Lisel Mueller – Curriculum Vitae

1992

1) Nasci em uma cidade livre, perto do Mar do Norte.

2) No ano do meu nascimento, o dinheiro foi picotado em
confetes. Um pão custava um milhão de marcos. É
claro que não me lembro disso.

3) Pais e avós pairavam ao meu redor. O mundo em que vivia
tinha uma voz macia e sem garras.

4) Uma cornucópia cheia de guloseimas me levou a um prédio
com sinos. Uma generosa professora me acolheu.

5) Em casa, as prateleiras de livros conectavam o céu e a terra.

6) Aos domingos, a menina da cidade caminhava entre pinhas
e pântanos de prímulas, a uma curta viagem de trem.

7) Meu país foi assolado por uma história mais mortal que
terremotos ou furacões.

8) Meu pai estava ocupado fugindo dos monstros. Minha mãe
me disse que as paredes tinham ouvidos. Aprendi o peso dos segredos.

9) Adentrei os dias muito claros e as noites muito escuras
da adolescência.

10) Dois pais, duas filhas, seguimos o sol
e a lua através do oceano. Meus avós ficaram
para trás nas sombras.

11) No novo idioma, todos falavam rápido demais. Eventualmente,
os alcancei.

12) Quando o conheci, o novo idioma se tornou a linguagem
do amor.

13) A morte da mãe feriu a filha, levando-a à poesia.
A filha tornou-se mãe de filhas.

14) Vida cotidiana: sua abundância e complexidade. Nós atando
fios em todos os lugares. O passado afastado, o futuro deixado
não imaginado em prol do presente glorioso, difícil, apaixonado.

15) Anos e anos disso.

16) As crianças não são mais crianças. A dor de um velho, a
solidão de um velho.

17) E então meu pai também desapareceu.

18) Tentei voltar para casa. Fiquei na porta da minha
infância, mas ela estava fechada ao público.

19) Um dia, em um elevador lotado, todos tinham o rosto mais jovem
que o meu.

20) Até aqui, tudo bem. Os dias e as noites brilhantes são
ofegantes em sua pressa. Seguimos, você e eu.

Trad.: Nelson Santander

N. do T.: Lisel Mueller (1924-2020) foi uma renomada poeta americana de origem alemã. Nascida em Hamburgo, na Alemanha, ela e sua família emigraram para os Estados Unidos em 1939, fugindo dos horrores do regime nazista. Essa experiência de imigração e os traumas da Segunda Guerra Mundial tiveram um impacto significativo em sua vida e em sua poesia. Lisel Mueller foi uma poeta aclamada, laureada com vários prêmios literários, incluindo o Prêmio Pulitzer de Poesia em 1997.

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Curriculum Vitae

1992

1) I was born in a Free City, near the North Sea.

2) In the year of my birth, money was shredded into
confetti. A loaf of bread cost a million marks. Of
course I do not remember this.

3) Parents and grandparents hovered around me. The
world I lived in had a soft voice and no claws.

4) A cornucopia filled with treats took me into a building
with bells. A wide-bosomed teacher took me in.

5) At home the bookshelves connected heaven and earth.

6) On Sundays the city child waded through pinecones
and primrose marshes, a short train ride away.

7) My country was struck by history more deadly than
earthquakes or hurricanes.

8) My father was busy eluding the monsters. My mother
told me the walls had ears. I learned the burden of secrets.

9) I moved into the too bright days, the too dark nights
of adolescence.

10) Two parents, two daughters, we followed the sun
and the moon across the ocean. My grandparents stayed
behind in darkness.

11) In the new language everyone spoke too fast. Eventually
I caught up with them.

12) When I met you, the new language became the language
of love.

13) The death of the mother hurt the daughter into poetry.
The daughter became a mother of daughters.

14) Ordinary life: the plenty and thick of it. Knots tying
threads to everywhere. The past pushed away, the future left
unimagined for the sake of the glorious, difficult, passionate
present.

15) Years and years of this.

16) The children no longer children. An old man’s pain, an
old man’s loneliness.

17) And then my father too disappeared.

18) I tried to go home again. I stood at the door to my
childhood, but it was closed to the public.

19) One day, on a crowded elevator, everyone’s face was younger
than mine.

20) So far, so good. The brilliant days and nights are
breathless in their hurry. We follow, you and I.

