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Chacal – como era bom

o tempo em que marx explicava que tudo era luta de classes como era simples o tempo em que freud explicava que édipo tudo explicava tudo era clarinho limpinho explicadinho tudo muito mais asséptico do que era quando nasci hoje rodado sambado pirado descobri que é preciso aprender a nascer todo dia
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Wislawa Szymborska – Autotomia

Em perigo, a holotúria se divide em duas:com uma metade se entrega à voracidade do mundo,com a outra foge. Desintegra-se violentamente em ruína e salvação,em multa e prêmio, no que foi e no que será. No meio do corpo da holotúria se abre um abismocom duas margens subitamente estranhas. Em uma margem a morte, na…
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Antonio Colinas – Envio

Lembras-te ainda do débil cantodo rouxinol perdido na ramagem?Viste farfalhar comigo naquela noitea copa do cipreste. Desfez-seo céu em fios de luar sobre teu rosto.Mas depois do pássaro e da luaapagaram-se os astros. Vi passarnão sei que brisa estranha pelo teu corpo.Lembras-te das nossas mãos na água?Lembras-te do silêncio sobre o campoe, como um deus exangue, do…
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Meira Delmar – Hóspede sem sombra

Nada deixam meus passos sobre a terra. No momento do último passeio hei de levar o que ao nascer me veio: o rosto em paz e o coração em guerra. Nenhuma voz repetirá a minha de saudoso ardor e fiel espanto. A voz estremecida com que canto o mar, a rosa, a melancolia. Não ressuscitará…
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Théodore Fraenckel – Elegia

X. não compreendeu ainda como lhe resta pouco tempo de vida. Outrora, os grandes lagos eram a esperança querida de um abrigo. Da infância, o que nos resta é esta visão acadêmica quando, suave, no tom do quadro, leve se sente o esboroar do espírito… Contudo, a vida nem sempre é uma constante aventura. Por…
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José Paulo Paes – De malas prontas

Vários dos seus amigos mortos dão hoje nome a ruas e praças. Ele próprio se sente um pouco póstumo quando conversa com gente jovem. Dos passeios, raros, a melhor parte é a volta para casa. As pessoas lhe parecem barulhentas e vulgares. Ele sabe de antemão tudo quanto possam dizer. Nos sonhos, os dias da…
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Ivan Junqueira – Estamos indo embora

Estamos indo embora. Sobre o piso de ardósia, por entre caules e corolas que exalam um perfume exótico, os gatos deslizam. São espíritos leves e sóbrios, com suas patas de veludo, silenciosas, que arranham a lombada dos livros e o verniz dos móveis. Os tapetes abafam seus passos ociosos, como se faz quando se acolhem…
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Ferreira Gullar – Fim

Como não havia ninguém na casa aquela terça-feira tudo é suposição: teria tomado seu costumeiro banho de imersão por volta de meio-dia e trinta e de cabelos ainda úmidos deitou-se na cama para descansar não para morrer queria dormir um pouco apenas isso e assim não lhe terá passado pela mente – até aquele último…
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Joan Margarit – Alguém

Tinha que salvar-me com seus olhos azuis cravados ainda em uma lembrança da adolescência, a estranha fase de precipitar-se, sem queixa nenhuma, ao fundo do abismo. Do bonde, a fugaz imagem de uma garota em uma varanda, e o número de um telefone anotado como uma cicatriz na memória. Nunca estive a seu lado, inventava…
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Wislawa Szymborska – Fotografia de 11 de setembro

Saltaram dos andares em chamas —um, dois, alguns maisacima, abaixo. A fotografia os susteve em vidae agora os mantémsobre a terra em direção à terra. Cada um ainda é um todocom um rosto próprioe o sangue bem escondido. Há bastante tempopara os cabelos se soltareme dos bolsos caíremchaves, dinheiro trocado. Ainda estão ao alcance do…