Eugénio de Andrade – Ver claro

Toda poesia é luminosa, até
A mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
Em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver o claro.
Se regressar
Outra vez e outra vez
E outra vez
A essas sílabas acesas
Ficará cego de tanta claridade
Abençoado seja se lá chegar.

Joan Margarit – Por que fomos covardes

Não poderás esquecer meu corpo esguio e ágil.
Sempre farás amor com uma sombra
de olhos azuis, e estarás tão só
como em uma vingança.
Ao longe, as luzes de Roses cintilam
assim como a minha memória.
Há uma fúria triste, mas ninguém no final.
Perdemos o cavalo sem cavaleiro
que nunca passa uma segunda vez.

Trad.: Nelson Santander

Por si fuésemos cobardes

No podrás olvidar mi cuerpo esbelto y ágil.
Siempre harás el amor con una sombra
de ojos azules, y estarás tan solo
como en una venganza.
A lo lejos, las luces de Roses centellean
igual que mi memoria.
Hay una furia triste, pero nadie al final.
Perdimos el caballo sin jinete
que nunca pasa por segunda vez.

Manuel António Pina – Café do molhe

Perguntavas-me
(ou talvez não tenhas sido
tu, mas só a ti
naquele tempo eu ouvia)

por que a poesia,
e não outra coisa qualquer:
a filosofia, o futebol, alguma mulher?
Eu não sabia

que a resposta estava
numa certa estrofe de
um certo poema de
Frei Luis de Léon que Poe

(acho que era Poe)
conhecia de cor,
em castelhano e tudo.
Porém se o soubesse

de pouco me teria
então servido, ou de nada.
Porque estavas inclinada
de um modo tão perfeito

sobre a mesa
e o meu coração batia
tão infundadamente no teu peito
sob a tua blusa acesa

que tudo o que soubesse não o saberia.
Hoje sei: escrevo
contra aquilo de que me lembro,
essa tarde parada, por exemplo.

Konstantinos Kaváfis – Velas

Os dias futuros se erguem diante de nós
como uma fileira de velas acesas –
douradas, vivazes, cálidas velas.

Os dias do passado ficaram tão para trás,
fúnebre fileira consumida
onde as mais próximas ainda fumam,
velas frias, retorcidas e desfeitas.

Não quero vê-las; seu aspecto me aflige,
me aflige recordar sua luz primeira.
Vejo diante de mim as velas acesas.

Não quero me voltar, e estremecer ao contemplar
que rapidamente aumenta a fileira sombria,
que rapidamente cresce com suas velas já consumidas.

Trad.: Pedro Gonzaga

Idea Vilariño – Não mais

Não mais será
não mais
não viveremos juntos
não criarei teu filho
não coserei tua roupa
não te terei à noite
não te beijarei ao partir
nunca saberás quem fui
por que outros me amaram.
Não chegarei a saber
por que nem porque nunca
nem se era verdadeiro
o que disseste que era
nem quem foste
nem o que fui para ti
nem como teria sido
vivermos juntos
amarmo-nos
esperarmo-nos
estarmos juntos.
Agora não sou mais do que eu
para sempre e tu

não serás para mim
mais do que tu. Já não estás
em algum dia futuro
não saberei onde vives
com quem
nem se te lembras.
Não me abraçarás nunca
como naquela noite
nunca.
Não voltarei a tocar-te.
Não te verei morrer.

Trad.: Nelson Santander

Ya no

Ya no será
ya no
no viviremos juntos
no criaré a tu hijo
no coseré tu ropa
no te tendré de noche
no te besaré al irme
nunca sabrás quién fui
por qué me amaron otros.
No llegaré a saber
por qué ni cómo nunca
ni si era de verdad
lo que dijiste que era
ni quién fuiste
ni qué fui para ti
ni cómo hubiera sido
vivir juntos
querernos
esperarnos
estar.
Ya no soy más que yo
para siempre y tú
ya
no serás para mí
más que tú. Ya no estás
en un día futuro
no sabré dónde vives
con quién
ni si te acuerdas.
No me abrazarás nunca
como esa noche
nunca.
No volveré a tocarte.
No te veré morir.

Nâzim Hikmet – O último ônibus

Meia-noite. O último ônibus.
O condutor rasga os bilhetes.
Não me esperam em casa nem uma má notícia
nem a fartura da bebida.
Para mim, é a partida que espera.
Caminho em direção a ela sem medo
ou tristeza.

A escuridão imensa se aproxima de mim.
Posso olhar para o mundo
calma e serenamente, agora.
Já não me surpreende a traição de um amigo,
a faca estocada num aperto de mão.
É tudo em vão, o inimigo já não pode mais me provocar.
Cruzei a floresta dos ídolos
usando meu machado
de que maneira fácil todos desabaram.
Testei as coisas em que acredito, uma vez mais,
boa parte delas se revelou em sua pureza, pelo que sou grato.
Jamais foi meu fulgor tão brilhante,
nunca fui tão livre.

A escuridão imensa se aproxima de mim.
Posso olhar para o mundo
calma e serenamente, agora.
Ergo a cabeça de meu trabalho e olho em volta,
de súbito emerge do passado
uma palavra
um cheiro
um aceno de mão.

A palavra é amiga,
o cheiro maravilhoso,
quem me acena a mão é meu amor.
O que a memória evoca já não me deixa triste.
Não reclamo das memórias.
Não reclamo de nada, de fato,
nem sequer de meu coração
doendo sem parar como um dente gigantesco.