Filipa Leal – Entrevista de Emprego

Desculpe, tem toda a razão, não pensei que fosse um aspecto impeditivo,
prejudicial ao nosso relacionamento, claro, claro, ao nosso relacionamento
profissional, tem toda a razão, devo ter cuidado com as palavras, sim,
e o senhor, o senhor gosta de palavras, não, mas tem ao menos cuidado com elas,
e de mulheres, o senhor gosta de mulheres, pergunto, trata-as com respeito,
o senhor sabe pontuar uma conversa, pergunto, sabe fazer as pausas certas,
desculpe, tem toda a razão, quem faz as perguntas aqui é o senhor,
e eu respondo, claro, se souber, mas sei pouco, tem toda a razão,
sim, sou formada em Letras, desculpe, sim, sim, gosto de Línguas, sim,
mas não da sua, confesso, desculpe, desculpe, é que de repente pensei
que pudesse estar a interpretar-me mal com o duplo sentido da palavra língua,
sabe como é, hoje em dia todo o cuidado com a palavra é pouco
e eu tinha acabado de lhe perguntar se gostava de mulheres, podia soar a sedução,
na verdade só procurava saber se o senhor era machista, desculpe, fui indelicada,
sim, tem toda a razão, eu gosto é de livros, eu gosto é das notícias que não vêm
nos jornais, eu gosto é de histórias de encantar, mas olhe que há algumas bem cruéis,
não, não são só as de terror, olhe que o terror às vezes está aos pés da câmara,
não, não, eu disse câmara, ouviu bem, achei que se dissesse cama podia voltar a
baralhá-lo, e daqui a pouco ainda pensava que tenho algum interesse em si,
tem razão, tem toda a razão, não me lembrei de destacar esse aspecto no currículo,
não pensei que escrever poemas fosse uma condenação curricular,
mas já que pede a minha opinião, compreendo que o senhor não há-de precisar
de uma pessoa como eu, repare, eu gosto de olhar para o céu horas a frio,
não, não, eu disse frio, ouviu bem, pareceu-me o termo adequado a este diálogo,
e sim, tem toda a razão, eu não devia tê-lo feito perder o seu tempo, desculpe,
desculpe não lhe ter dito mais cedo que só sei ler e escrever,
desculpe não lhe ter dito mais cedo que sou apenas o contrário de um analfabeto.

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 12/01/2019

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Elizabeth Jennings – Ausência

Estive no local do nosso encontro final.
Nada mudara, os jardins continuavam bem cuidados,
As fontes borrifavam em constante borbotão;
Nenhum sinal de que algo havia terminado
E nada que me instruísse na alheação.

As aves que nos ramos vibravam, indiferentes,
Cantando um êxtase que eu não podia partilhar,
Brincavam matreiras com minha mente. Certamente,
Nesses gozos dor nenhuma haveria a suportar
Ou qualquer discórdia que abalasse a brisa insistente.

Porque o lugar era exatamente o daquele dia
A sua ausência pareceu uma força primeva,
Pois por debaixo de toda a suavidade havia
Um trepidar de terremoto: fonte, aves, relva,
Tudo, só de pensar em seu nome, estremecia.

Trad.: Nelson Santander

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Absence

I visited the place where we last met.
Nothing was changed, the gardens were well-tended,
The fountains sprayed their usual steady jet;
There was no sign that anything had ended
And nothing to instruct me to forget.

The thoughtless birds that shook out of the trees,
Singing an ecstasy I could not share,
Played cunning in my thoughts. Surely in these
Pleasures there could not be a pain to bear
Or any discord shake the level breeze.

It was because the place was just the same
That made your absence seem a savage force,
For under all the gentleness there came
An earthquake tremor: Fountain, birds and grass
Were shaken by my thinking of your name.

Paulo Henriques Britto – Heraclitus meets Pascal

Ninguém se molha duas vezes
na mesma tempestade. Mudam
você, a água, nem é o mesmo,
na sua mão, o guarda-chuva;

muda o motivo pelo qual
você houve por bem molhar-se,
oferecendo ao temporal
– por assim dizer – a outra face;

não muda, porém, a consciência
de que os sapatos encharcados
e a calça manchada de lama

terão talvez efeito idêntico
ao que teria ter ficado
em casa, quietinho, na cama.

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 06/01/2019

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Marge Piercy – O visível e o in-

Algumas pessoas passam pela sua vida
como o perfume das peônias: intenso,
persistente e sensual.

