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Mário Cesariny – “de profundis amamus”

Ontem às onze fumaste um cigarro encontrei-te sentado ficámos para perder todos os teus eléctricos os meus estavam perdidos por natureza própria Andámos dez quilómetros a pé ninguém nos viu passar excepto claro os porteiros é da natureza das coisas ser-se visto pelos porteiros Olha como só tu sabes olhar a rua os costumes O…
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Rui Pires Cabral – Nunca se Sabe

Papéis velhos com poemas: são o joio das gavetas. Relê-los causa aversão e uma espécie de tristeza arrependida – são tão nossos como as más recordações e ainda vemos a circunstância precisa, a causa, a ferida, por detrás de cada um. Mas na altura havia esperança: é isso que representam. Não pelas coisas que dizem…
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Amalia Bautista – Ver o Sol

Era tudo mentira e me convençono momento mais inoportuno.O amor não era amor. Eram os beijosuma maneira de saciar a sede.As carícias, o modo de nos guiarmosno meio da noite. Ouço agoraa voz da tristeza: se pretendesver o sol, deves à contraluzcontemplar um ovo semicozido. Trad.: Nelson Santander Ver el sol Era todo mentira y…
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José Mateos – Caminhantes na Neblina

Símbolo da morte é esta neblina que hoje me envolve nos ecos do bosque solitário, que apaga os caminhos e tudo iguala, que faz mais longe o próximo? Assim será a morte? Ouvir ao lado as pessoas que amamos e não vê-las? Saber que em nossa casa nos aguardam, e não poder, e não saber…
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José Tolentino Mendonça – Calle Principe, 25

Perdemos repentinamente a profundidade dos campos os enigmas singulares a claridade que juramos conservar mas levamos anos a esquecer alguém que apenas nos olhou
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Angela Figuera Aymerich – Princípio e Fim (na morte de minha mãe)

Já tenho minha raiz debaixo da terra. Já um pouco morta contigo, mãe, há algo da minha vida que se decompõe contigo, com teus ossos delicados, com tuas veias azuis, com teu ventre que côncavo sofreu, dando-me forma. Na ignorância, mãe, não no pecado mostraste-me como a vida brota. Como a carne cresce e se…
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Spencer Reece – Portofino

Prometa-me que você não esquecerá Portofino. Prometa-me que você encontrará o trompe l’oeil nas paredes daquele quarto no Splendido. As paredes que criam um cenário em que você não pode entrar. Talvez então você compreenda esse anseio por permanência do qual sempre lhe falei. Além do porto? Uma capela amarela. Um penhasco. Prometa-me que você…
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Jesús Jiménez Domínguez – A Ponte no Nevoeiro

Detenho-me a meio do caminho e ouço. Num extremo aquele que fui grita-me: Espera-me! No outro, aquele que serei sussurra-me: Segue-me. E a ponte, eterna, não aguenta o peso dos três. Trad.: Maria Sousa El Puente en la Niebla Me detengo a mitad del recorrido y escucho. En un extremo aquel que fui me grita:…
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José Gomes Ferreira – Viver Sempre Também Cansa!

Viver sempre também cansa! O sol é sempre o mesmo e o céu azul ora é azul, nitidamente azul, ora é cinza, negro, quase verde… Mas nunca tem a cor inesperada. O Mundo não se modifica. As árvores dão flores, folhas, frutos e pássaros como máquinas verdes. As paisagens não se transformam Não cai neve…
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Chico Amaral e Samuel Rosa – As Noites
As ruas desse lugar Conhecem bem As noites longas, as noites pálidas Quando eu te procurava As casas desse lugar Se lembrarão Do nosso abraço, da sombra insólita Espelho azul no chão As ruas desse lugar Agora eu sei Sempre escutaram a nossa música Quando eu te respirava As pedras municipais Se impregnaram Da dupla…