpg)
Declaro que morreu e que seu túmuloestá dentro de mim; sou seu sudário.A ninguém se enterrou porque seu trânsitono tempo foi de loucas esperanças. Circundam o contorno desta cova– quente é a vinha que escala as paredes –os pâmpanos mais tenros e suculentosque arrancam do silêncio seu tumulto. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma…
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Mario Benedetti – Currículo

A história é muito simplesvocê nascecontempla aturdidoo vermelho-azul do céuo pássaro que emigrao desajeitado besouroque seu sapato esmagarádestemido você sofrereclama por comidae por hábitopor obrigaçãochora isento de culpasexaustoaté que o sonho o desqualifique você amase transfigura e amapor uma eternidade tão efêmeraque até o orgulho se torna ternoe o coração proféticose converte em escombros você…
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Nicanor Parra – Esquecimento

Juro que não me lembro nem do seu nome,Mas morrerei chamando-a de Maria,Não por mero capricho de poeta,Pela sua aura de praça de província.Que tempos aqueles!, eu, um esquisitão,Ela, jovem pálida e sombria.Ao voltar certa tarde do LiceuSoube de sua morte imerecida,Notícia que me causou tal desalentoQue derramei uma lágrima ao ouvi-la.Uma lágrima, sim, quem…
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Luis Alberto de Cuenca – A casa da minha infância

Fui feliz naquela casa repleta de flores e de livros proibidos. A casa em que tu eras Ginevra nos nossos jogos, e eu era o rei Artur (não havia Lancelote para arruinar tudo). A casa onde foste donzela das minhas ânsias, senhora dos meus suspiros, muralha em meu peito, cofre do meu tesouro, brinde dos…
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José Fernando Guedes – Coeso é o tempo

Coeso é o tempo em cada tênue segundo Que logo se desfaz e se reconstrói Como uma linguagem de gestos que o universo Elabora sem que percebamos. E mesmo no interior de cada segundo Há suficiente espaço para se fazer o bem ou o mal Porque é assim mesmo que acontece: o mal ou o…
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Giuseppe Ungaretti – Silêncio

Mariano, 27 de junho de 1916 Conheço uma cidade que cada dia se enche de sol e tudo é arrebatado nessa hora Dela parti uma tarde No coração perdurava o limar das cigarras Do navio laqueado de branco vi minha cidade sumir deixando por um instante no ar toldado um abraço de luzes suspensas Trad.:…