Algumas pessoas passam pela sua vida
como o doce aroma almiscarado do cosmos,
tão delicado que se você aspirar duas vezes, ele se foi.

Algumas pessoas invadem sua vida
como homens da mudança que carregam
sofás, pianos e quebram pratos.

Algumas pessoas o tocam tão de leve
que você não tem certeza de que aconteceu.
Outros o deixam prostrado com pegadas no peito.

Algumas são como aquelas toutinegras de outono
que você não consegue distinguir uma da outra
nem mesmo consultando o Petersen’s*.

Algumas caem com força sobre você como
um falcão atacando, e as cicatrizes perduram,
e você estará sempre desconfiado do céu.

Somos todos salas de espera em terminais
de ônibus onde centenas de pessoas
passaram despercebidas, outras

quase nos incendiaram,
outras nos deixaram renovados e limpos
e outras acabaram de se instalar.

Trad.: Nelson Santander

* “Petersen’s” é uma referência ao guia de campo “A Field Guide to Birds” de Roger Tory Petersen, amplamente utilizado na América do Norte para identificar diferentes espécies de pássaros.

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The visible and the in-

Some people move through your life
like the perfume of peonies, heavy
and sensual and lingering.

Some people move through your life
like the sweet musky scent of cosmos
so delicate if you sniff twice, it’s gone.

Some people occupy your life
like moving men who cart off
couches, pianos and break dishes.

Some people touch you so lightly you
are not sure it happened. Others leave
you flat with footprints on your chest.

Some are like those fall warblers
you can’t tell from each other even
though you search Petersen’s.

Some come down hard on you like
a striking falcon and the scars remain
and you are forever wary of the sky.

We all are waiting rooms at bus
stations where hundreds have passed
through unnoticed and others

have almost burned us down
and others have left us clean and new
and others have just moved in.

Manuel António Pina – A Canção dos Adultos

Parece que crescemos mas não.
Somos sempre do mesmo tamanho.
as coisas que à volta estão
é que mudam de tamanho.

Parece que crescemos mas não crescemos.
São as coisas grandes que há,
o amor que há, a alegria que há,
que estão a ficar mais pequenos.

Ficam de nós distantes
que às vezes já mal os vemos.
Por isso parece que crescemos
e que somos maiores que dantes.

Mas somos sempre como dantes.
Talvez até mais pequenos
quando o amor e o resto estão tão distantes
que nem vemos com estão distantes.

Então julgamos que somos grandes.
e já nem isso compreendemos.

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 05/01/2019

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Dunya Mikhail – A guerra trabalha duro

Quão magnífica é a guerra!
Quão ambiciosa
e eficiente!
Logo cedo,
ela desperta as sirenes
e despacha ambulâncias
a vários lugares,
sacode corpos pelo ar,
empurra macas para os feridos,
convoca chuva
nos olhos das mães,
escava a terra
expulsando muitas coisas
de baixo das ruínas…
Algumas, inanimadas e reluzentes,
outras, pálidas e ainda pulsantes…
Ela produz muitas perguntas
nas cabeças das crianças,
entretém os deuses
lançando fogos de artifícios e mísseis
no céu,
semeia minas nos campos
e colhe perfurações e pústulas,
exorta famílias a emigrar,
fica ao lado dos clérigos
enquanto eles amaldiçoam o diabo
(pobre diabo, ele permanece
com uma das mãos no fogo abrasador)…
A guerra segue trabalhando, dia e noite.
Ela inspira tiranos
a proferir longos discursos,
concede medalhas aos generais
e motes aos poetas.
Contribui para a indústria
das próteses,
supre de víveres as varejeiras,
acrescenta páginas aos livros de história,
torna iguais
assassinos e assassinados,
ensina amantes a escrever cartas,
habitua as jovens a esperar,
enche os jornais
com artigos e fotos,
edifica novos lares
para os órfãos,
estimula os fabricantes de caixões,
dá um tapa nas costas
dos coveiros
e pinta um sorriso no rosto do líder.
A guerra opera com empenho inigualável!
E, no entanto, ninguém lhe oferece
uma palavra de elogio.

