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Laurie Lee – A sombra abandonada

Percorrendo a sombra abandonadadas habitações da minha infância,meus ouvidos relembram o badalar,ouvindo suas vozes soterradas. Ouço o verão primordial,as margens da aurora iluminadas por aves,o pulsar de sangue da escrevedeira-amareladourando meus olhos de berço. Ouço a lua-de-estanho subire a moeda do crepúsculo cair,o rastejar da geada e o gemidodo degelo e o pio dos piscos…
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Jorge Luis Borges – Mortes de Buenos Aires

I La Chacarita Porque a entranha do cemitério do Sul foi saciada pela febre amarela até dizer basta; porque os tugúrios fundos do Sul lançaram morte sobre a face de Buenos Aires e porque Buenos Aires não pôde encarar essa morte, golpes de pá te abriram na ponta perdida do Oeste, atrás das tempestades de…
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Fernando Pessoa – No Túmulo de Christian Rosencreutz

NO TÚMULO DE CHRISTIAN ROSENCREUTZ Não tínhamos ainda visto o cadáver de nosso Pai prudente e sábio. Por isso afastámos para um lado o altar. Então pudemos levantar uma chapa forte de metal amarelo, e ali estava um belo corpo célebre, inteiro e incorrupto…, e tinha na mão um pequeno livro em pergaminho, escrito a…
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César Vallejo – Os passos distantes

Meu pai dorme. Seu semblante augusto exprime um tranquilo coração; está agora tão doce… se há algo nele de amargo, serei eu. Há solidão no lar; se reza; e não há notícias das crianças hoje. Meu pai desperta, ausculta a fuga para o Egito, o último adeus. Está agora tão perto; se há algo nele…
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Rainer Maria Rilke – Torso arcaico de Apolo

Não conhecemos sua cabeça inaudita Onde as pupilas amadureciam. Mas Seu torso brilha ainda como um candelabro No qual o seu olhar, sobre si mesmo voltado Detém-se e brilha. Do contrário não poderia Seu mamilo cegar-te e nem à leve curva Dos rins poderia chegar um sorriso Até aquele centro, donde o sexo pendia. De…
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Jorge Luis Borges – A noite que no sul o velaram

A noite que no sul o velaram para Letizia Álvarez de Toledo Pelo passamento de alguém — mistério cujo desconhecido nome possuo e cuja realidade não abarcamos — há até o alvorecer uma casa aberta no Sul, uma casa ignorada que não estou destinado a…
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Charles Bukowski – Manual de Combate

Eles chamaram Celine de nazista eles chamaram Pound de fascista eles chamaram Hamsun de nazista eles puseram Dostoiévski diante de um esquadrão de fuzilamento e você sabe que eles atiraram em Lorca submeteram Hemingway a tratamento de choque e você sabe que ele se matou e eles levaram Villon para fora da cidade (Paris) e…
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Ferreira Gullar – Reflexão sobre o osso da minha perna

A parte mais durável de mim são os ossos e a mais dura também como, por exemplo, este osso da perna que apalpo sob a macia cobertura ativa de carne e pele que o veste e inteiro me reveste dos pés à cabeça esta vestimenta fugaz e viva sim, este osso a mais dura parte…
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Jane Hirschfield – Meu esqueleto

Meu esqueleto, que um dia doeu com o próprio crescimento, está agora, a cada ano imperceptivelmente menor, mais leve, absorvido por sua própria concentração. Quando eu dancei, você dançou. Quando você quebrou, eu. E assim foi, deitando, caminhando, subindo os fatigantes degraus. Seus maxilares. Meu pão. Algum dia você, o que resta de você, será…
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Louise Glück – Nostos

Havia uma macieira no quintal – isso teria sido há quarenta anos – nos fundos, apenas prados. Excesso de crocus na relva úmida Eu estava naquela janela: fim de abril. Flores da primavera no quintal do vizinho. Quantas vezes, realmente, a árvore floresceu no meu aniversário, no dia exato, nem antes nem depois? Substituição do…