Charles Bukowski – O Matador Sorri

as antigas namoradas ainda telefonam
algumas do ano passado
algumas do ano retrasado
algumas de anos atrás
é bom poder por um fim
nas coisas que não funcionam
também é bom não odiar
ou mesmo esquecer
a pessoas com quem você
falhou.

aprecio quando elas me dizem
que estão tendo sorte com um homem
sorte com suas vidas

depois de terem sobrevivido a mim
elas têm muitos prazeres devido a isso
faço suas vidas parecerem melhor
depois de mim

agora tenho dado a elas
comparações
novas perspectivas
novos caralhos
mais paz
um futuro melhor
sem eu.

eu sempre desligo,
justificado.

Charles Bukowski – Foda

foda

ela tirou o vestido
por sobre a cabeça
e eu vi a calcinha
um tanto enterrada em suas
carnes.

é simplesmente humano.
agora teremos que fazê-lo.
eu terei que fazê-lo
depois de todo esse logro.
é como uma festa –
dois idiotas
numa cilada.

debaixo dos lençóis
depois que apaguei
as luzes
suas calcinhas ainda estavam
ali. ela esperava um
número introdutório.
eu não podia culpá-la. mas sim
me perguntar por que ela estava ali
comigo? onde estão os outros
caras? como você pode se julgar
sortudo tendo alguém que
outros abandonaram?

não precisávamos fazer aquilo
embora tivéssemos que fazê-lo
era algo como
renovar o crédito
com o homem do imposto de
renda. tirei a calcinha.
decidi não usar
a língua. ainda assim
pensava no momento
em que tudo estivesse terminado.

dormiremos juntos
esta noite
tentando nos acomodar
entre os papéis de parede.

tento, falho,
reparo no cabelo em sua
cabeça
mais do que tudo reparo no cabelo
em sua
cabeça
e de relance em
suas narinas
de porquinho

tento
novamente.

Charles Bukowski – A Retirada

desta vez o negócio acabou comigo.

me sinto como as tropas alemãs
açoitadas pela neve e pelos comunistas
caminhando curvadas
as botas gastas
forradas com papel jornal.

minha condição é tão terrível quanto.

talvez até pior.

a vitória estava tão perto
a vitória estava logo ali.

enquanto ela estava ali diante de meu espelho
mais jovem e bela do que
qualquer outra mulher que eu já conhecera
penteando metros e mais metros de cabelo ruivo
enquanto eu a observava.

e quando ela veio para a cama
estava mais bela do que nunca
e o amor foi muito muito bom.

onze meses.

agora ela se foi
como todas se vão.

desta vez o negócio acabou comigo.

é um longo caminho de volta
mas de volta pra onde?

Trad.: Pedro Gonzaga

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Charles Bukowski – Encurralado

bem, eles diziam que tudo terminaria
assim: velho. o talento perdido. tateando às cegas em busca
da palavra

ouvindo os passos
na escuridão, volto-me
para olhar atrás de mim…

ainda não, velho cão…
logo em breve.

agora
eles se sentam falando sobre
mim: “sim, acontece, ele já
era… é
triste…”

“ele nunca teve muito, não é
mesmo?”

“bem, não, mas agora…”

agora
eles celebram minha derrocada
em tavernas que há muito já não
frequento.

agora
bebo sozinho
junto a essa máquina que mal
funciona

enquanto as sombras assumem
formas

combato retirando-me
lentamente

agora
minha antiga promessa
definha
definha

agora
acendendo novos cigarros
servido mais
bebidas

tem sido um belo
combate

ainda
é.

Trad.: Pedro Gonzaga

Charles Bukowski – Poema nos meus 43 anos

terminar sozinho
no túmulo de um quarto
sem cigarros
nem bebida —
careca como uma lâmpada,
barrigudo,
grisalho,
e feliz por ter um quarto.
…de manhã

eles estão lá fora
ganhando dinheiro:
juízes, carpinteiros,
encanadores , médicos,
jornaleiros, guardas,
barbeiros, lavadores de carro,
dentistas, floristas,
garçonetes, cozinheiros,
motoristas de táxi…
e você se vira
para o lado pra pegar o sol
nas costas e não
direto nos olhos.

Trad.: Jorge Wanderley

Charles Bukowski – Feras Saltando Através do Tempo

Van Gogh escrevendo para seu irmão pedindo tintas
Hemingway testando seu rifle
Céline fracassando como médico
a impossibilidade de ser humano
Villon expulso de Paris por ser um ladrão
Faulkner bêbado pelas sarjetas da cidade
a impossibilidade de ser humano
Burroughs assassinando sua mulher com um tiro
Mailer apunhalando
a sua impossibilidade de ser humano
Maupassant enlouquecendo num barco a remos
Dostoiévski de pé contra o muro para ser fuzilado
Crane fora da popa de um navio indo em direção à hélice
a impossibilidade
Sylvia com a cabeça no forno como uma batata assada
Harry Crosby saltando naquele Sol Negro
Lorca assassinado na Estrada pelas tropas espanholas
a impossibilidade
Artaud sentado num banco de hospício
Chatterton bebendo veneno de rato
Shakespeare um plagiário
Beethoven com uma corneta no ouvido contra a surdez
a impossibilidade a impossibilidade
Nietzsche enlouquecendo completamente
a impossibilidade de ser humano
todos demasiados humanos
esse respirar
para dentro e para fora
para fora e para dentro
esses punks
esses covardes
esses campeões
esses cachorros loucos da glória
movendo esse pontinho de luz para nós
impossivelmente.

Trad.: Sergio Cohn

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