Trad.: Nelson Santander (a partir de versão em inglês traduzido do árabe por Elizabeth Winslow)

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The War Works Hard

How magnificent the war is!
How eager
and efficient!
Early in the morning,
it wakes up the sirens
and dispatches ambulances
to various places,
swings corpses through the air,
rolls stretchers to the wounded,
summons rain
from the eyes of mothers,
digs into the earth
dislodging many things
from under the ruins…
Some are lifeless and glistening,
others are pale and still throbbing…
It produces the most questions
in the minds of children,
entertains the gods
by shooting fireworks and missiles
into the sky,
sows mines in the fields
and reaps punctures and blisters,
urges families to emigrate,
stands beside the clergymen
as they curse the devil
(poor devil, he remains
with one hand in the searing fire)…
The war continues working, day and night.
It inspires tyrants
to deliver long speeches,
awards medals to generals
and themes to poets.
It contributes to the industry
of artificial limbs,
provides food for flies,
adds pages to the history books,
achieves equality
between killer and killed,
teaches lovers to write letters,
accustoms young women to waiting,
fills the newspapers
with articles and pictures,
builds new houses
for the orphans,
invigorates the coffin makers,
gives grave diggers
a pat on the back
and paints a smile on the leader’s face.
The war works with unparalleled diligence!
Yet no one gives it
a word of praise.

Francisco Brines – Os Verões

A Carmen Marí

Foram longos e ardentes os verões!
Ficamos nus juntos ao mar,
e o mar ainda mais nu. Com os olhos,
e em corpos ágeis, praticávamos
a mais prazerosa posse do mundo.

Éramos tocados por vozes banhadas de lua,
e era a vida vulcânica e violenta,
ingratos com o sonho, fluíamos.
O ritmo sombrio das ondas
nos abrasava eternamente, e éramos apenas tempo.
As estrelas se apagavam ao amanhecer
e, com a luz que fria retornava,
furioso e delicado se iniciava o amor.

Hoje parece um engano que fôssemos felizes
ao modo imerecido dos deuses.
Que estranha e breve foi a juventude!

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO, com alterações na tradução: poema publicado na página originalmente em 03/01/2019

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Los Veranos

¡Fueron largos y ardientes los veranos!
Estábamos desnudos junto al mar,
y el mar aún más desnudo. Con los ojos,
y en unos cuerpos ágiles, hacíamos
la más dichosa posesión del mundo.

Nos sonaban las voces encendidas de luna,
y era la vida cálida y violenta,
ingratos con el sueño transcurríamos.
El ritmo tan oscuro de las olas
nos abrasaba eternos, y éramos solo tiempo.
Se borraban los astros en el amanecer
y, con la luz que fría regresaba,
furioso y delicado se iniciaba el amor.

Hoy parece un engaño que fuésemos felices
al modo inmerecido de los dioses.
¡Qué extraña y breve fue la juventud!

Clint Smith – Tudo ao mesmo tempo

As sequoias estão em chamas na California. Uma inundação submerge um bairro que por três séculos repousou tranquilo no litoral. Uma criança dá os primeiros passos e cai nos braços do pai. Duas pessoas em Nova Orleans se apaixonam sob um carvalho cujos galhos se curvam como a tristeza. Uma floresta de sementes é plantada em solo novo. Uma geleira derrete no oceano e o mar se aproxima da terra. Um homem volta da guerra e segura seu filho pela primeira vez. Um homem é morto por um drone que confunde seu jarro de água com uma bomba. Seu melhor amigo tem uma recaída e não atende mais o telefone. O professor do seu filho liga para dizer que ele defendeu outro garoto na sala de aula. Um país abaixo da linha do equador encerra uma guerra civil de vinte anos. Um soldado do outro lado do Atlântico dispara o tiro que inicia outro conflito. Os cientistas criam uma vacina que salvará a vida de milhões de pessoas. O câncer de sua mãe retornou, e os médicos dizem que não há mais nada que possam fazer. Há um cortejo fúnebre pela manhã e um casamento à tarde. O rio que nos fornece água para beber é o mesmo que pode nos arrastar.

Trad.: Nelson Santander

All at Once

The redwoods are on fire in California. A flood submerges a neighborhood that sat quiet on the coast for three centuries. A child takes their first steps and tumbles into a father’s arms. Two people in New Orleans fall in love under an oak tree whose branches bend like sorrow. A forest of seeds are planted in new soil. A glacier melts into the ocean and the sea climbs closer to the land. A man comes home from warand holds his son for the first time. A man is killed by a drone that thinks his jug of water is a bomb. Your best friend relapses and isn’t picking up the phone. Your son’s teacher calls to say he stood up for another boy in class. A country below the equator ends a twenty-year civil war. A soldier across the Atlantic fires the shot that begins another. The scientists find a vaccine that will save millions of people’s lives. Your mother’s cancer has returned and doctors say there is nothing else they can do. There is a funeral procession in the morning and a wedding in the afternoon. The river that gives us water to drink is the same one that might wash us away.

