rocío – “não é que me sinta mais velha, mãe, é que todos esses meses…”

não é que me sinta mais velha, mãe, é que todos esses meses
todos os dias tendo que ser forte, fico cansada
pela manhã, acordo abraçada ao travesseiro e às vezes não sei o que dizer pra mim mesma
para levantar de minha pequena e solitária cama
em alguns meio-dias, se tomo cerveja, sinto-me um pouco otimista
mas depois, na hora do café inadvertidamente sinto o cheiro de algumas lembranças,
aqueles rotineiros dias de felicidade em que depois de comer
ele colocava a cafeteira no fogão e eu o observava do sofá
aquelas coisas cotidianas, um pouco insignificantes ou pequenas, como diz o teu querido cantor e compositor
a mim me bastava para sentir-me uma mulher feliz
agora contudo não posso dizer o mesmo, e me custa realmente compreender
o que mudou, porque eu obviamente não fui
tu sabes que quando amo, o faço instintivamente e sem medo, pra valer
e assim eu o amei desde o primeiro momento, com aquela entrega absoluta e sem limites
que penso agora se parecem de alguma forma com a tua bondade, essa bonita qualidade que como o amor
nunca é suficiente para quem recebe, e contra isso não se pode fazer nada
de maneira que ao cair da tarde não sei a que me aferrar e saio a caminhar pela
cidade
esse velho costume de arrastar-me pelas ruas e acabar sempre em nenhum lugar
ou quiçá pior, de novo e de novo exatamente no mesmo
sem saber como ou por onde devo continuar
vês, não tenho nenhuma certeza, mãe, como poderia tê-las?
se só sei fazer-me perguntas que não consigo nunca responder
se não consigo entender o que aconteceu e a incompreensão
penetra meu pensamento com uma insuportável e árdua insistência
especialmente quando tudo está submerso naquela quietude que invoca a escuridão da noite
e chega, às vezes discreto, outras feroz, o desespero
embora eu prefira não escrever sobre essa emoção tão pouco digna, compreenda-me
o que é importante que saibas é que apesar de tudo eu estou bem
estou despedaçada mas tranquila, esgotada e sem forças ainda que, meio relutante, viva
às vezes sinto o duro peso da distância, mas sei que já não é possível regressar
por sua vez o trabalho não me entusiasma, embora, vês, me deixa tempo para escrever
comecei a falar muito com o gato porque passo muito tempo sozinha com ele
mas não é nada grave e o médico me disse que eu não preciso continuar tomando ferro
não me queixo, mãe, dentro em pouco chegará o outono com seu frio morno e dourado
e ao caminhar sob o sol pelo passeio do rio sorrirei embora sem querer me lembre
que esse homem será todos os dias, até o fim de todos os caminhos, o amor da minha vida

Trad.: Nelson Santander

rocío – “no es que me sienta mayor, madre, es que todos estos meses así…”

no es que me sienta mayor, madre, es que todos estos meses así
cada día teniendo que hacerme fuerte, me cansan
por las mañanas, amanezco abrazada a la almohada y a veces no sé qué decirme
para levantarme de mi pequeña y solitaria cama
algunos mediodías, si tomo cerveza, me siento un poco optimista
pero luego, a la hora del café ya huelo sin querer algunos recuerdos
esos días felizmente rutinarios en los que después de comer
él ponía en el fuego la cafetera y yo lo miraba desde el sofá
esas cosas cotidianas, algo insignificantes o pequeñas, como dice tu querido cantautor
a mí me bastaban para sentirme una mujer dichosa
ahora en cambio no puedo decir lo mismo, y me cuesta realmente comprender
qué es lo que ha cambiado, porque yo no he sido desde luego
tú sabes que cuando amo, lo hago instintivamente y sin miedo, para siempre
y así lo he querido a él desde el primer momento, con esa entrega absoluta y sin límites
que pienso ahora se parecen en algo a tu bondad, esa bonita cualidad que como el amor
nunca es suficiente para quien recibe, y contra eso no se puede hacer nada
de manera que al caer la tarde no sé a qué aferrarme y salgo a caminar por la ciudad
esa vieja costumbre de arrastrarme por las calles y acabar siempre en ningún lugar
o quizá peor, una y otra vez exactamente en el mismo
sin saber cómo ni hacia dónde debería seguir
ya ves, no tengo ninguna certeza, madre ¿cómo podría tenerla?
si solo sé hacerme preguntas que no consigo nunca responder
si no logro entender qué ha sucedido y la incomprensión
me taladra el pensamiento con una insoportable y ardua insistencia
especialmente cuando todo se sumerge en esa quietud que invoca la oscuridad de la noche
y llega, a veces discreta y otras feroz, la desesperación
aunque preferiría no escribir sobre esa emoción tan poco digna, compréndeme
lo que es importante que sepas, es que a pesar de todo me encuentro bien
estoy rota pero tranquila, agotada y sin fuerzas aunque, un poco a mi pesar, viva
a veces siento el fatigoso peso de la distancia, pero sé que ya no es posible regresar
por su parte el trabajo no me entusiasma aunque ya ves, me deja tiempo para escribir
he comenzado a hablar demasiado con el gato porque paso mucho tiempo sola con él
pero no es nada grave y el médico me ha dicho que ya no tengo que seguir tomando hierro
no me quejo, madre, dentro de poco llegará el otoño con su frío tibio y dorado
y al andar bajo el sol por el paseo del río sonreiré aunque sin querer recuerde
que ese hombre será cada día hasta el final de todos los caminos, el amor de mi vida

