-
Raymond Carver – Um passeio

Saí para caminhar pelos trilhos do trem.Caminhei algum tempo por elese cheguei ao cemitério do povoado,onde um homem descansa entreduas esposas. Emily van der Zee,Mãe e Esposa Amada,está à direita de John van der Zee.Mary, a segunda senhora Van der Zee,também uma Esposa Amada, à sua esquerda.Primeiro Emily se foi, depois Mary.Anos mais tarde, foi…
-
Ian Hamilton – A Tempestade

Longe, uma tempestade irrompe. Ela avança em ondas até o nosso quarto.Olhas para a luz, de modo que ela ilumina um ladoDo teu rosto, tua boca contraída, teu assustado.Voltas-te para mim e quando chamo, tu vensE ajoelhas-te ao meu lado, desejando que eu tomeTua cabeça entre minhas mãos, como se fosseUma delicada tigela que a…
-
Francisco Brines – Aquele verão de minha juventude

E o que restou daquele distante verãonas costas da Grécia?O que resta em mim do único verão de minha vida?Se pudesse escolher, de todos em que vivi,algum lugar, e o tempo que o ata,sua milagrosa companhia me arrasta até lá,onde ser feliz era a razão natural de existir. Perdura a experiência, como um quarto fechado…
-
Paulo Henriques Britto – de “Duas autotraduções”

(CADERNO, XIV)II Isto, também, será lembrado um dia,porém não tal qual é sentido agora.Não que as lembranças sejam distorcidasde propósito; é só porque a memória,entre o vivido e o lembrado, interpõecomo que um filtro, com pequenas falhasou até mesmo substituições –nem tanto por mentiras deslavadas,mas por versões plausíveis do ocorrido.São mudanças sutis, que se desculpam,como…
-
Joan Margarit – Amor e tempo

Lembras quando ainda desconheciasque a vida não teria piedade de ti?Amor e tempo: o tempo nos habitacomo a areia do rio que, lentamente,vai moldando a forma da margem.O amor, que refletiu em teu olharo esplendor da ilha do tesouro.Sensual, solitária, cercadapela sonora senectude do mare os gritos militares das gaivotas.O sonho clandestino dos cinquenta anos.…
-
Manuel António Pina – As vozes

A infância vem pé ante pé sobe as escadas e bate à porta – Quem é? – É a mãe morta – São coisas passadas – Não é ninguém Tantas vozes fora de nós! E se somos nós quem está lá fora e bate à porta? E se nos fomos embora? E se ficamos sós?
-
William Soares dos Santos – A força do desejo

A força do desejo se desfaz tão logo se saciam as tensões ferozes do corpo e dos hemisférios e no destino dos braços do tempo os amantes se perdem em mistérios
-
Manuel Vilas – O último Elvis

Respeita sempre a decadência das mulherese dos homens que amaram ou pelo menos tentaram amara vida e esta os chamuscou ou lhes quebrou os ossos da face,as entranhas e as veias e o fígado e o nobre coração.Respeita todos os sagrados e humildes naufrágiosdos seres humanos. Respeita aqueles que se suicidaram. Respeita aqueles que se…
-
Walter Savage Landor – Epitáfio

Não lutei com ninguém; nada valia a lida.Amei a natureza, e, tanto quanto, a arte;As mãos, estas aqueci no fogo da vidaQue naufraga; estou pronto para o desate. Trad.: Nelson Santander Walter Savage Landor – Dying Speech of an Old Philosopher I strove with none, for none was worth my strife:Nature I loved, and, next…
-
Giuseppe Ungaretti – In Memoriam

Locvizza, 30 de setembro de 1916 Chamava-seMoammed Sceab Descendentede emires de nômadessuicidaporque não tinha maisPátria Amou a Françae mudou de nome Foi Marcelmas não era francêse já não sabiaviverna tenda dos seusonde se escuta a cantilenado Alcorãosaboreando um café E não sabiadesataro cantodo seu abandono Acompanhei-ojunto com a dona da pensãoonde vivíamosem Parisdo número 5…