Werner Aspenström – Um momento na pizzaria

As lâmpadas têm o formato de capacetes.
Sua luz áspera pressiona contra as mesinhas
criando um círculo de semiescuridão
ao redor de cada cliente.
Os relógios de quartzo marcam segundo
a segundo. Levará no mínimo um mês
até que o rouxinol volte do equador.
Às vezes, recebo cartas de um engenheiro
que calculou a idade do universo em 14 bilhões
de anos. Não sou matemático,
terei que confiar apenas em suas equações.
Para mim, o tempo às vezes existe,
às vezes não.
A fruta dilacerada pelo vento hesita a meio caminho
entre o galho e a grama, e se pergunta:
onde estou?
Todos neste recinto, incluindo o proprietário
que amassa a massa branca da pizza,
são em parte recém-chegados e em parte imortais.
O rouxinol está em parte aqui
e em parte no equador.
Existe um instante assim?
Sim, existe tal instante, tal ponto no tempo.

Trad.: Nelson Santander (a partir da versão em inglês, vertida por Malena Mörling)

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A moment at the pizzeria

The lamps are shaped like crash helmets.
Their harsh light presses against the small tabletops
casting a ring of semidarkness
around each lunch guest.
The quartz watches sever second
after second. It will take at least a month
before the willow warbler returns from the equator.
Every so often I receive letters from an engineer
who has calculated the age of the universe at 14 billion
years. I am not a mathematician,
I’ll have to just trust his equations.
For me time exists sometimes,
sometimes not.
The wind-torn fruit hesitates halfway
between branch and grass and wonders:
Where am I?
Everyone in this room, including the owner
who is kneading the white pizza dough,
has partly just arrived and is partly immortal.
The willow warbler is partly here
and partly at the equator.
Is there such a time?
There is such a time, such a point in time.

Ian Hamilton – Os quarenta

“O eu que sobreviveu àqueles anos desprezíveis”,
Sua “virtude austera” incrivelmente preservada. Pois bem,
Terá se perguntado, isto é
O “é isso”?; esta Vida resumida
Que nunca pensei encontrar
E nunca procurei: que começa no meio
De tal modo que no fim
O dano perdura mais do que a reparação?

Aos quarenta e cinco
Agora sou o patriarca da casa e ao entardecer
Você me verá fazendo meu “passeio noturno”
Até o adormecido lago dos lírios:
Do fundo do nosso quintal, cento e onze jardas.
E uma vez lá, farei uma pausa, meio sóbrio, sem dor
E parecendo escutar; mas já não mais “ouvindo”.
E às minhas costas,
Oito janelas, uma varanda, o lote limpo
Para as suas (por que não?) “verduras orgânicas”,
A treliça que precisa ser consertada, que eu irei consertar.

Trad.: Nelson Santander

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The forties

“The self that has survived those trashy years”,
Its “austere virtue” magically intact. Well then,
He must have asked himself, is this
The “this is it”; that encapsulable Life
I never thought to find
And didn’t seek: beginning at the middle
So that in the end
The damage is outlived by the repair?

At forty-five
I’m father of the house now and at dusk
You’ll see me take my “evening stroll”
Down to the dozing lily pond:
From our rear deck, one hundred and eleven yards.
And there I’ll pause, half-sober, without pain
And seem to listen; but no longer “listen out”.
And at my back,
Eight windows, a veranda, the neat plot
For your (why not?) “organic greens”,
The trellis that needs fixing, that I’ll fix.

Malena Mörling – Sem localização precisa

            À noite, 
o vento aprisionado
   agita os galhos
do olmo siberiano. Meu filho,
que nasceu recentemente,
dorme entre mim
e meu marido.
Onde ele estava antes?
Meu marido repousa
com seus pensamentos
imersos
em um sonho
sem localização precisa.
Nossos corpos
estão deitados aqui
nesta cama
na escuridão
de uma casa na terra —
Uma casa que flutua no espaço
tanto quanto a estrela mais
distante na galáxia de Andrômeda.

Trad.: Nelson Santander

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No precise location


All night,
the caught wind
wrestles the limbs
of the Siberian Elm. My son,
who was recently born,
sleeps between me
and my husband.
Where was he before?
My husband sleeps
with his thoughts
deep
into a dream
that has no precise location.
Our bodies
are lying here now
on this bed
in the dark
of a house on the earth—
A house as much in space
as the farthest star
in the galaxy of Andromeda.

Nelson Santander – Impermanência

Se há algo mais fascinante do que locais abandonados, desconheço. Toda vez que, em viagem, me deparo com uma casa desabitada há muito tempo, uma estação de trem em desuso ou o esqueleto do que um dia foi uma fábrica, acabo perdendo (ganhando) algum tempo na contemplação do local, tentando adivinhar quem nele pisou, morou ou trabalhou, por quanto tempo aquele espaço perdurou, que dramas humanos ali se desenrolaram.

