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Manuel António Pina – Numa Estação de Metrô

A minha juventude passou e eu não estava lá. Pensava em outra coisa, olhava noutra direção. Os melhores anos da minha vida perdidos por distração! Rosalinda, a das róseas coxas, onde está? Belinda, Brunilda, Cremilda, quem serão? Provavelmente professoras de Alemão em colégios fora do tempo e do espa- ço! Hoje, antigamente, ele tê-las-ia amado…
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Ezra Pound – Metrô

A visão destas faces dentre a turba: Pétalas num ramo úmido, escuro. Trad.: Augusto de Campos In a station of the metro The apparition of these faces in the crowd; petals on a wet, black bough.
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Konstantinos Kaváfis – Coisas Ocultas

De tudo quanto fiz e quanto disse, não procurem saber quem eu era. Um obstáculo havia e transformou os meus atos e o meu modo de viver. Um obstáculo havia e me deteve cada vez em que eu ia falar. Os mais despercebidos dos meus atos, e, de meus escritos, os mais dissimulados – só…
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Rupi Kaur – preliminares

você envolve meu cabelo com os dedos e puxa é assim que você tira música de mim — preliminares Trad.: Ana Guadalupe You wrap you fingers around my hair and pull this is how you make music out of me — foreplay
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Bruna Beber – Romance em doze linhas

quanto falta pra gente se ver hoje quanto falta pra gente se ver logo quanto falta pra gente se ver todo dia quanto falta pra gente se ver pra sempre quanto falta pra gente se ver dia sim dia não quanto falta pra gente se ver às vezes quanto falta pra gente se ver cada…
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Sérgio Jockyman – Os votos

Pois desejo primeiro que você ame e que amando, seja também amado. E que se não o for, seja breve em esquecer e esquecendo não guarde mágoa. Desejo depois que não seja só, mas que se for, saiba ser sem desesperar. Desejo também que tenha amigos e que mesmo maus e inconsequentes sejam corajosos e…
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Felipe Benítez Reyes – O desenho na água

Bem sabes que estes anos passarão,que tudo terminará em literatura:a imagem das noites, as lendasda triunfante juventude e as cidadesvividas como corpos. Que estes anospassarão tu já sabes, pois são teuscomo se possuísses a neve e a neblina,como é do mar a bruma, ou do ara cor da tarde fugidia:pertences de ninguém e do nadasurgidos,…
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Juan Luis Panero – Palavras e presságios

Voltar a alguns versos de Kaváfis, de Eliot,como quem regressa a uma casa que foi nossa anos atrás.Repetir as sílabas, iluminar os símboloscomo cerradas salas, janelas empoeiradasque ocultam um jardim perdido, árvores da morte.Melancolia do regresso e medo do vazio,rangidos de madeira, agitar de sombras,e, de repente, em um quarto, perdidacomo um velho copo ou…
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José Fernando Guedes – Adeus meu pai

Continuo a vislumbrar o olhar que meu pai Me lançou, há tantos anos, lá da janela De onde morava. Eu realmente não vi com precisão Esse derradeiro olhar para mim. Era mais como um grito para dentro Que ele lançava. Meu nome talvez. Me acenou e foi o último acenar seu. Nessa despedida que eu…
