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Javier Salvago – Convém não esquecer

Por esta via que chamam vida, vamos com cautela devida, tal qual um cego. Mas em cinzas termina todo e qualquer fogo. Trad.: Nelson Santander Javier Salvago – Conviene no Olvidarlo Por esta senda, que llaman vida, todos vamos a tientas, igual que un ciego. En ceniza terminan todos los fuegos.
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Vítor Nogueira – Gelo

Agora é apenas um café com paredes adornadas, imagens retratando destemidos ancestrais. O tempo foi passando, não foi? Um acidente em câmara lenta a uma escala cataclísmica. Grande parte daquilo que fazemos é construir memória, uma promessa frágil ao futuro. E pensar que na vida acumulamos tanta coisa, sobretudo se por hábito não deitamos nada…
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Nuno Júdice – Passado

Passou o vento, passou o dia, passou a noite e a manhã, passou o tempo, passou a gente, passou cada hora de amanhã; passou um canto esquecido nos cantos de cada passo, passou ao dizer que passo sem se lembrar do compasso; passou a vida como se nada fosse, só passou e foi-se embora, passou…
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Manuel António Pina – O Regresso

Como quem, vindo de países distantes fora de si, chega finalmente aonde sempre esteve e encontra tudo no seu lugar, o passado no passado, o presente no presente, assim chega o viajante à tardia idade em que se confundem ele e o caminho. Entra então pela primeira vez na sua casa e deita-se pela primeira…
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Inês Dias – Reconquista

Do meu bisavô, ferreiro e construtor de pontes, conheci apenas as iniciais, gravadas na pedra com que tomara o último dos elementos. Mas a sul do passado, o meu avô repetia-lhe ainda os gestos, ensinando-me a travar as marés com pequenos diques improvisados – paus de gelado, seixos, pedacinhos de cordel. Nunca mais o futuro…
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Nelson Santander – Philip Roth

Morreu Philip Roth, meu último grande herói literário. Sua vasta bibliografia explora uma gama enorme de temas, mas a faceta que mais me impressionou foi a que ele abordou em seus últimos livros: a questão da velhice. A leitura de “Homem Comum” – principal obra de Roth sobre o tema – há cerca de 8…
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Lawrence Ferlinghetti – Café Notre Dame

Uma espécie de trauma sexual prende um casal abismado Ele está segurando as duas mãos dela nas suas Ela está beijando as mãos dele Estão olhando-se nos olhos de muito perto Ela tem um casaco de peles feito duma centena de coelhos correndo Ele tem um casaco clássico sombrio e calças cinza-de-pardo Agora estão a…
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Marina Tzvietáieva – Um poema em duas traduções

Tentativa de ciúme – Trad.: Augusto de Campos Como vai você com a outra? Fácil, não é? — Um golpe de remo! — E de pronto a linha da costa Se foi e você já nem se lembra De mim, ilha flutuante (No céu, por certo, não no mar)! Almas! Almas! — antes amar Como…
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Anne Sexton – Para o meu Amante Voltando Para a Esposa

Ela está bem aqui. Ela foi cuidadosamente esculpida para você saída de sua infância saída dentre seus cem colegas de escola preferidos. Ela sempre esteve aqui, meu bem. Ela é de fato extraordinária. Fogos de artifício no meio do sempre maçante Fevereiro e tão real como uma panela de ferro fundido. Vamos ser sinceros, eu…
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Mario Benedetti – Tempo sem Tempo

Preciso de tempo, necessito desse tempo que os outros deixam de lado porque lhes sobra ou já não sabem o que fazer com ele tempo em branco em rubro em verde mesmo em castanho escuro não me importa a cor cândido tempo que eu não posso abrir e fechar como uma porta tempo para olhar…