Wilfred Owen – Futilidade

Coloquem-no à luz do sol… Em casa
Seu toque gentil o acordava com a lembrança
De campos ainda por plantar…
O sol o acordou sempre, até na França,
Até chegarem a manhã de hoje e a neve que aí está.
Se alguma coisa pode acorda-lo agora,
Só o velho sol saberá.

Lembrem que também acorda sementes…
E que há muito acordou a argila de uma estrela fria…
Então os braços perfeitos e seu corpo
Tão rico em nervos (e ainda quente) rijos demais?
É este o fim que a argila em si encerra?
– Ah, por que, raio de sol insensato, você
Se esmerou tanto para um dia acordar a terra?

Trad.: Jorge Wanderley

Wilfred Owen – Futility

Move him into the sun—
Gently its touch awoke him once,
At home, whispering of fields half-sown.
Always it woke him, even in France,
Until this morning and this snow.
If anything might rouse him now
The kind old sun will know.

Think how it wakes the seeds—
Woke once the clays of a cold star.
Are limbs, so dear-achieved, are sides
Full-nerved, still warm, too hard to stir?
Was it for this the clay grew tall?
—O what made fatuous sunbeams toil
To break earth’s sleep at all?

Andreia C. Faria – “Tenho a pedir-vos que não reutilizeis mais nada”

Tenho a pedir-vos que não reutilizeis mais nada.
Este edifício junto à praia, deixai-o
entregue à ruína,
às folhas do milho,
ao ar salgado.

Que as crianças possam tropeçar nas lajes soltas
e no átrio ecoe, como uma pedreira,
o desejo de muitas mãos.

Deixai dormir as mariposas dentro de lâmpadas partidas
e as formigas engrossarem pelos cantos
como sal.

Não inventeis mais nada,
nem formas eloquentes de evitar que o bronze oxide.
Aceitai o suor do tempo.

Que algumas coisas apodreçam.
Que os elefantes atravessem a planície.
Que as veias rebentem
do esforço de permanecer em pé.

E que nem tudo se sustente como a rosa
se sustenta de florir.

Deixai, deixai os vários pisos incomunicáveis,
o desvão ser cortejado pelo giz dos aviões,
que a lua pouse ali aberto o crânio,
que lhe bata o sol.

Ainda são precisos os templos
onde o pó seja gentil
e incensado
como os pés pela caruma dos pinhais.

Obs.: Republicado, com correções a partir da publicação original

Adam Zagajewski – Conversa com Friedrich Nietzsche

Excelentíssimo Senhor Friedrich,
tenho a impressão de estar a ver agora o senhor,
no terraço do sanatório, ao amanhecer,
com o nevoeiro a cair e o canto a rebentar
nas gargantas dos pássaros.

Não muito alto, a cabeça como um projétil,
o senhor está a escrever um novo livro
e uma estranha energia flui de si:
parece que vejo os seus pensamentos como se fossem
grandes exércitos em parada

O senhor sabe que morreu a morena Anne Frank
e os seus colegas de escola e amigos, rapazes e raparigas,
os coetâneos, e as amigas dos seus amigos
e os seus primos.

Quero perguntar-lhe o que é que são as palavras, o que é
a claridade, porque é que as palavras continuam a queimar
passados cem anos, embora a terra
seja tão pesada.

É óbvio que não existe nexo entre a iluminação
e a obscura dor da crueldade.
Existem pelo menos dois reinos,
mas é possível que haja ainda mais.

No caso, porém, de não haver Deus e de nenhuma força
estabelecer conexões entre elementos antagônicos,
o que é que são então as palavras e qual é a origem
da sua luz interior?

E qual a origem da alegria? E qual o destino do nada?
Qual a morada do perdão?
Porque é que os sonhos pequenos se dissipam ao chegar do dia
enquanto os grandes continuam a crescer?

