Ter medo da morte
é coisa dos vivos
o morto está livre
de tudo o que é vida
Ter apego ao mundo
é coisa dos vivos
para o morto não há
(não houve)
raios rios risos
E ninguém vive a morte
quer morto quer vivo
mera noção que existe
só enquanto existo
Nelson Santander
O sofrimento não tem
nenhum valor.
Não acende um halo
em volta de tua cabeça, não
ilumina trecho algum
de tua carne escura
(nem mesmo o que iluminaria
a lembrança ou a ilusão
de uma alegria).
Sofres tu, sofre
um cachorro ferido, um inseto
que o inseticida envenena.
Será maior a tua dor
que a daquele gato que viste
a espinha quebrada a pau
arrastando-se a berrar pela sarjeta
sem ao menos poder morrer?
A justiça é moral, a injustiça
não. A dor
te iguala a ratos e baratas
que também de dentro dos esgotos
espiam o sol
e no seu corpo nojento
de entre fezes
querem estar contentes.
Nada vos oferto
além destas mortes
de que me alimento
Caminhos não há
Mas os pés na grama
os inventarão
Aqui se inicia
uma viagem clara
para a encantação
Fonte, flor em fogo,
quem é que nos espera
por detrás da noite ?
Nada vos sovino:
com a minha incerteza
vos ilumino
Meia-noite. Fim
de um ano, início
de outro. Olho o céu:
nenhum indício.
Olho o céu:
o abismo vence o
olhar. O mesmo
espantoso silêncio
da Via-Láctea feito
um ectoplasma
sobre a minha cabeça
nada ali indica
que um ano novo começa.
E não começa
nem no céu nem no chão
do planeta:
começa no coração.
Começa como a esperança
de vida melhor
que entre os astros
não se escuta
nem se vê
nem pode haver:
que isso é coisa de homem
esse bicho
estelar
que sonha
(e luta).
Como ia morrer, foi-lhe dado o aviso
na carne, como sempre ocorre aos seres vivos;
um aviso, um sinal, que não lhe veio de fora,
mas do fundo do corpo, onde a morte mora,
ou, dizendo melhor, onde ela circula
como a eletricidade ou o medo, na medula
dos ossos e em cada enzima, que veicula,
no processo da vida, esse contrário: a morte
(decidida sem que se saiba de que sorte
nem por quem nem por quê nem por que côrte
de justiça, uma vez que era morte de dentro
não de fora, como as que causa externa engendra).
Ela veio chegando ao ritmo do pulso,
sem pressa nem vagar e sem perder o impulso
que empurra a vida para o desenlace, para
o ponto onde afinal o sistema dispara,
cortando a luz do corpo -e a máquina pára.
Muito antes, porém, que ocorra esse colapso,
chega o aviso da morte, indecifrado, “lapsus
linguae”, sinal errado ou mal pronunciado
no código de sais, ou não compreendido
deliberadamente: a gente faz ouvido
de mercador à voz que a morte noticia
pra não ouvi-la, já que não tem serventia
ouvi-la e assim saber que a hora está marcada.
Só para entristecer-se ante a noite estrelada?
Essa é a morte de dentro, endócrina; a de fora,
a exógena, provém do acaso, se elabora
na natureza ou então no tráfego ou no crime
e implacável chega, e nada nos exime
da injusta sentença, a moral impoluta,
a bondade, o latim, nossa boa conduta,
nada: a pedra que cai ou a bala perdida
sem razão nos atinge e acaba com a vida.
Diz-se que, dessa morte, a notícia também
nos chega, aleatória antecipação,
na pronúncia da brisa e dos búzios, além
do que se lê na carta e nas linhas da mão.
Mas, se vinda de dentro ou fora, não se altera
essencialmente o fato: a morte, por si, gera
um processo que altera as relações de espaço
e tempo e modifica, inverte, em descompasso,
o curso natural da vida: uma vertigem
arrasta tardes, sóis, desperta da fuligem
vozes, risos, manhãs já de há muito apagadas,
e as precipita velozmente, misturadas,
para dentro de si, como fazem as estrelas
ao morrer, cuja massa, ao ser prensada pelas
forças de contração da morte, se reduz
a um buraco voraz de que nem mesmo a luz
escapa, e assim também com as pessoas ocorre.
