A visão destas faces dentre a turba:
Pétalas num ramo úmido, escuro.
Trad.: Augusto de Campos
In a station of the metro
The apparition of these faces in the crowd;
petals on a wet, black bough.
Nelson Santander
A visão destas faces dentre a turba:
Pétalas num ramo úmido, escuro.
Trad.: Augusto de Campos
In a station of the metro
The apparition of these faces in the crowd;
petals on a wet, black bough.
De tudo quanto fiz e quanto disse,
não procurem saber quem eu era.
Um obstáculo havia e transformou
os meus atos e o meu modo de viver.
Um obstáculo havia e me deteve
cada vez em que eu ia falar.
Os mais despercebidos dos meus atos,
e, de meus escritos, os mais dissimulados –
só por aí é que haverão de me entender.
Todavia, talvez nem valha a pena tanto
cuidado e tanto esforço para compreender-me.
Mais tarde – em sociedade mais perfeita –
algum outro, de feitio igual ao meu,
certo há de aparecer e livre há de atuar.
Trad.: José Paulo Paes
você envolve meu cabelo
com os dedos
e puxa
é assim
que você tira
música de mim
— preliminares
Trad.: Ana Guadalupe
You wrap you fingers
around my hair
and pull
this
is how you make
music out of me
— foreplay
quanto falta pra gente se ver hoje
quanto falta pra gente se ver logo
quanto falta pra gente se ver todo dia
quanto falta pra gente se ver pra sempre
quanto falta pra gente se ver dia sim dia não
quanto falta pra gente se ver às vezes
quanto falta pra gente se ver cada vez menos
quanto falta pra gente não querer se ver
quanto falta pra gente não querer se ver nunca mais
quanto falta pra gente se ver e fingir que não se viu
quanto falta pra gente se ver e não se reconhecer
quanto falta pra gente se ver e nem lembrar que um dia se conheceu.
Pois desejo primeiro que você ame e que amando, seja também amado.
E que se não o for, seja breve em esquecer e esquecendo não guarde mágoa.
Desejo depois que não seja só, mas que se for, saiba ser sem desesperar.
Desejo também que tenha amigos e que mesmo maus e inconsequentes sejam corajosos e fiéis.
E que em pelo menos um deles você possa confiar e que confiando não duvide de sua confiança.
E porque a vida é assim, desejo ainda que você tenha inimigos, nem muitos nem poucos, mas na medida exata para que algumas vezes você interpele a respeito de suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo para que você não se sinta demasiadamente seguro.
Desejo depois que você seja útil, não insubstituivelmente útil mas razoavelmente útil.
E que nos maus momentos, quando não restar mais nada, essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.
Desejo ainda que você seja tolerante, não com que os que erram pouco, porque isso é fácil, mas com aqueles que erram muito e irremediavelmente.
E que essa tolerância nem se transforme em aplauso nem em permissividade, para que assim fazendo um bom uso dela, você dê também um exemplo para os outros.
Desejo que você sendo jovem não amadureça depressa demais,
e que sendo maduro não insista em rejuvenescer,
e que sendo velho não se dedique a desesperar.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e é preciso deixar que eles escorram dentro de nós.
Desejo por sinal que você seja triste, não o ano todo, nem um mês e muito menos uma semana,
mas apenas por um dia.
Mas que nesse dia de tristeza, você descubra que o riso diário é bom, o riso habitual é insosso e o riso constante é insano.
Desejo que você descubra com o máximo de urgência, acima e a despeito de tudo, talvez agora mesmo, mas se for impossível amanhã de manhã, que existem oprimidos, injustiçados e infelizes.
E que estão estão à sua volta, porque seu pai aceitou conviver com eles.
E que eles continuarão à volta de seus filhos, se você achar a convivência inevitável.
Desejo ainda que você afague um gato, que alimente um cão e ouça pelo menos um João-de-barro erguer triunfante seu canto matinal.
Porque assim você se sentirá bom por nada.
Desejo também que você plante uma semente por mais ridículo que seja e acompanhe seu crescimento dia a dia, para que você saiba de quantas muitas vidas é feita uma árvore.
Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro porque é preciso ser prático. E que pelo menos uma vez por ano você ponha uma porção dele na sua frente e diga: Isto é meu.
Só para que fique claro quem é o dono de quem.
Desejo ainda que você seja frugal, não inteiramente frugal, não obcecadamente frugal, mas apenas usualmente frugal.
Mas que essa frugalidade não impeça você de abusar quando o abuso se impuser.
Desejo também que nenhum de seus afetos morra, por ele e por você. Mas que se morrer, você possa chorar sem se culpar e sofrer sem se lamentar.
Desejo por fim que,
sendo mulher, você tenha um bom homem
e que sendo homem tenha uma boa mulher.
E que se amem hoje, amanhã, depois, no dia seguinte, mais uma vez e novamente de agora até o próximo ano acabar.