Trad.: Marco Bruno

Jorge Luis Borges – João 1,14

Não será menos enigmática esta página
que as de Meus livros sagrados nem aquelas outras que repetem
as bocas ignorantes,
por julgá-las de um homem, não espelhos
obscuros do Espírito.
Eu que sou o É, o Foi e o Será
torno a condescender com a linguagem,
que é tempo sucessivo e emblema.
Quem brinca com um menino brinca com algo
próximo e misterioso;
eu quis brincar com Meus filhos.
Estive entre eles com assombro e ternura.
Por obra de magia nasci
curiosamente de um ventre.
Vivi enfeitiçado, encarcerado num corpo
e na humildade de uma alma.
Conheci a memória,
essa moeda que não é nunca a mesma.
Conheci a esperança e o temor,
esses dois rostos do incerto futuro.
Conheci a vigília, o sono, os sonhos, a ignorância, a carne,
os torpes labirintos da razão, a amizade dos homens,
a misteriosa devoção dos cães.
Fui amado, compreendido, louvado e pendi de uma cruz.
Bebi o cálice até as fezes.
Vi por Meus olhos o que nunca havia visto:
a noite e suas estrelas.
Conheci o polido, o arenoso, o díspar, o áspero,
o sabor do mel e da maçã,
a água na garganta da sede,
o peso de um metal na palma,
a voz humana, o rumor de uns passos sobre a relva,
o odor da chuva na Galileia,
o alto grito dos pássaros.
Conheci também a amargura.
Encomendei esta escrita a um homem qualquer;
nunca será o que desejo dizer,
não deixará de ser seu reflexo.
De Minha eternidade caem estes signos.
Que outro, não o que é agora seu amanuense, escreva o poema.
Amanhã serei um tigre entre os tigres
e predicarei Minha lei a sua selva,
ou uma grande árvore na Ásia.
Às vezes penso com nostalgia
no odor dessa carpintaria.

Trad.: Carlos Nejar e Alfredo Jacques.
Revisão de trad.: Maria Carolina de Araújo e Jorge Schwartz

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Jorge Luis Borges – Juan, I, 14

No será menos un enigma esta hoja
que las de Mis libros sagrados
ni aquellas otras que repiten
las bocas ignorantes,
creyéndolas de un hombre, no espejos
oscuros del Espíritu.
Yo que soy el Es, el Fue y el Será,
vuelvo a condescender al lenguaje,
que es tiempo sucesivo y emblema.
Quien juega con un niño juega con algo
cercano y misterioso;
yo quise jugar con Mis hijos.
Estuve entre ellos con asombro y ternura.
Por obra de una magia
nací curiosamente de un vientre.
Viví hechizado, encarcelado en un cuerpo
y en la humildad de un alma.
Conocí la memoria,
esa moneda que no es nunca la misma.
Conocí la esperanza y el temor,
esos dos rostros del incierto futuro.
Conocí la vigilia, el sueño, los sueños,
la ignorancia, la carne,
los torpes laberintos de la razón,
la amistad de los hombres,
la misteriosa devoción de los perros.
Fui amado, comprendido, alabado y pendí de una cruz.
Bebí la copa hasta las heces.
Vi por Mis ojos lo que nunca había visto:
la noche y sus estrellas.
Conocí lo pulido, lo arenoso, lo desparejo, lo áspero,
el sabor de la miel y de la manzana,
el agua en la garganta de la sed,
el peso de un metal en la palma,
la voz humana, el rumor de unos pasos sobre la hierba,
el olor de la lluvia en Galilea,
el alto grito de los pájaros.
Conocí también la amargura.
He encomendado esta escritura a un hombre cualquiera;
no será nunca lo que quiero decir,
no dejará de ser su reflejo.
Desde Mi eternidad caen estos signos.
Que otro, no el que es ahora su amanuense, escriba el poema.
Mañana seré un tigre entre los tigres
y predicaré Mi ley a su selva,
o un gran árbol en Asia.
A veces pienso con nostalgia
en el olor de esa carpintería.

Ian Hamilton – Despertar

Sua cabeça, tão enferma, repousa junto à minha.
Tão sensível. Você não consegue lembrar
Por que está aqui, nem reconhece
Estas mãos prestativas.
Meu amor,
O mundo nos encurrala. Estamos perdendo terreno.

Trad.: Nelson Santander

Awakening

Your head, so sick, is leaning against mine,
So sensible. You can’t remember
Why you’re here, nor do you recognize
These helping hands.
My love,
The world encircles us. We’re losing ground.

Manuel António Pina – Gare du Sud

Tudo o que temos pertence a outros,
desconhecidos de nós, e ainda a outros,
e temo-lo como se o perdêssemos
ficando uma sombra, a nossa sombra.
Estamos longe de casa e essa sombra
é a única morada a que podemos acolher-nos.

