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William Ernest Henley – Invictus

No meio da noite que me abraça, Negra como um Poço em sua inteireza, Agradeço a cada Deus pela graça De minha invencível natureza. Nas terríveis garras das circunstâncias Não recuei nem alteei meu pranto. Debaixo dos golpes das contingências Minha fronte sangra – altiva, no entanto. Além deste lugar de desenganos, Somente o Horror…
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Ángel González – O amanhã é um mar profundo que precisamos atravessar a nado

Queria ser alga, alga enredada na parte suave de tuas coxas. Sopro de brisa nas tuas bochechas. Leve areia sob tua pegada. Queria ser água, água salgada quando corres nua no litoral. Sol cortando em sombra tua banal Silhueta virgem recém-molhada. Tudo quisera ser, indefinido, ao teu redor: vista, luz, ambiente gaivota, céu, navio, vela,…
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Carlos Drummond de Andrade – Nosso Tempo

I Esse é tempo de partido, tempo de homens partidos. Em vão percorremos volumes, viajamos e nos colorimos. A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua. Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos. As leis não bastam. Os lírios não nascem da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se na pedra. Visito os fatos, não te…
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A. M. Pires Cabral – Folha rubra

É bom sermos como essas folhas verdes que prolongam todo o ano a Primavera. Mas melhor do que isso é sermos como aquela folha rubra que antes das outras pressentiu o Outono e vestiu para ele a sua melhor cor, mesmo sabendo que o Inverno tem um plano para em breve a dissolver no chão.
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Eugénio de Andrade – Quando em silêncio passas entre as folhas…

Quando em silêncio passas entre as folhas, uma ave renasce da sua morte e agita as asas de repente; tremem maduras todas as espigas como se o próprio dia as inclinasse, e gravemente, comedidas, param as fontes a beber-te a face. Conheça outros livros de Eugénio de Andrade clicando aqui
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Mario Quintana – Poema da gare de Astapovo

O velho Leon Tolstoi fugiu de casa aos oitenta anos E foi morrer na gare de Astapovo! Com certeza sentou-se a um velho banco, Um desses velhos bancos lustrosos pelo uso Que existem em todas as estaçõezinhas pobres do mundo Contra uma parede nua… Sentou-se …e sorriu amargamente Pensando que Em toda a sua vida…
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Joan Margarit – Astapovo

De madrugada, quando só se ouvemrelógios no escuro,eu o imagino, com seus oitenta anos,fugindo em um trem russo que ia para o sul,de lugar nenhum, para onde os velhos sonham ir.Tolstói temia aquele invernoque o acompanhou durante a velhiceaté o leito de morte ferroviário,na noite em que o telégrafotransmitiu a mais breve e cruelde todas…
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Manuel António Pina – Quinquagésimo ano

São muitos dias (e alguns nem tantos como isso…) e começa a fazer-se tarde de um modo menos literário do que soía, (um modo literal e inerte que, no entanto, não posso dizer-te senão literariamente). Mas não há pressa, nem se vê ninguém a correr; a única coisa que corre é o tempo, do lado…
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Emily Dickinson – de “Não sou ninguém”

27 Poetas mártires — não clamam — A Dor em sílabas transmudam — Falam por eles seus poemas — Quando já estejam mudos. Pintores mártires — Não falam — Com sua Obra eles almejam Que quando já não sejam mais — Alguns busquem na Arte — a Paz — Trad.: Augusto de Campos The Martyr…
