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Manuel Halpern – Domingo de manhã

Quantos homens se apaixonam por ti ao sábado à tarde enquanto passeiam os filhos no parque e se distraem do balanço do baloiço na adivinhação das partes do corpo que trazes tapadas Mal sabem que a tua solidão não se preenche com a desventura erótica de um corpo que te cubra sem consolo Não há…
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Miguel Martins – Sou eu

são as minhas mãos que tremem até não poder segurar os talheres sou eu sentado na cama, transido de medo de acordar para viver sou eu a vomitar de medo como desde os tempos da escola primária sou eu a driblar o futuro, acabando por sair pela linha lateral sou eu agora em espasmos, assemelhando-me…
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Ángel González – Aniversário

Eu percebo: como estou me tornandomais incerto, confuso,dissolvendo-me no arcotidiano, brutopedaço de mim, desgastadoe em frangalhos. Eu compreendo: vivimais um ano, e isso é muito duro.Pulsar o coração todos os diasquase cem vezes por minuto! Viver um ano requermorrer muito muitas vezes. Trad.: Nelson Santander Cumpleaños Yo lo noto: cómo me voy volviendomenos cierto, confuso,disolviéndome…
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William Butler Yeats – Um aviador irlandês prevê a morte

Encontrarei meu fim no meio das nuvens de algum céu sobejo; os que combato, eu não odeio, também não amo os que protejo; Kiltartan Cross é meu país, seus pobres são a minha gente, nada a fará mais infeliz do que já era, ou mais contente. Não é por lei ou por dever, turba ou…
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Jaime Gil de Biedma – Pandêmia e Celeste

Quan magnus numerus Libyssae arenae …………………………….. Aut quam sidera multa, cum tacet nox, Furtiuos hominum uident amores. CATULO, VII Imagina agora que tu e eu muito tarde da noite falamos de homem para homem, enfim. Imagina-o, em uma dessas noites memoráveis de rara comunhão, com a garrafa meio vazia, os cinzeiros sujos, depois de esgotado…
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Eugénio de Andrade – Mulheres de preto

Há muito que são velhas, vestidas de preto até a alma. Contra o muro defendem-se do sol de pedra; ao lume furtam-se ao frio do mundo. Ainda têm nome? Ninguém pergunta, ninguém responde. A língua, pedra também.
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Giuseppe Ungaretti – Céu claro

Bosque de Courton, julho de 1918 Depois de tanta névoa uma a uma se desvelam as estrelas Respiro o frescor que me deixa a cor do céu Me reconheço imagem passageira Presa de um ciclo imortal Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti Giuseppe Ungaretti – Sereno Bosco di Courton luglio 1918 Dopo tanta nebbia a una a…
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Raymond Carver – A cabine telefônica

Ela desaba na cabine, chorando no telefone. Perguntando uma coisa ou outra, e chorando um pouco mais. Seu companheiro, um camarada mais velho, usando jeans e camiseta, aguarda em pé a sua vez de falar, e chorar. Ela passa o telefone para ele. Por um minuto eles ficam juntos na minúscula cabine, as lágrimas dele…
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Joan Margarit – O ano em que ela morreu

Na fotografia em sépiaés jovem e sorri. Faz-me lembraras mulheres dos filmes de guerrada minha infância:barcos na neblina, trens noturnose grandes cidades sob o alarme aéreo.Na lápide está escrito que ela se foino inverno de 44,aos vinte anos, quando me apaixonavapela sufocante escuridãocruzada por um raio de luz, a heroínados sonhos de amor de minha…
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Manuel António Pina – Corpo presente

Toda a casa suspendera a respiração incapaz de conter tamanha desproporção, e eu próprio desaparecera algures na sala, entre a tua vida e a tua morte. Atenderam o telefone falando baixo, temendo que regressasse cada coisa do teu lugar sem estar prontos ainda para a tua solidão. Faltava muito para podermos perceber, muitos passos para…