A nossa voz não somos capazes já de ouvi-la, balbuciante;
e se a ouvíssemos não a compreenderíamos
porque falamos uma língua estrangeira.
Tivemos um passado mas também ele não nos pertenceu,
lemo-lo, ou ouvimo-lo a
outros mais densos que nós.

Aonde regressamos então?
Ao lado das fluviantes águas,
águas idas e vindas. Noite!,
alguém nos chama mas
não é ninguém que conheçamos
nem ninguém de quem possamos dizer o nome.

Um murmúrio a que alguma razão passada
prende os sentidos e que perdura
no meio da vozearia da solidão e das interrogações,
um olho cego, um animal indecifrável atravessando a
distância e olhando-nos ainda,
a nós que os nossos olhos já não podem ver.

José María Cumbreño – Identidade

Durante anos, a roupa que usei foi herdada de meu irmão mais velho.
Meu nome me foi dado em homenagem ao meu avô.
O primeiro carro que conduzi era de segunda mão.
A primeira mulher que me beijou já havia beijado outros.
A casa em que habito é alugada.
Tudo o que escrevo já foi escrito por alguém há muito tempo, e muito melhor.
O irmão de minha filha não é meu filho.
Seu pai age como se não o fosse, e quem não é o pai
esforça-se para aprender a sê-lo.

Trad.: Nelson Santander

José María Cumbreño – Identidad

Durante años, la ropa que me he puesto la he heredado de mi hermano mayor.
Mi nombre me lo pusieron por mi abuelo.
El primer coche que conduje era de segunda mano.
La primera mujer que me besó ya había besado a otros.
La casa en la que vivo es de alquiler.
Todo lo que escriba ya lo habrá escrito alguien mucho antes y mucho mejor.
El hermano de mi hija no es hijo mío.
Su padre hace como si no lo fuera y quien no es su padre
se esfuerza por aprender a serlo.

Billy Collins – As cadeiras em que ninguém se senta

Vêem-se em varandas e em relvados
mesmo à beira do lago,
geralmente dispostas em pares indicando que um casal

se poderá sentar ali e olhar para
a água ou para as grandes árvores frondosas.
O problema é que nunca se vê ninguém

sentado nessas cadeiras abandonadas
embora a dada altura deva ter parecido
um bom lugar para parar e não fazer nada por um momento.

Às vezes há uma pequena mesa
entre as cadeiras onde ninguém
deixou um copo pousado ou um livro com a capa para baixo.

Posso não ter nada com isso,
mas suponhamos haver um dia
em que todos os que colocaram essas cadeiras vagas

numa varanda ou num cais se sentariam nelas
nem que fosse para se lembrarem
daquilo que achavam que valia a pena

ser contemplado das duas cadeiras
lado a lado com uma mesa pelo meio.
As nuvens estariam altas e imponentes nesse dia.

A mulher descola o olhar do seu livro.
O homem toma um gole da sua bebida.
E ouve-se apenas o som do seu olhar,

o marulhar da água do lago, e o canto de um pássaro
depois de outro, gritos de alegria ou de aflição —
o tempo vai passando enquanto se percebe quais.

Trad.: Ricardo Marques

Billy Collins – The Chairs That No One Sits In

You see them on porches and on lawns
down by the lakeside,
usually arranged in pairs implying a couple

who might sit there and look out
at the water or the big shade trees.
The trouble is you never see anyone

sitting in these forlorn chairs
though at one time it must have seemed
a good place to stop and do nothing for a while.

Sometimes there is a little table
between the chairs where no one
is resting a glass or placing a book facedown.

It might be none of my business,
but it might be a good idea one day
for everyone who placed those vacant chairs

on a veranda or a dock to sit down in them
for the sake of remembering
whatever it was they thought deserved

to be viewed from two chairs
side by side with a table in between.
The clouds are high and massive that day.

The woman looks up from her book.
The man takes a sip of his drink.
Then there is nothing but the sound of their looking,

the lapping of lake water, and a call of one bird
then another, cries of joy or warning—
it passes the time to wonder which.