Poemas Palestinos

Mosab Abu Toha

Em uma noite sem estrelas

Em uma noite sem estrelas,
eu viro de um lado para outro.
A terra treme, e eu caio da cama.
Olho pela minha janela. A casa
vizinha não existe mais. Está deitada, como um velho tapete no
chão da terra, pisoteada por mísseis, largos chinelos
voando de pés sem pernas.
Eu não sabia que meus vizinhos ainda tinham aquela pequena TV, que aquele quadro
antigo ainda estava pendurado em suas paredes, que a gata deles tivera filhotes.

O que é lar?

O que é lar?
é a sombra das árvores no meu caminho para a escola antes de serem arrancadas.
é a foto em preto e branco do casamento dos meus avós antes das paredes desmoronarem.
É o tapete de oração do meu tio, onde dezenas de formigas dormiam nas noites de inverno, antes de ser saqueado e colocado em um museu.
É o forno que minha mãe usava para assar pão e frango antes de uma bomba reduzir nossa casa a cinzas.
É a cafeteria onde eu assistia a partidas de futebol e jogava.
Meu filho me interrompe: uma palavra de três letras pode conter tudo isso?

Merecemos uma morte melhor

Merecemos uma morte melhor.
Nossos corpos estão desfigurados e retorcidos,
adornados com balas e estilhaços.
Nossos nomes são mal pronunciados
no rádio e na TV.
Nossas fotos, afixadas nas paredes de nossos prédios,
desbotam e empalidecem.
As inscrições em nossas lápides desaparecem,
cobertas por fezes de pássaros e répteis.
Ninguém rega as árvores que fazem sombra
em nossos túmulos.
O sol abrasador subjuga
nossos corpos em decomposição.

Mosab Abu Toha, poeta palestino. Segundo o The New York Times, recentemente ele foi detido pelas tropas israelitas enquanto migrava para o sul de Gaza com sua família. Depois de espancado, torturado e interrogado pelos soldados de Israel, acabou sendo solto no último dia 21/11.

Khaled Juma

Oh crianças malcriadas de Gaza

Oh crianças malcriadas de Gaza.
Vocês que me perturbavam o tempo todo
com seus gritos debaixo da minha janela.
Vocês que enchiam de caos e correria
todas as minhas manhãs.
Vocês que quebraram meu vaso
e roubaram a flor solitária em minha varanda.
Voltem,
e gritem o quanto quiserem
e quebrem todos os vasos.
Roubem todas as flores.
Voltem.
Apenas voltem.

Khaled Juma é um renomado escritor e poeta da Palestina. Nascido em Rafah, em 25 de outubro de 1965, Juma foi criado no campo de refugiados palestinos de Al-Shaboura, na Faixa de Gaza. Ele é chefe do Departamento Cultural da Agência de Notícias e Informações da Palestina (WAFA) e foi editor-chefe da revista Roya por sete anos.

Mahmoud Darwish

A guerra terá um fim

A guerra terá um fim.
Os líderes trocarão apertos de mãos.
A idosa continuará
esperando pelo filho martirizado.
Aquela moça vai esperar pelo
amado marido.
E essas crianças esperarão
por seu heroico pai.
Não sei quem vendeu nossas terras.
Mas eu vi quem pagou o preço.

Mahmoud Darwish (Al-Birweh, 13 de março de 1941 – Houston, 9 de agosto de 2008) foi um renomado poeta e escritor palestino. Nascido em um vilarejo a 10,5 quilômetros de Acre, na Galileia, era o segundo dos oito filhos de uma família sunita de proprietários de terras. A vila árabe foi inteiramente arrasada pelas forças israelenses durante a guerra de 1948, e a família Darwish refugiou-se no Líbano. Darwish foi membro do Movimento de Libertação da Palestina e seus estudos em Moscou o levaram à prisão e expulsão de sua terra várias vezes. Ele é o autor da Declaração de Independência Palestina, escrita em 1988 e lida pelo líder palestino Iasser Arafat, quando declarou unilateralmente a criação do Estado Palestino. Darwish é considerado o poeta nacional da Palestina.

N. do T.: todas as traduções foram feitas a partir de versões em inglês dos poemas acima.