Paulo Henriques Britto – À margem do Douro

Não espero nada, e já me satisfaço
com a consciência de ainda estar em mim
e não de volta ao nada de onde vim.
Por ora, ao menos, ainda ocupo espaço,
junto a uma mesa no Cais da Ribeira;
permito-me, sem culpa, desfrutar
de pão, e queijo, e vinho, e vista, e ar,
todo o entorno da minha cadeira.
Que os dias que me restam não me tragam
apenas a miséria de contá-los
pra ao fim ver que as contas não fecham. Peço
demais? Eu, que não sou desses que tragam
a vida num só gole e no gargalo,
sem ter nem mesmo perguntado o preço.

Joan Margarit – Professor Bonaventura Bassegoda

Recordo-o alto e gordo,
atrevido, sentimental. Você, então,
era uma autoridade em Alicerces Profundos.
Sempre iniciava suas aulas assim:
“Senhores, bom dia.
Hoje faz tantos anos, tantos meses
e tantos dias que minha filha morreu”.
E costumava secar algumas lágrimas.
Tínhamos vinte anos, mais ou menos,
e o homem corpulento que você era,
chorando no meio da classe,
nunca nos fez sorrir.
Há quanto tempo você não conta o tempo?
Tenho pensado em nós e em você,
hoje que sou uma amarga sombra sua
porque faz agora dois meses,
três dias e seis horas
que minha filha tem seus
profundos alicerces na morte.

Trad.: Nelson Santander

Profesor Bonaventura Bassegoda

Le recuerdo alto y grueso,
procaz, sentimental. Usted, entonces,
era una autoridad en Cimientos Profundos.
Inició siempre nuestra clase así:
«Señores, buenos días.
Hoy hace tantos años, tantos meses
y tantos días que murió mi hija».
Y solía secarse alguna lágrima.
Teníamos veinte años, más o menos,
y el hombre corpulento que usted era
llorando en plena clase,
nunca nos hizo sonreír.
¿Cuánto hace ya que usted no cuenta el tiempo?
He pensado en nosotros y en usted,
hoy que soy una amarga sombra suya
porque mi hija, ahora hace dos meses,
tres días y seis horas
que tiene sus profundos cimientos en la muerte.

Rui Knopfli – Fim de tarde no café

Na tarde cor de azebre
falávamos de coisas amargas.
Ali, na mesa triste do café
com moscas adejando
sobre restos de açúcar
e um copo de água
morna de esquecida,
falávamos da amargura das coisas,
entre rostos graníticos e enxovalhados,
entre estranhos e estranhos
de estranhos e os que,
nada tendo de estranhos,
cuidam de cuidar
o que se passa entre estranhos.
Na tarde comprida e silenciosa
tecíamos gestos inúteis
e palavras entre dentes,
mergulhados na paisagem geométrica
do café. Do café tão cheio de gente
e fumo e moscas e caras tristes
e afinal tão profundamente,
tão desesperadamente vazio.

