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Francisco Brines – Esplendor negro

Somente uma vez experimentaste aquele Esplendor negro,e intermitentemente recordas a experiência com imprecisão,aproximações difusas, iminências,e assim, desde a tua juventude, arrastas frioum invisível manto escarlate de cinzas.E não foi necessário cegar os olhos,pois das brancas luzes das estrelaschegou aquele delírio, a possibilidade mais exata e singela:em vez de Deus ou do mundoaquele negro Esplendor,que nem…
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Walter de la Mare – Os que Ouviam

‘Tem alguém em casa?’ indagou o Viajante Defronte à porta enluarada; Seu cavalo no silêncio ruminava o capim Da forragem fértil e enfolhada: E uma ave voou para muito além da torre, Acima de sua cabeça: E de novo a porta ele outra vez castigou; ‘Tem alguém em casa?’ ele disse. Mas ninguém desceu para…
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Alberto Ríos – Coelhos e fogo

Tudo já foi ditoMenos uma última coisa – terrível – sobre oDeserto: durante os incêndios no deserto de Sonora,Incêndios rasteiros que ocorrem antes das monções e no grande,Profundo, extenso e sufocante calor dos meses mais quentes,Os meses mais longos,Nas hipnóticas e imensuráveis tréguas de agosto e julho —Durante esses incêndios de verão, lebres —Lebres e…
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Paulo Henriques Britto – de “Nenhuma Arte”

Os deuses do acaso dão, a quem nadalhes pediu, o que um dia levam embora;e se não foi pedida a coisa dadanão cabe se queixar da perda agora.Mas não ter tido nunca nada, nãoseria bem melhor — ou menos mau?Mesmo sabendo que uma solidãocompleta era o capítulo final,a anestesia valeria o preço?(Rememorar o que não…
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Lynn Emanuel – Minha vida

Como Jonas pelo peixe, eu fui por ela recebida,revirada e varrida por suas águas escuras,por ela conduzida para as profundezas e para além de incontáveis rochas.Sem ser tocada por seus dentes, caí nelasem um esforço maior que um grão de areiaentrando pela porta de uma catedral, tão largas eram suas mandíbulas.Desci, de cabeça e calcanhar,pela…
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Paulo Henriques Britto – De “Bonbonnière”

I A seletividade da memória —a cor exata da pele, a textura,o odor de cada côncavo e orifício,o lábio, a língua, o dente, o plexo solar, a sola do pé, o suor e asaliva, a coxa arisca, a dobra escura,o beijo salobro, o sabor difícil,a carne assombrada, o esperma perplexo — falsa perfeição, mero artifíciodo…
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Billy Collins – A vida após a morte

Enquanto você se prepara para dormir, escovando os dentes,ou folheando uma revista na cama,os defuntos do dia estão iniciando sua jornada. Eles se movem em todas as direções imagináveis,cada qual de acordo com sua crença pessoal,e este é o segredo que o silencioso Lázaro não quis revelar:todos estão certos, no fim das contas.Você vai para…
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Paulo Henriques Britto – De “Biographia Literária”

(…) ii Não volta mais, aquele voo cego rumo ao que nunca esteve lá, porémsó surge em pleno ar. E não renegoa rota tonta que segui. Ninguémse faz em linhas retas. Todo portoa que se chega é a meta desejada.E o caminho tomado, por mais torto,acaba sempre sendo a exata estradaa dar naquilo que, afinal,…
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Dorianne Laux – No limite

Depois que sua mãe morrer, você aprenderá a viverno limite da vida, a se segurarcomo ela fazia, uma mão no painel,a outra agarrando sua bolsa enquanto vocêpassa pelo sinal de pare, ombros tensos,olhos totalmente fechados, esperando pela colisãoque não vem. Você aprenderáa ficar acordada a noite toda sabendo que ela se foi,vendo a manhã se…