E que quando estiverem exaustos e sorridentes, ainda tenham amor pra recomeçar.
E se isso só acontecer, não tenho mais nada para desejar.
O poema foi publicado originalmente na edição de 30/12/1978 da Folha da Tarde. Vide: http://emiliopacheco.blogspot.com/2006/05/clique-para-ampliar.html
Bem sabes que estes anos passarão,
que tudo terminará em literatura:
a imagem das noites, as lendas
da triunfante juventude e as cidades
vividas como corpos.
Que estes anos
passarão tu já sabes, pois são teus
como se possuísses a neve e a neblina,
como é do mar a bruma, ou do ar
a cor da tarde fugidia:
pertences de ninguém e do nada
surgidos, que para o nada vão:
nem o próprio mar, nem o ar, nem essa bruma,
nem um crepúsculo igual teus olhos verão.
A memória é um desenho na água,
e em suas ondas se expressa o cadáver do tempo.
Tu farás este desenho.
E de repente
terás a sombra morta
do tempo junto a ti.
Trad.: Nelson Santander
El dibujo en el agua
Bien sabes que estos años pasarán,
que todo acabará en literatura:
la imagen de las noches, la leyenda
de la triunfante juventud y las ciudades
vividas como cuerpos.
Que estos años
pasarán ya lo sabes, pues son tuyos
como una posesión de nieve y niebla,
como es del mar la bruma o es del aire
el color de la tarde fugitivo:
pertenencias de nadie y de la nada
surgidas, que hacia la nada van:
ni el mismo mar, ni el aire, ni esa bruma,
ni un crepúsculo igual verán tus ojos.
Un dibujo en el agua es la memoria,
y en sus ondas se expresa el cadáver del tiempo.
Tú harás ese dibujo.
Y de repente
tendrás la sombra muerta
del tiempo junto a ti.
Com a derrocada de Woody Allen (meu cineasta favorito), abatido pelo #metoo, e com o avanço das séries televisivas alavancado pela Netflix, a era dos grandes diretores de Hollywood parece estar chegando ao fim.
Aqueles diretores com voz e estilo próprios, um modo particular de contar uma história e a preferência pela abordagem dos grande temas em suas obras são hoje artigos raros no ramo cinematográfico.
Quem sobrou? Quem, dos realizadores em atividade, pode ser comparado a gente como Alfred Hitchcock, Stanley Kubrick, Billy Wilder, John Ford, Sérgio Leone, Ingmar Bergman? Um Quentin Tarantino (que já anunciou que só fará mais dois filmes e depois se aposentará). Um Martin Scorsese (vivendo também o seu ocaso). Os irmãos Cohen talvez.
E quem mais? Cuarón, Almodóvar, Aronofsky, Wes Anderson, Paul Thomas Anderson, Cristopher Nolan e David Fincher são ótimos diretores. Mas só isso. Falta-lhes aquela fagulha inexplicável que diferencia os competentes dos gênios, os diluidores dos mestres e esses dos inventores (para usar a famosa classificação de escritores – que também pode ser aplicada aos diretores de cinema – sugerida por Ezra Pound).
Mas aí eu me lembro desse senhor que há décadas entrega a seu público, ano após ano, obras consistentes, muitas vezes monumentais e, acima de tudo, profundamente humanas. Dos diretores ainda em atividade, Clint Eastwood é o mais legítimo herdeiro dos grandes realizadores hollywoodianos do passado – em especial de Sergio Leone, que foi quem o lançou para o estrelato como ator e a quem ele buscava emular em seu início de carreira como cineasta (vide “O Estranho Sem Nome”).
Mas Clint Eastwood foi muito além de Sergio Leone. É verdade que sua obra prima – o faroeste “Os Imperdoáveis” – dialoga com os grandes westerns do diretor italiano. No entanto, a temática de Eastwood é bem mais diversificada. O próprio “Os Imperdoáveis” já procurava se diferenciar da obra de Sergio Leone, pois enquanto o cineasta italiano tinha óbvias predileções por grandes planos, tramas intrincadas e em emprestar um tom operístico aos seus grandes filmes (dos quais “Era uma vez no Oeste” é o exemplo mais bem acabado), em “Os Imperdoáveis”, Clint Eastwood opta pelos closes nos rostos dos atores (o que aumenta a dramaticidade da cena), por roteiros simples e objetivos e por se preocupar muito mais com a psicologia e motivação de suas personagens.
Mas o diretor americano não se limitou à realização do melhor faroeste dos últimos tempos e continuou a produzir filmes que ora surpreendiam pela delicadeza do trabalho – como o belíssimo “As Pontes de Madison” –, ora nos nocauteavam ante a abordagem crua de certos temas – como a análise das consequências do abuso sexual de menores, em “Sobre Meninos e Lobos”, e a questão da eutanásia, em “Menina de Ouro”.
