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John Updike – A morte da cachorra

Ela deve ter sido chutada ou atropelada por um carro sem que víssemos.Muito nova para saber muito, ela começava a aprenderA usar os jornais espalhados pelo chão da cozinhaE a ganhar, quando os molhava, as palavras “Boa garota! Boa garota!” Pensamos que seu reservado mal-estar era uma reação à vacina.A autopsia revelou que seu fígado…
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Juan Luis Panero – Palavras e presságios

Voltar a alguns versos de Kaváfis, de Eliot,como quem regressa a uma casa que foi nossa anos atrás.Repetir as sílabas, iluminar os símboloscomo cerradas salas, janelas empoeiradasque ocultam um jardim perdido, árvores da morte.Melancolia do regresso e medo do vazio,rangidos de madeira, agitar de sombras,e, de repente, em um quarto, perdidacomo um velho copo ou…
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Mary Oliver – Quebra

Eu desço até a beira-mar.Como tudo cintila na luz matutina!A cúspide da concha,o búzio quebrado do caracol,os mexilhões azuis abertos,lesmas-do-mar rosa-pálidas marcadas por cracas —e nada totalmente inteiro ou fechado, mas esfarrapado, partido,abandonado pelas gaivotas sobre as rochas cinzentas com toda umidade exaurida.É como uma escolade palavras miúdas,milhares de palavras.Primeiro, compreendemos o significado de cada…
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Raymond Carver – Um passeio

Saí para caminhar pelos trilhos do trem.Caminhei algum tempo por elese cheguei ao cemitério do povoado,onde um homem descansa entreduas esposas. Emily van der Zee,Mãe e Esposa Amada,está à direita de John van der Zee.Mary, a segunda senhora Van der Zee,também uma Esposa Amada, à sua esquerda.Primeiro Emily se foi, depois Mary.Anos mais tarde, foi…
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Sharon Olds — Cemitério de Leningrado, Inverno de 1941

Naquele inverno, os mortos não puderam ser enterrados.O solo estava congelado, os coveiros fracos de fome, a madeira dos caixões era usada como combustível. Por isso, eles foram cobertos com algoe levados em um trenó de criança para o cemitério,no ar abaixo de zero. Eles jaziam no solo,alguns envoltos em um pano escuroamarrado com corda…
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Anna Akhmátova – Cleópatra

Os palácios de AlexandriaCobriram-se de sombras suaves.Púschkin Ela já beijara os lábios de Antônio, sem vida,E chorava, de joelhos, ante Augusto, vencida…E os servos a traíram. Sob a águia de RomaAs trombetas ressoam. E o crepúsculo assoma. E chega o último escravo de sua beleza.Alto e solene, num sussurro, ele pondera:“Vão te levar para ele……
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Aleksandr Blok – Cleópatra

Cleópatra O museu triste da rainhaHá um, dois, três anos já se abriu.Bêbada e louca a turba ainda se apinha…Ela espera no túmulo sombrio. Jaz na sinistra caixaDe vidro, nem morta nem viva.Sobre ela a multidão salivaPalavras torpes em voz baixa. Ela se estende preguiçosamenteNo sono eterno a que se recolhera…Lenta e suave, uma serpenteMorde…
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Ian Hamilton – A Tempestade

Longe, uma tempestade irrompe. Ela avança em ondas até o nosso quarto.Olhas para a luz, de modo que ela ilumina um ladoDo teu rosto, tua boca contraída, teu assustado olhar.Voltas-te para mim e quando chamo, tu vensE ajoelhas-te ao meu lado, desejando que eu tomeTua cabeça entre minhas mãos, como se fosseUma delicada tigela que…
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Faith Shearin – Lição de Piano

Meus olhos se abrem antes que o sol derrame sua gema no céu;uma garota no andar de cima pratica escalas. Imagino o arcode sua mão, a sua saia que paira acima do joelho. Na rua, ouço um indigente, um copo de papel, um homem que discutefísica com um pombo; um par de meninas sopra bolas…
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Francisco Brines – Aquele verão de minha juventude

E o que restou daquele distante verãonas costas da Grécia?O que resta em mim do único verão de minha vida?Se pudesse escolher, de todos em que vivi,algum lugar, e o tempo que o ata,sua milagrosa companhia me arrasta até lá,onde ser feliz era a razão natural de existir. Perdura a experiência, como um quarto fechado…