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Andreia C. Faria – Descarnação

Até aos trinta anos tens a cara que Deus te deu. Depois tens a cara que mereces. É uma promessa de ironia, uma sentença sem recurso. É-te assim dito: estás entregue ao labor íntimo do que comes, ao número de horas que dormes, àquilo que fazes e sobretudo àquilo em que pensas. Deus (perdoa-lhe a…
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Nelson Santander – Mudança Singular
Resolvi mudar o blog. De hoje em diante, além de umas perfumarias que fiz na página, o blog passará a se chamar “singularidade”. Por quê? Primeiro, porque o nome anterior era muito feio. A ideia de criar um blog para divulgar poemas (principalmente), textos, vídeos, traduções e outras coisas de que gosto, veio meio de…
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Piedad Bonnett – Volta à Poesia

Outra vez volto a ti. Cansada venho, definitivamente solitária. Minha bolsa cheia de tristeza trago, carregada de penas infinitas, de dor. Dos desertos venho com os lábios ardentes e o olhar cego pelo vento forte e a dura areia. Abrasada de sede, venho beber de teus profundos mananciais, render-me em teus braços, fundos braços de…
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Joan Margarit – Vozes de Crianças

O amanhã nos meus olhos é de um cinzento triste, é uma teia de luz cansada onde recordo quando iam dormir. Ainda lhes leio naquele quarto, debaixo da lâmpada ao lado da cama, os contos com capas duras de cores brilhantes. De súbito, em alguma madrugada, ouço uma criança que me chama e incorporo-me, mas…
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Jorge Luis Borges – James Joyce (em três traduções)

Primeira tradução: Carlos Nejar e Alfredo Jacques.Revisão de trad.: Maria Carolina de Araújo e Jorge Schwartz Em um dia do homem estão os diasdo tempo, desde o inconcebíveldia inicial do tempo, em que um terrívelDeus prefixou os dias e agonias,até aquele outro em que o ubíquo riodo tempo terrenal torne a sua fonte,que é o…
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Emily Dickinson – “Senti um Féretro em meu Cérebro…”

Senti um Féretro em meu Cérebro,E Carpideiras indo e vindoA pisar — a pisar — até eu sonharMeus sentidos fugindo — E quando tudo se sentou,O Tambor de um Ofício —Bateu — bateu — até eu sentirInerte o meu Juízo E eu os ouvi — erguida a Tampa —Rangerem por minha Alma comTodo o Chumbo…
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Herberto Helder – A Paixão Grega

Li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,quando alguém morria perguntavam apenas:tinha paixão?quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:se tinha paixão pelas coisas gerais,água,música,pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,paixão pela paixão,tinha?e então indago de mim se…