Além de tudo isso, Clint Eastwood provou também que a velhice nem sempre é sinônimo de apatia criativa. Grande parte de seus melhores filmes foram realizados depois que o diretor já havia completado 70 anos de idade (ele é de 1930). Estão nesse rol: “Cowboys do Espaço” (2000), “Sobre Meninos e Lobos” (2003), “Menina de Ouro” (2004), “Gran Torino” e “A Troca” (2008) e “Sniper Americano” (2014).
E ele não para: acaba de lançar “A Mula” e “15h17: Trem para Paris”. Aos 89 anos de idade (!)
Enquanto esse Cavaleiro Solitário continuar fazendo seu trabalho, Hollywood estará redimida.
Mas e depois que ele e os outros se forem?
(Comentário publicado originalmente no Facebook: https://www.facebook.com/singularitate/posts/2009523002690187?__tn__=K-R)
Voltar a alguns versos de Kaváfis, de Eliot,
como quem regressa a uma casa que foi nossa anos atrás.
Repetir as sílabas, iluminar os símbolos
como cerradas salas, janelas empoeiradas
que ocultam um jardim perdido, árvores da morte.
Melancolia do regresso e medo do vazio,
rangidos de madeira, agitar de sombras,
e, de repente, em um quarto, perdida
como um velho copo ou um espelho manchado,
encontrar a chave para a tua vida.
Palavras que te avisaram: “Um monótono dia
segue-se a outro igualmente monótono”,
ou te advertiram: “Nascer, copular, morrer.
Isso é tudo, isso é tudo, isso é tudo, isso é tudo”.
Palavras com que a velhice e a noite me presenteiam,
presságios que não entendi, anunciadas derrotas.
Trad.: Nelson Santander
Palabras y Presagios
Volver a unos versos de Cavafis, de Eliot,
como quien regresa a una casa que hace años fue nuestra.
Repetir las sílabas, iluminar los símbolos
como cerradas habitaciones, ventanas polvorientas
que ocultan un jardín perdido, árboles de la muerte.
Melancolía del regreso y miedo del vacío,
crujidos de madera, aletazos de sombras
y, de pronto, en un cuarto, perdida
como una vieja copa o un espejo empañado,
encontrar la clave de tu vida.
Palabras que te avisaron: “Un monótono día
sigue a otro igualmente monótono”,
o te advertieron: “Nacer, copular, morir.
Eso es todo, eso es todo, eso es todo, eso es todo”.
Palabras que la velez y la noche me regalan,
presagios que no entendí, anunciadas derrotas.
Continuo a vislumbrar o olhar que meu pai
Me lançou, há tantos anos, lá da janela
De onde morava.
Eu realmente não vi com precisão
Esse derradeiro olhar para mim.
Era mais como um grito para dentro
Que ele lançava. Meu nome talvez.
Me acenou e foi o último acenar seu.
Nessa despedida que eu desconhecia
Não houve amor.
Houve somente meu pai olhando
Até que virei na esquina
E o esqueci.
Saí para caminhar pelos trilhos do trem.
Caminhei algum tempo por eles
e cheguei ao cemitério do povoado,
onde um homem descansa entre
duas esposas. Emily van der Zee,
Mãe e Esposa Amada,
está à direita de John van der Zee.
Mary, a segunda senhora Van der Zee,
também uma Esposa Amada, à sua esquerda.
Primeiro Emily se foi, depois Mary.
Anos mais tarde, foi a vez do velho camarada.
Onze filhos nasceram dessas uniões.
E eles, também, já devem estar todos mortos agora.
Este é um lugar tranquilo. Tão bom quanto qualquer outro
para interromper meu passeio, sentar e me preparar
para minha própria morte, que se aproxima.
Mas eu não entendo, não entendo.
Tudo o que sei sobre esta vida bela e fatigante,
a minha ou a de qualquer um,
é que daqui a pouco vou me levantar
e ir embora desse lugar espantoso
que dá abrigo aos mortos. Este cemitério.
E seguir. Caminhando primeiro sobre um trilho,
depois sobre o outro.
Trad.: Cide Piquet
Raymond Carver – A Walk
I took a walk on the railroad track.
Followed that for a while
and got off at the country graveyard
where a man sleeps between
two wives. Emily van der Zee,
Loving Wife and Mother,
is at John van der Zee’s right.
Mary, the second Mrs. van der Zee
also a loving wife, to his left.
First Emily went, then Mary.
After a few years, the old fellow himself.
Eleven children came from these unions.
And they, too, would all have to be dead now.
This is a quiet place. As good a place as any
to break my walk, sit, and provide against
my own death, which comes on.
But I don’t understand, and I don’t understand.
All I know about this fine, sweaty life,
my own or anyone else’s,
is that in a little while I’ll rise up
and leave this astonishing place
that gives shelter to dead people. This graveyard.
And go. Walking first on one rail
and then the other.