José Luis García Martín – Em algum lugar

Logo, depois, mais tarde, quando nunca,
meus passos se afastaram dos meus passos
e em algum lugar, não sei se dentro ou fora,
ouviu-se uma voz que repetia um nome.
Uma voz, apenas um eco, quase nada,
talvez a voz do vento entre as árvores
onde árvores sequer existiam.
Tremiam os alicerces da terra
ou seria eu quem tremia naquele instante
quando um sol negro iluminava o mundo
e era minha vida inteira que ardia,
uma pilha de papéis amassados,
em um canto remoto, entre teus braços,
amor que foi, que é, que nunca existiu,
um vapor sujo que na noite se eleva.

Trad.: Nelson Santander

En Algún Lugar

Luego, después, más tarde, cuando nunca,
mis pasos se alejaron de mis pasos
y en algún lugar, no sé si dentro o fuera,
se oyó una voz que un nombre repetía.
Una voz, sólo un eco, apenas nada,
quizá la voz del viento entre los árboles
donde ni tan siquiera árboles había.
Temblaban los cimientos de la tierra
o era yo quien temblaba aquel entonces
en que un sol negro iluminaba el mundo
y era mi vida entera la que ardía,
un montón de papeles arrugados,
en el rincón remoto, entre tus brazos,
amor que fue, que es, que nunca ha sido,
un humo sucio que en la noche asciende.

Walter de la Mare – Os que ouviam

“Está aí alguém?”, disse o Viajante
  Batendo à porta de luar;
A relva, chão de fetos da floresta,
  Pôs-se o cavalo a devorar.
Sobre a cabeça do Viajante, um pássaro
  Voou da torre para além.
E ele feriu a porta uma outra vez,
  Dizendo: “Está aí alguém?”
Do peitoril da janela, ninguém
  Desceu até o Viajante;
Ninguém lhe fitou os olhos cinzentos:
  E ele imóvel, em seu espanto.
Mas uma hoste de ouvintes fantasmas
  Que a casa deserta habitava,
Deixou-se ouvindo, à calma do luar,
  O que a voz, humana bradava;
Deixou-se conjugando o luar na escada
  Que dá ao vestíbulo vazio;
À escuta, num ar trêmulo e agitado
  Pelo chamado que se ouviu.
No coração ele sentiu que estranha
  Era a calma que respondia;
Enquanto o cavalo ceifava a relva
  E o céu de estrela e folha se incendia.
E então bateu mais uma vez à porta
  E ergueu muito alta a cabeça:
“Digam que vim e não me responderam;
  E que eu cumpri minha promessa.”
Os que escutavam nada se moveram
  Embora as palavras por certo
Na casa caíssem, reverberassem,
  A partir do homem desperto.
O pé no estribo, o ferro contra a pedra,
  Ah, que bem estavam ouvindo!
E ao silêncio nascendo para trás e o
  Chapinhar dos cascos partindo.

Trad.: Jorge Wanderley

PS.: confira também a tradução que fiz do mesmo poema:

https://nsantand.wordpress.com/2017/02/02/walter-de-la-mare-os-que-ouviam/

Walter de la Mare – The Listeners

‘Is there anybody there?’ said the Traveller,
  Knocking on the moonlit door;
And his horse in the silence champed the grasses
  Of the forest’s ferny floor:
And a bird flew up out of the turret,
  Above the Traveller’s head:
And he smote upon the door again a second time;
  ‘Is there anybody there?’ he said.
But no one descended to the Traveller;
  No head from the leaf-fringed sill
Leaned over and looked into his grey eyes,
  Where he stood perplexed and still.
But only a host of phantom listeners
  That dwelt in the lone house then
Stood listening in the quiet of the moonlight
  To that voice from the world of men:
Stood thronging the faint moonbeams on the dark stair,
  That goes down to the empty hall,
Hearkening in an air stirred and shaken
  By the lonely Traveller’s call.
And he felt in his heart their strangeness,
  Their stillness answering his cry,
While his horse moved, cropping the dark turf,
  ’Neath the starred and leafy sky;
For he suddenly smote on the door, even
  Louder, and lifted his head:—
‘Tell them I came, and no one answered,
  That I kept my word,’ he said.
Never the least stir made the listeners,
  Though every word he spake
Fell echoing through the shadowiness of the still house
  From the one man left awake:
Ay, they heard his foot upon the stirrup,
  And the sound of iron on stone,
And how the silence surged softly backward,
  When the plunging hoofs were gone.