Tudo nesses recantos em decomposição é desconcertante e belo.

As imagens que ilustram essa postagem1 demonstram o que quero dizer. A devastação preside, mas não é difícil, com um pouco de imaginação, encontrar detalhes que surpreendem pela beleza, pelo inusitado, pelo poético.

Um velho piano que um dia encantou o mundo com acordes de Chopin, Beethoven, Mozart e que já não emite mais um único som há décadas; a igreja decrépita da qual nem Deus mais se lembra; uma estátua decapitada que jamais será uma Vênus de Milo; a piscina seca que hoje não serve de diversão nem mesmo para rãs; um bar no qual apenas velhos fantasmas trocam amenidades e bebem seus uísques cowboy, sem nunca ficarem bêbados; o cinema que outrora exibiu a queda do império romano, longa jornada noite adentro e nunca fomos tão felizes e que agora assiste impassível o próprio the end; trilhos retos e escadas espiraladas que não levam a lugar nenhum; construções sendo devoradas pela vegetação que escala as paredes como labaredas verdes; a cama de casal que testemunhou um amor indomável como o fogo tornar-se fumaça e gelo e cinzas enfim (o que não tem fim sempre acaba assim, diria Humerto Gessinger).

Mas para muito além de tudo isso, esses lugares nos fazem lembrar principalmente de que madeira, ferro, pano, papel, pedra, gente, tudo, absolutamente tudo se transforma, e encontra a decadência e se converte em pó e acaba. Só uma coisa permanece: a impermanência. Que tudo o que começa não se presta para existir, mas para terminar.

Tenham todos um ótimo final de semana! Ou algo parecido.

(postado originalmente na página pessoal do autor no Facebook)

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 03/08/2019

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  1. Imagens retiradas da internet ↩︎

Sharon Olds – Diretamente

E então, em um final de tarde,
eu compreendi: o mal que meu pai
nos fez está diminuindo. Nunca imaginei
que isso pudesse acontecer, achava que esse mal fosse mais forte,
como o mal divino — inundação, nascimento sem
olhos, com montes de tecido, sem retina, sem
pupila, do jeito que meu pai no sofá não
parecia simplesmente não usar os olhos,
mas sim não os ter, ou ter objetos em vez
de olhos — broches de vestido à Jocasta.
Mas ele não foi odiado, então não nos odiava,
apenas nos desprezava, e isso está passando.
Meu filho e minha filha estão crescidos, e estão bem
quase que por milagre. A tarde tem a
qualidade de um milagre, os estorninhos estão todos voltados
para o oeste, para o túmulo dele. Aproximo-me da janela
como se fosse abri-la, e sussurro:
o mal do meu pai está se dissipando. Então,
penso que ele ficaria contente em ouvir isso
diretamente de mim,

então, venho até onde você está, os ossos
acomodados sob a trama orvalhada
do musgo esverdeado de Northwoods, como o cabelo
emaranhado da amada. Venho aqui até você
porque este é o seu lar: seu corpo já desfeito,
despedaçado na terra, mantendo
sua solene e inútil beleza.

Trad.: Nelson Santander

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Directly

Then, one late afternoon,
I understand: the harm my father
did us is receding. I never thought
it would happen, I thought his harm was stronger than that,
like God’s harm—flood, or birth without
eyes, with mounds of tissue, no retina, no
pupil, the way my father on the couch did not
seem not to be using eyes
but not to have them, or to have objects
for eyes—Jocastal dress-brooches.
But he had not been hated, so he did not hate us,
just scorned us, and it is wearing off.
My son and daughter are grown, they are well
as if by some miracle. The afternoon has a
quality of miracle, the starlings all facing
the west, his grave. I come to the window
as if to open it, and whisper,
My father’s harm is fading. Then,
I think that he would be glad to hear it
directly from me,

so I come to where you are, bone
settled under the dewed tangle
of the blackish Northwoods moss like the crossroads
hair of a beloved. I come to you here
because it is home: your done-with body
broken back down into earth, holding
its solemn incapable beauty.

Joan Margarit – Vida Social

Idealizavas esta solidão
para ouvir música ou ler,
e caminhar no inverno junto ao mar.
Mas a solidão é uma chuva
que suja as janelas deste trem dos anos.
A solidão é a palavra cruel
do acre ressentimento familiar.
É a lei do acaso, um labirinto injusto.
É não ter dinheiro, é ter medo.
É o sexo, uma estranha pista falsa
que conduz ao mais cruel dos espelhos.
É não ter desculpas pelo que não viveste.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 10/08/2019

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Joan Margarit – Vida Social

Idealizabas esta soledad
de escuchar música o leer,
de vagar en invierno junto al mar.
Pero la soledad es una lluvia
que ensucia los cristales de este tren de los años.
La soledad es la palabra cruel
del agrio malhumor de la familia.
Es la ley del azar, un laberinto injusto.
Es no tener dinero, es tener miedo.
Es el sexo, una extraña pista falsa
que conduce al más cruel de los espejos.
Es no tener excusa por lo que no has vivido.

