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Jaime Gil de Biedma – Canção de aniversário

Porque são já seis anos desde então, porque não há na terra, ainda, nada tão doce quanto um quarto para dois, se for teu e meu; porque até o tempo, esse parente pobre que conheceu dias melhores, parece hoje partidário da felicidade, cantemos, alegria! E, depois, levantemo-nos mais tarde, como no domingo. Que a manhã…
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Wislawa Szymborska – Sobre a morte sem exagero

Não entende de piadas,de estrelas, de pontes,de tecer, minerar, lavrar a terra,de construir navios e assar bolos. Quando falamos de planos para amanhãintromete sua última palavrasem nada a ver com o assunto. Não sabe sequer as coisasdiretamente ligadas ao seu ofício:nem cavar uma cova,nem fazer um caixão,nem arrumar a desordem que deixa. Ocupada em matar,o…
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Ferreira Gullar – Reflexão

Está fora de meu alcance o meu fim Sei só até onde sou contemporâneo de mim
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Joan Margarit – Inverno de 95

Esta carta a escrevo para alguémque está em um barco pelo nortede Tenerife, em cinquenta e sete.Um rapaz que, da amurada,mira o duro poente sobre o mare estuda arquitetura em Barcelona,para onde retorna agora. Aviso-tecom um sinal de alerta: a alegriaque sentes ao deixar teu pai para trásrevela a solidão sob uma luz dourada.Teu pai…
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Manuel António Pina – Eugénio de Andrade no seu leito de morte

Na mão de Ana o iogurte não iluminava, escurecia, comunhão ajoelhada no fundo do coração do dia dividido onde, desperto, ele dormia. O movimento da colher embalava-o como uma música que quase se ouvia neste mundo ou um colo que o adormecia. A tarde declinava, as sombras, como sonhos, alongavam-se na almofada; tudo fazia um…
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Henry Reed – A nomeação das peças

Hoje temos a nomeação das peças. OntemTivemos a limpeza diária. E amanhã de manhã,Teremos o que fazer depois da ordem de “fogo”. Mas hoje,Hoje nós temos a nomeação das peças. A japonicaArde como coral em todos os jardins adjacentes,E hoje nós temos a nomeação das peças. Isto é o zarelho móvel inferior. E istoÉ o…
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Marisa Monte, Arnaldo Antunes, Antonio Carlos Santos de Freitas – Infinito particular
Eis o melhor e o pior de mim No meu termômetro o meu quilate Vem, cara, me retrate Não é impossível Eu não sou difícil de ler Faça sua parte Eu sou daqui, eu não sou de Marte Vem, cara, me repara Não vê, ‘tá na cara Eu sou porta-bandeira de mim Só não se…
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Braulio Tavares – [para mim tanto faz]
![Braulio Tavares – [para mim tanto faz]](https://singularidadepoetica.art/wp-content/uploads/2019/10/images-13.jpeg)
para mim tanto fazestar alegre ou tristeeu preciso é que o tempo voe,que o tempo viva a gente só lembraque o segundo existequando vê um relógioem contagem regressiva
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Francisco Alvim – Nada, mas nada mesmo

Nada, mas nada mesmo tem a menor importância Nem antesNem depoisNem durante