Juan Vicente Piqueras – Os deuses Internos

Os deuses sabem mais e melhor do que nós
do que precisamos. Pedimos-lhes um filho,
e nos enviam um lobo, e não os compreendemos.

A vida diariamente os esquece.
A morte à noite os inventa.

E as doenças, como diz o sábio,
são deuses que agonizam dentro de nosso corpo,
seu último templo em ruínas,
seu refúgio sem fé. Imploram compaixão.

Os deuses não compreendem a estranha insensatez
com que decidimos acabar conosco
acabando com eles, o orgulho
com que os desprezamos.

Os deuses pedem pouco: que não os esqueçamos.

Mas é pedir demais a uma espécie escrava
que fez do esquecimento sua missão e sua vida
e sua razão de ser.
Os deuses se calam,
resignados, e morrem em silêncio
dentro de cada um de seus antigos súditos.

Trad.: Nelson Santander

Los Dioses Dentro

Los dioses saben más y mejor que nosotros
lo que nos hace falta. Les pedimos un hijo
y nos mandan un lobo, y no los comprendemos.

La vida cada día los olvida.
La muerte por la noche los inventa.

Y las enfermedades, como bien dijo el sabio,
son dioses que agonizan dentro de nuestro cuerpo,
su último templo en ruinas,
su refugio sin fe. Piden piedad.

Los dioses no comprenden la extraña insensatez
con que hemos decidido acabar con nosotros
acabando con ellos, el orgullo
con que los despreciamos.

Los dioses piden poco: que no los olvidemos.

Pero es mucho pedirle a una raza de esclavos
que han hecho del olvido su misión y su vida
y su razón de ser.
Los dioses callan,
resignados, y mueren en silencio
dentro de cada uno de sus antiguos súbditos.

Vladimir Holan – A Neve

A neve começou a cair à meia-noite. E não há dúvida
de que o melhor para o homem é estar sentado na cozinha,
ainda que seja a da insônia.
Ali faz calor, preparas-te algo, bebes vinho
e contemplas pela vidraça a eternidade familiar.
Por que te atormentarias querendo saber se nascimento e morte são apenas dois pontos,
sabendo que a vida não é uma linha reta…
Por que te torturarias ao ver o calendário
e inquietar-te-ias querendo saber o que está em jogo?
Por que admitirias que não tens dinheiro sequer
para comprar um par de sapatos para Saskia?
E por que haverias de jactar-se
de que sofres mais que os outros?

Embora não existisse silêncio na terra
Este nevar já o teria criado em seu sonho.
Estás só. Nenhum gesto. Nada a ostentar.

Trad.: Nelson Santander a partir de versão em espanhol de Josef Forbelski

Vladimir Holan – La Nieve

La nieve empezó a caer a medianoche. Y no hay duda
de que como mejor está el hombre es sentado en la cocina,
aunque sea la del insomnio.
Allí se está caliente, te preparas cualquier cosa, bebes vino
y contemplas por la ventana la eternidad familiar.
Por qué ibas a atormentarte queriendo saber si nacimiento y muerte son sólo dos puntos,
sabiendo que la vida no es una línea recta…
Por qué te ibas a torturar al ver el calendario
y a inquietarte queriendo saber qué valor hay en juego.
¿Y por qué ibas a confesarte que no tienes dinero
para comprarle unos zapatos a Saskia?
¿Y por qué ibas a jactarte
de que sufres más que los otros?

Aunque no hubiese silencio en la tierra
este nevar ya lo habría creado en su sueño.
Estás solo. Ni un gesto. Nada de ostentación.

Bruno Darcoleto Malavolta – Epicurus Revisited

disco, agulha, caixas
onde ouço os sonhos de coltrane e duke ellington
o velho violão em que aprendi os primeiros acordes
o novo violão, superior, trincado
poemas que li, poemas que escrevi, por todos os lados
uma cadeira, uma mesa, um cigarro, um filtro de água
o meu corpo cercado por gatos neste exato
ponto do espaço-tempo
– sou rico.

Juan Luis Panero – Mensagem de Antonio a Cleópatra

Mensagem de Antonio a Cleópatra

I

Elogiem outros
tua adormecida beleza,
a suavidade de tua pele em repouso,
a medida perfeição de teus membros.
Eu não vim para isso,
vim somente para te penetrar
pela frente e por detrás
como um punhal atravessa
a água transparente
e afunda e se perde
no poço sombrio.