A escuridão imensa se aproxima de mim.
Agora nem o orgulho do ministro nem a conversa fiada do sacristão.
Despejo taças de luz sobre a minha cabeça,
Posso olhar para o sol sem que meus olhos se deslumbrem.
E talvez, que pena,
a mentira mais astuta
já não possa me enganar.
As palavras perderam o poder de me embriagar,
nem as dos outros, nem as minhas próprias.

Assim são as coisas, minha rosa,
terrivelmente a morte se aproxima de mim.
O mundo, mais belo do que nunca, o mundo.
O mundo era minha roupa de baixo, minhas vestes,
Comecei a me despir.
Eu era a janela de um trem,
agora sou a estação.
Eu era a parte interna da casa,
agora sou sua porta aberta.
Amo em dobro os convidados.
E o calor está mais amarelo do que nunca
a neve mais pura do que jamais foi.

Trad.: Pedro Gonzaga

Son Otobüs

Gece yarısı.Son otobüs.
Biletçi kesti bileti.
beni ne bir kara haber bekliyor evde,
ne rakı ziyafeti.
Beni ayrılık bekliyor.
Yürüyorum ayrılığa korkusuz ve kedersiz.

İyice yaklaştı bana büyük karanlık.
Dünyayı telaşsız, rahat seyredebiliyorum artık
Artık şaşırtmıyor beni dostun kahpeliği,
elimi sıkarken sapladığı bıçak.
Nafile, artık kışkırtamıyor beni düşman.
Geçtim putların ormanından baltalayarak
nede kolay yıkılıyorlardı.
Yeniden vurdum mihenge inandığım şeyleri,
çoğu katkısız çıktı çok şükür.
Ne böylesine pırıl pırıl olmuşluğum vardı,
ne böylesine hür.

İyice yaklaştı bana büyük karanlık.
Dünyayı telaşsız, rahat seyredebiliyorum artık.
Bakınıyorum başımı kaldırıp işten,
karşıma çıkıveriyor geçmişten
bir söz
bir konu
bir el işareti.

Söz dostça
koku güzel,
el eden sevgilim.
Kederlendirmiyor artık beni hatıraların daveti
hatıralardan şikayetçi değilim.
Hiçbir şeyden şikayetim yok zaten,
yüreğimin durup dinlenmeden
kocaman bir diş gibi ağrımasından bile.

İyice yaklaştı bana büyük karanlık.
Artık ne kibri nazırın, ne katibin şakşağı.
Tas tas ışık döküyorum başımdan aşağı,
güneşe bakabiliyorum gözüm kamaşmadan.
Ve belki, ne yazık,
hatta en güzel yalan
beni kandıramıyor artık.
Artık söz sarhoş edemiyor beni,
ne başkasının ki, nede kendiminki.

İşte böyle gülüm,
iyice yaklaştı bana ölüm.
Dünya, her zamankinden güzel, dünya.
Dünya, iç çamaşırlarım, elbisemdi,
başladım soyunmağa.
Bir tren penceresiydim,
bir istasyonum şimdi.
Evin içerisiydim,
şimdi kapısıyım kilitsiz.
Bir kat daha seviyorum konukları.
Ve sıcak her zamankisinden sarı,
kar her zamankinden temiz.

Daniel Faria – Infância

e jogava o pião com Deus
enquanto minha mãe estendia roupa
e o meu pai mendigava o pão

e minha alegria nesse tempo
era muito próxima da dos meninos
e de Deus que ganhava sempre

e não sei quem perdi primeiro:
           o pião ou Deus
apenas sei que Deus continua
a jogar com outros meninos

e que no Outono quando saio à praça
nos sentamos e falamos muito
do suave rodopiar das folhas

Sophia de Mello Breyner Andresen – Não te esqueças nunca

Não te esqueças nunca de Thasos nem de Egina
O pinhal a coluna a veemência divina
O templo o teatro o rolar de uma pinha
O ar cheirava a mel e a pedra a resina
Na estátua morava tua nudez marinha
Sob o sol azul e a veemência divina

Não esqueças nunca Treblinka e Hiroshima
O horror o terror a suprema ignomínia

Luis Alberto de Cuenca – O véu protetor

Amanheceu e nós estávamos dentro
da vil realidade, o que não pode
ser bom. Melhor seria que passassem
logo as horas inúteis em que o dia
proscreve a aventura com as normas
do tédio laboral, e que voltassem
a noite e as suas estrelas a envolver-nos
no seu véu fantástico e a dar-nos
a inútil sensação de estarmos vivos.

Trad.: Miguel Filipe Mochila

Yehuda Amichai – 1924

Nasci em 1924. Se eu fosse um violino da minha idade
não seria dos melhores. Como vinho seria um cinco estrelas
ou vinagre. Como cachorro estaria morto. Como um livro
estaria me tornando caro, ou estaria abandonado num sebo qualquer.
Como uma floresta eu seria jovem; como uma máquina, ridículo.
Como uma criatura humana, estou cansado, muito cansado.

Nasci em 1924. Quando penso em criaturas humanas,
vejo apenas as que nasceram no ano em que nasci,
cujas mães trabalharam lado a lado com a minha
onde quer que estivessem, em hospitais ou casas escuras.

Hoje, no meu aniversário, gostaria de recitar
uma prece solene para vocês
cujas vidas já se curvaram sob o peso
das esperanças e das frustrações,
cujos feitos se apequenam, e cujos deuses se multiplicam –
vocês são todos irmãos da minha fé, companheiros
de meu desespero.

talvez vocês encontrem a paz duradoura,
os vivos em suas vidas, os mortos
em estarem mortos.

E quem quer que lembre melhor de sua infância
é o vencedor,
se é que há vencedores.

Trad. Pedro Gonzaga.

1924 – Yehuda Amichai