-
Daniel Faria – Infância

e jogava o pião com Deusenquanto minha mãe estendia roupae o meu pai mendigava o pão e minha alegria nesse tempoera muito próxima da dos meninose de Deus que ganhava sempre e não sei quem perdi primeiro: o pião ou Deusapenas sei que Deus continuaa jogar com outros meninos e que no Outono quando saio à…
-
Mark Strand – A história

É a velha história: queixas sobre a luaafundando no mar, sobre as estrelas desvanecendo na primeira luz,sobre o gramado molhado de orvalho, o frio e prateado gramado. E por aí vai: um homem olha para a própria sombrae afirma serem as cinzas de si mesmo se desprendendo, diz que seus diassão os verdadeiros buracos negros…
-
Joshua Poteat – Ferrotipia

FERROTIPIA Florestas inteiras foram para o mar disfarçadas de navios. Mares inteiros foram para as florestas Disfarçados de tempo. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog TINTYPEWhole forests went to sea disguised as ships. Whole seas went to forestdisguised as…
-
Luis Alberto de Cuenca – O véu protetor

Amanheceu e nós estávamos dentroda vil realidade, o que não podeser bom. Melhor seria que passassemlogo as horas inúteis em que o diaproscreve a aventura com as normasdo tédio laboral, e que voltassema noite e as suas estrelas a envolver-nosno seu véu fantástico e a dar-nosa inútil sensação de estarmos vivos. Trad.: Miguel Filipe Mochila…
-
Jim Harrison – Transformação

Nenhum lugar é o mesmo de ontem.Nenhum de nós é o mesmo de ontem.Por fim, morremos pela exaustão da transformação.Este júbilo celular em declínio é compartilhadopelo vento, insetos, aves, ursos e rios,e talvez pelos buracos negros no espaço galácticoonde nossas almas serão todas reunidas em um invisíveldedal de antimatéria. Mas não vamos nos precipitar.Sim, as…
-
Gonçalo M. Tavares – uma síntese disto tudo

é porque existe o desejo, o olfato, e o medo,e os vivos apaixonam-se por outros vivos,e lembram-se, por vezes, do enorme número de mortos,e dentro destes há alguns que os fazem desligar a luz e o trabalho,e o quotidiano aí já não basta,porque o coração tem em certos dias um orçamento incomportável E não basta…
-
Amadeu Baptista – Sentido

Deixou de fazer sentido voltarPara casa para comer sozinho,Para dormir sozinho, para viverSozinho. Nenhum cão me espera, Nenhuma jarra onde tenhas postoUm ramo de rosas amarelas, Um lenço perfumado, uma almofadaEm que tenham ficado as tuas marcas De sono agitado. Deixou de fazerSentido ter em frente este horizonteDe pedras que o mar já não contém,…
-
Ian Hamilton – Última Valsa

De onde estamos quase conseguimos identificarOs rostos destas pessoas que não conhecemos:Um semi-círculo sombreadoAo redor do enorme aparelho de TV doadoQue domina nossa ala. A ‘Última Valsa’ espalha-se sobre elesIluminandoAmistosos, exaustos sorrisos. E nós,Como se nos importássemos, também sorrimos. Para cada alma perdida, nesta hora tardia,Um sedado espasmo de felicidade. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO: poema…
-
Laura Gilpin – Canção Noturna

E quando elaacordou de repenteno quarto vaziogritando mãe, mãe, a lua, observandoà distância, ergueu-sesobre a sua camae lá permaneceu,até que elaadormecesse. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Night Song And when she woke suddenly in the empty room crying…
-
Raymond Carver – Fragmento final

E você teve o que queriadesta vida, apesar de tudo?Tive.E o que você queria?Dizer que fui amado, me sentiramado sobre a terra.* Trad.: Cide Piquet * N. do T.: “Late Fragment” foi publicado no último livro de poesia de Carver, intitulado “A New Path to the Waterfall”, que foi lançado postumamente em 1989. O poema…