Mensagem de Cleópatra a Antonio

II

Não louves minha beleza,
outros já o fizeram.
Penetra-me pela frente e por detrás,
faz-me sentir a vida na cintura
e que, enlaçados, teu corpo e o meu
possam deter a fúria atroz do tempo.
Mas, se chegar um dia em que o tempo nos alcance,
não te lamentes, estúpido bêbado,
e cai bravamente – Kaváfis já o escreveu –
nesse poço sombrio.

Trad.: Nelson Santander

Juan Luis Panero – Mensaje de Antonio a Cleopatra

I

Alaben otros
tu dormida belleza,
la suavidad de tu piel en reposo,
la medida perfección de tus miembros.
yo no he venido a eso,
he venido tan solo a penetrarte
por el pecho y por la espalda,
como un puñal atraviesa
el agua transparente
y se hunde y se pierde
en el pozo sombrío.

Mensaje de Cleopatra a Antonio

II

No alabes mi belleza,
otros ya lo han hecho.
penétrame por el pecho y la espalda,
hazme sentir la vida en la cintura
y que, enlazados, tu cuerpo y el mío
puedan detener la furia atroz del tiempo.
pero, si llega un día en que el tiempo nos alcance,
no te lamentes, estúpido borracho,
y cae con valor – Cavafis ya lo ha escrito-
a ese pozo sombrío.

José Asunción Silva – Obra Humana

No interior da floresta intocada
em que, uma noite, no início de maio,
tocou a velha ramagem folhada
da pálida lua o primeiro raio,

poucos meses depois a luz de gás
da aurora na estação iluminou
o curso da locomotiva audaz
que por trilhos duríssimos cruzou.

E onde fora certa vez um abrigo,
porto seguro de um alado enxame,
atravessou o espaço um escondido
telegrama de amor num fio de arame.

Trad.: Nelson Santander

José Asunción Silva – Obra humana

En lo profundo de la selva añosa
donde una noche, al comenzar de mayo,
tocó en la vieja enredadera hojosa
de la pálida luna el primer rayo,

pocos meses después la luz de aurora
del gas en la estación iluminaba
el paso de la audaz locomotora
que en el carril durísimo cruzaba.

Y en donde fuera en otro tiempo el nido,
albergue muelle del alado enjambre,
pasó por el espacio un escondido
telegrama de amor, por el alambre.

Carlos Drummond de Andrade – Desfile

O rosto no travesseiro,
escuto o tempo fluindo
no mais completo silêncio.
Como remédio entornado
em camisa de doente;
como na penugem
de braço de namorada;
como vento no cabelo,
fluindo: fiquei mais moço.
Já não tenho cicatriz.
Vejo-me noutra cidade.
Sem mar nem derivativo,
o corpo era bem pequeno
para tanta insubmissão.
E tento fazer poesia,
queimar casas, me esbaldar
nada resolve: mas tudo
se resolveu em dez anos
(memórias do smoking preto)
O tempo fluindo: passos
de borracha no tapete,
lamber de língua de cão
na face: o tempo fluindo.
Tão frágil me sinto agora.
A montanha do colégio.
Colunas de ar fugiam
das bocas, na cerração.
Estou perdido na névoa,
na ausência, no ardor contido
O mundo me chega em cartas.
A guerra, a gripe espanhola,
descoberta do dinheiro,
primeira calça comprida,
sulco de prata de Halley,
despenhadeiro da infância.
Mais longe, mais baixo, vejo
uma estátua de menino
ou um menino afogado.
Mais nada: o tempo fluiu.
No quarto em forma de túnel
a luz veio sub-reptícia.
Passo a mão na minha barba.
Cresceu. Tenho cicatriz.
E tenho mãos experientes.
Tenho calças experientes.
Tenho sinais combinados.
Se eu morrer, morre comigo
um certo modo de ver.
Tudo foi prêmio do tempo
e no tempo se converte.
Pressinto que ele ainda flui.
Como sangue; talvez água
de rio sem correnteza.
Como planta que se alonga
enquanto estamos dormindo.
Vinte anos ou pouco mais,
tudo estará terminado.
O tempo fluiu sem dor.
O rosto no travesseiro,
fecho os olhos, para ensaio.