Anna Kamieńska – Profetas

Profetas

‘Todos os profetas se calaram’ (Adam Ważyk)

Tememos os olhos dos animais
não confiamos na brancura da neve
esquecemos que o céu noturno
é como um formigueiro cintilante
não sabemos nomear plantas e pássaros1
nossos filhos não verão cervos e ouriços correndo soltos
nem a modesta orquídea da floresta
não sabemos nutrir um broto
até que se torne uma árvore de silêncio
não nos saudamos nas ruas com paz
não cortamos um manto ao meio
deixamos os velhos morrerem nos corredores
não confiamos em letras maiúsculas
não respeitamos o testemunho de uma pedra no campo
não vimos Deus
em nenhuma sarça em chamas

Aprendemos a abafar com eficácia a voz dos profetas
é difícil reconhecê-los hoje
são velhos ou jovens demais
ressecados como aves depenadas
ou então corpulentos — mas nem poetas parecem
de sandálias ou com calçados em pés descalços
de chapéu ou com a auréola habitual da morte
ninguém lhes daria um tostão furado
e alguns não lhes perdoam a leve loucura
falam como se falassem sozinhos
repetem suas histórias de dor
pagam mais caro por seu pão
são mais sós do que é permitido

Marcham como letras vergadas
sobre cidades cegas
não buscam salvação para si mesmos

1976

Trad.: Nelson Santander, do polonês a partir da versão para o inglês feita por Tomasz P Krzeszowski e Desmond Graham

  1. Referência ao Jardim do Éden, onde Adão nomeou todos os animais (Gênesis 2:19-20), simbolizando nossa perda da harmonia edênica. O poema é uma verdadeira tapeçaria de referências que dialogam com a tradição judaico-cristã e a literatura polonesa. Além desse verso, destacam-se: “não sabemos nutrir um broto / para que cresça em árvore de silêncio” (possível referência às árvores simbólicas bíblicas); “não nos saudamos com paz na rua” (saudações cristãs primitivas e ensinamento de Jesus); “não cortamos um manto ao meio” (alusão ao gesto caritativo de São Martinho de Tours); “deixamos os velhos morrerem em corredores” (mandamento de honrar os anciãos); “não respeitamos o testemunho de uma pedra no campo” (pedras memoriais bíblicas); “não vimos Deus / em nenhuma sarça ardente” (episódio de Moisés no Monte Horeb, Êxodo 3:2); e “Marcham como letras vergadas / sobre cidades cegas” (profetas de Isaías e tradição cabalística das letras místicas). A epígrafe de Adam Ważyk situa o texto no contexto da literatura polonesa do pós-guerra sobre o silenciamento da voz profética. ↩︎

Prophets

‘All the prophets fell silent’ (ADAM WAŻYK)

We fear the eyes of animals
we don’t trust pure snows
we forget the night sky
is like a glittering ant hill
we can’t address plants and birds by name
our children won’t come across hart and hedgehog running wild
nor the modest forest orchid
we don’t know how to nurse a shoot
to grow into a tree of silence
we don’t greet each other in the street with peace
we don’t cut an overcoat in half
we let the old die in corridors
we don’t trust big letters
we don’t respect the evidence of a stone in a field
we have not seen God
in any burning bush

We have learnt to jam effectively the voice of prophets
it is difficult to recognise them today
they are too old or too young
dried up liked plucked birds
or maybe plump but not resembling even poets
in sandals or shoes on bare feet
in a hat or in the usual halo of death
nobody would give a bent penny for them
and some cannot forgive them a little folly
they speak as though to themselves
they repeat their painful life stories
they always pay more for their bread
they are more solitary than is permitted

They march like stooping letters
over blind cities
they don’t seek salvation for themselves

1976

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