E é por essa razão que, quando um homem morre,
alguém que esteja perto e que apure o ouvido,
certamente ouvirá, como estranho alarido,
o jorrar ao revés da vida que vivera
até tornar-se treva o que foi primavera.
A meu filho Marcos
Daqui escutei
quando eles
chegaram rindo
e correndo
entraram
na sala
e logo
invadiram também
o escritório
(onde eu trabalhava)
num alvoroço
e rindo e correndo
se foram
com sua alegria
se foram
Só então
me perguntei
por que
não lhes dera
maior
atenção
se há tantos
e tantos
anos
não os via crianças
já que
agora
estão os três
com mais
de trinta anos.
O teu corpo muda
independente de ti.
Não te pergunta
se deve engordar.
É um ser estranho
que tem teu rosto
ri em teu riso
e goza com teu sexo.
Lhe dás de comer
e ele fica quieto.
Penteias-lhe os cabelos
como se fossem teus.
Num relance, achas
que apenas estás
nesse corpo.
Mas como, se nele
nasceste e sem ele
não és?
Ao que tudo indica
tu és esse corpo
– que a cada dia
mais difere de ti.
E até já tens medo
de olhar no espelho:
lento como nuvem
o rosto que eras
vai virando outro.
E a erupção
que te surge no queixo?
Vai sumir? alastrar-se
feito impingem, câncer?
Poderás detê-la
com Dermobenzol?
ou terás que chamar
o corpo de bombeiros?
Tocas o joelho:
tu és esse osso.
Olhas a mão:
tu és essa mão.
A forma sentada
de bruços na mesa
és tu.
Quem se senta és tu,
quem se move (leva
o cigarro à boca,
traga, bate a cinza)
és tu.
Mas quem morre?
Quem diz ao teu corpo – morre –
quem diz a ele – envelhece –
se não o desejas,
se queres continuar vivo e jovem
por infinitas manhãs?
Eu deixarei o mundo com fúria.
Não importa o que aparentemente aconteça,
se docemente me retiro.
De fato,
nesse momento
estarão de mim se arrebentando
raízes tão fundas
quanto estes céus brasileiros.
Num alarido de gente e ventania
olhos que amei
rostos amigos tardes e verões vividos
estarão gritando a meus ouvidos
para que eu fique
para que eu fique
Não chorarei.
Não há soluço maior que despedir-se da vida.
Escuta:
o que passou passou
e não há força
capaz de mudar isto.
Nesta tarde de férias, disponível, podes,
se quiseres, relembrar.
Mas nada acenderá de novo
o lume
que na carne das horas se perdeu.
Ah, se perdeu!
Nas águas da piscina se perdeu
sob as folhas da tarde
nas vozes conversando na varanda
no riso de Marília no vermelho
guarda-sol esquecido na calçada.
O que passou passou e, muito embora,
voltas às velhas ruas à procura.
Aqui estão as casas, a amarela,
a branca, a de azulejo, e o sol
que nelas bate é o mesmo
sol
que o Universo não mudou nestes vinte anos.
Caminhas no passado e no presente.
Aquela porta, o batente de pedra,
o cimento da calçada, até a falha do cimento. Não sabes já
se lembras, se descobres.
E com surpresa vês o poste, o muro,
a esquina, o gato na janela,
em soluços quase te perguntas
onde está o menino
igual àquele que cruza a rua agora,
franzino assim, moreno assim.
Se tudo continua, a porta
a calçada a platibanda,
onde está o menino que também
aqui esteve? aqui nesta calçada
se sentou?
E chegas à amurada. O sol é quente
como era, a esta hora. Lá embaixo
a lama fede igual, a poça de água negra
a mesma água o mesmo
urubu pousado ao lado a mesma
lata velha que enferruja.
Entre dois braços d’água
esplende, a croa do Anil. E na intensa
claridade, como sombra,
surge o menino
correndo sobre a areia. É ele, sim,
gritas teu nome: “Zeca,
Zeca!”
Mas a distância é vasta
tão vasta que nenhuma voz alcança.
O que passou passou.
Jamais acenderás de novo
o lume
do tempo que apagou.