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Ross Gay – Como aprender a amar o seu pai

Coloque suas mãos sob as axilas dele, dobre os joelhos,aguarde o encaixe de seus braços que afinam; o melhor abraçoé face a face. Movimente-se devagar. Procure não se lembrar,neste momento, das formas que ele traçou ontemem suas costas, momentos antes de ser levado para a cirurgia.Não finja que a ansiosa caligrafia do toqueera um sinal…
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Ángel González – Aniversário

Eu percebo: como estou me tornandomais incerto, confuso,dissolvendo-me no arcotidiano, brutopedaço de mim, desgastadoe em frangalhos. Eu compreendo: vivimais um ano, e isso é muito duro.Pulsar o coração todos os diasquase cem vezes por minuto! Viver um ano requermorrer muito muitas vezes. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 15/04/2019 Mais do…
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Timothy Liu – Thoreau

Meu pai e eu não temos para onde ir.Sua esposa não nos deixa entrar em casa —medo de contrair AIDS. Ela acredita quedormir com homens é pior do que um pecado,meu pai diz, enquanto nos sentamos no meio-fioem frente à casa dos vizinhos.Sessenta e quatro anos tornaram meu paiimpotente. Raízes grisalhas e tinta pretadesbotada manchando…
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Raymond Carver – A cabine telefônica

Ela desaba na cabine, chorandono telefone. Perguntando uma coisaou outra, e chorando um pouco mais.Seu companheiro, um camarada mais velho,usando jeans e camiseta, aguarda em péa sua vez de falar, e chorar.Ela passa o telefone para ele.Por um minuto eles ficam juntosna minúscula cabine, as lágrimas delerolando junto com as dela. Entãoela vai se encostar…
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Mary Oliver – Às vezes

1. Algo emergiuda escuridão.Não era nada que eu já tivesse visto antes.Não era um animalou uma flor,a menos que fosse ambos. Algo emergiu da água,uma cabeça do tamanho da de um gatomas enlameada e sem orelhas.Eu não sei o que é Deus.Eu não sei o que é a morte. Mas creio que eles tenham entre…
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Joan Margarit – O ano em que ela morreu

Na fotografia em sépiaés jovem e sorri. Faz-me lembraras mulheres dos filmes de guerrada minha infância:barcos na neblina, trens noturnose grandes cidades sob o alarme aéreo.Na lápide está escrito que ela se foino inverno de 44,aos vinte anos, quando me apaixonavapela sufocante escuridãocruzada por um raio de luz, a heroínados sonhos de amor de minha…
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Tomas Tranströmer – Postais Pretos

I O calendário está repleto; o futuro é incerto.Os fios entoam uma canção folclórica apátrida.A neve cai sobre o mar cinzento. Sombrascombatem no cais. II No meio da vida, eis que a morte chegae tira nossas medidas. Essa visita logoé esquecida, e seguimos com a vida. Mas a vestesegue sendo silenciosamente cosida. Trad.: Nelson Santander…
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Manuel António Pina – Corpo Presente

Toda a casa suspenderaa respiraçãoincapaz de contertamanha desproporção, e eu próprio desapareceraalgures na sala, entre a tua vida e a tua morte.Atenderam o telefonefalando baixo, temendo que regressassecada coisa do teu lugarsem estar prontos aindapara a tua solidão. Faltava muitopara podermos perceber,muitos passos para chegarmosaonde sempre estivéramos: mais perto do tédio do que da esperança,da…
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Jan Heller Levi – Nada mal, pai, nada mal

Acho que você é mais você mesmo quando está nadando;fatiando a água a cada braçada,a maneira engraçada como respira, a boca arqueadacomo se estivesse bocejando. Você não é incrível nem péssimoindo daqui para lá.Você não ganharia nenhuma medalha, pai,mas não se afogaria. Penso em como tudo poderia ter sido diferente se eutivesse julgado seu amorcomo…
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Luís García Montero – Resumo dos fatos

Falei com a morte por telefonee recebi e-mails de amor que foram apagadossem deixar uma única lágrima em papel amarelo.Ninguém esqueça os tempos, mas ninguém se engane:no final, apenas o amor e a morte importam. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 05/04/2019 Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre…