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Ian Hamilton – Vizinhos

Das janelasDo decadente hotel do outro lado da ruaMisteriosos hóspedes noturnos emergemEm suas varandasPara aspirar o ar fresco da noite. Nós os deixamos nos observarEm nossas vidas pacatas.Eles nos permitem imaginaro que o destino lhes reservou. Trad.: Nelson Santander Neighbours From the bay windowsOf the mouldering hotel across the road from usMysterious, one-night itinerants emergeOn…
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Eugénio de Andrade – Ver claro

Toda poesia é luminosa, até A mais obscura. O leitor é que tem às vezes, Em lugar de sol, nevoeiro dentro de si. E o nevoeiro nunca deixa ver o claro. Se regressar Outra vez e outra vez E outra vez A essas sílabas acesas Ficará cego de tanta claridade Abençoado seja se lá chegar.
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Joan Margarit – Por que fomos covardes

Não poderás esquecer meu corpo esguio e ágil. Sempre farás amor com uma sombra de olhos azuis, e estarás tão só como em uma vingança. Ao longe, as luzes de Roses cintilam assim como a minha memória. Há uma fúria triste, mas ninguém no final. Perdemos o cavalo sem cavaleiro que nunca passa uma segunda…
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Manuel António Pina – Café do molhe
Perguntavas-me (ou talvez não tenhas sido tu, mas só a ti naquele tempo eu ouvia) por que a poesia, e não outra coisa qualquer: a filosofia, o futebol, alguma mulher? Eu não sabia que a resposta estava numa certa estrofe de um certo poema de Frei Luis de Léon que Poe (acho que era Poe)…
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Konstantinos Kaváfis – Velas

Os dias futuros se erguem diante de nós como uma fileira de velas acesas – douradas, vivazes, cálidas velas. Os dias do passado ficaram tão para trás, fúnebre fileira consumida onde as mais próximas ainda fumam, velas frias, retorcidas e desfeitas. Não quero vê-las; seu aspecto me aflige, me aflige recordar sua luz primeira. Vejo…
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Idea Vilariño – Não mais

Não mais será não mais não viveremos juntos não criarei teu filho não coserei tua roupa não te terei à noite não te beijarei ao partir nunca saberás quem fui por que outros me amaram. Não chegarei a saber por que nem porque nunca nem se era verdadeiro o que disseste que era nem quem…
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Nâzim Hikmet – O último ônibus

Meia-noite. O último ônibus.O condutor rasga os bilhetes.Não me esperam em casa nem uma má notícianem a fartura da bebida.Para mim, é a partida que espera.Caminho em direção a ela sem medoou tristeza. A escuridão imensa se aproxima de mim.Posso olhar para o mundocalma e serenamente, agora.Já não me surpreende a traição de um amigo,a…
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Daniel Faria – Infância

e jogava o pião com Deus enquanto minha mãe estendia roupa e o meu pai mendigava o pão e minha alegria nesse tempo era muito próxima da dos meninos e de Deus que ganhava sempre e não sei quem perdi primeiro: o pião ou Deus apenas sei que Deus continua a jogar com outros meninos…
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Sophia de Mello Breyner Andresen – Não te esqueças nunca

Não te esqueças nunca de Thasos nem de Egina O pinhal a coluna a veemência divina O templo o teatro o rolar de uma pinha O ar cheirava a mel e a pedra a resina Na estátua morava tua nudez marinha Sob o sol azul e a veemência divina Não esqueças nunca Treblinka e Hiroshima…
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Luis Alberto de Cuenca – O véu protetor

Amanheceu e nós estávamos dentro da vil realidade, o que não pode ser bom. Melhor seria que passassem logo as horas inúteis em que o dia proscreve a aventura com as normas do tédio laboral, e que voltassem a noite e as suas estrelas a envolver-nos no seu véu fantástico e a dar-nos a inútil…