Paul Guest – Elegia universal

Pelo sol, que se apagará ou se esgotará
ou dramaticamente implodirá em uma era
futura tão terrível quanto esta. Pelo
cervo com um chifre só que expirou a caminho
de um santuário ao norte
porque sim. Pela sequoia-túnel,
arrancada em uma tempestade
outro dia. Pela minha fantasia de infância
em atravessa-la. Pela Califórnia.
Por esta tristeza. Esta alegria. Por este
balde no chão. Pela indústria
que mais nos prejudicará
em sua inevitável extinção.
Pelos coelhos de estimação que morreram
em suas grotescas gaiolas
no nosso quintal. Pela escola
que pegou fogo. Pelo lago
nos meus sonhos, sempre congelado.
Pelo doloroso mito
de seu nascimento. Por este novo ano.
Que não tem nada de novo.
Que será igual
ao passado e ao anterior.
E assim por diante. Pelo ar
em minha boca sem forma de nada.
Pelo sino tocando
na chuva extemporânea.
Para cada aviso ignorado. Pelo doce
amor, cada vez mais
impossível. Pela Noruega,
que encerrou todas suas transmissões em FM.
Pelo silêncio, que ninguém
verdadeiramente valoriza. Pela canção
que não reconheci no elevador,
enquanto tudo o que eu podia sentir era dor.
Pela noite, cada vez mais imensa
e deprimente e absoluta
e pelas vozes nela discutindo incessantemente.
Por este embate com as estrelas.
Pelas cinzas. Pelo vento.
Por essa emergência a que chamamos vida.

Trad.: Nelson Santander

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All-Purpose Elegy

For the sun, which will burn out or run down
or dramatically implode in a future
epoch about as awful as this one. For
the one-antlered deer that expired en-route
to an upstate sanctuary because
why not. For the sequoia tunnel tree
which was uprooted in a storm
the other day. For my boyhood fantasy
of driving through it. For California.
For this sadness. This joy. This
bucket on the floor. For the industry
which will most harm you
upon its inevitable demise.
For the pet rabbits who died
in grotesque cages
in our backyard. For the school
that burned down. For the lake
in my dreams which is always frozen.
For the pained myth
of your birth. For this new year.
Which isn’t new at all.
Which will be the same
as last year and the one before it.
And so on. For the air
inside my mouth shaped like nothing.
For the bell ringing
through the early rain.
For each unheeded warning. For sweet
love, which seems ever more
impossible. For Norway,
which has shut down all its FM broadcasts.
For silence, which nobody
truly values. For the song
I couldn’t recognize in the elevator,
though all I could do was ache.
For the night, which becomes more immense
and depressing and utter
and the voices in it which argue and argue.
For this conflict with the stars.
For ashes. For the wind.
For this emergency we call life.

Walter Savage Landor – Rose Aylmer

Ah, de que vale a régia raça!
E esta forma celeste!
Toda virtude, toda graça!
Rose Aylmer1, tudo o que foste.

Rose Aylmer, meus olhos despertos
Eles choram, mas não veem,
Uma noite de dor te oferto,
E de lembranças também.

Trad.: Nelson Santander

  1. “Rose Aylmer”, escrito por Walter Savage Landor, é um tributo a Rose Whitworth Aylmer (1780-1800), uma amiga próxima do autor, conhecida por sua beleza e graça. Landor expressa sua admiração por Rose, descrevendo-a como uma figura encantadora. O poema reflete a sensibilidade romântica do período, destacando a beleza e a virtude de Rose e lamentando sua perda. “Rose Aylmer” é considerado um dos poemas mais famosos de Landor, expressando sua profunda admiração pela amiga e sua saudade após sua partida. A imagem que ilustra o poema é do túmulo de Rose Aylmer, situado no South Park Street Cemetery, em Calcutá, na Índia. ↩︎

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 04/08/2019

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Rose Aylmer

Ah, what avails the sceptred race!
Ah, what the form divine!
What every virtue, every grace!
Rose Aylmer, all were thine.

Rose Aylmer, whom these wakeful eyes
May weep, but never see,
A night of memories and sighs
I consecrate to thee.

Linda Pastan – Instruções

Você deve embalar sua dor em seus braços
até que ela adormeça, e depois deixá-la

em um quarto escuro
e sair na ponta dos pés.

Por um momento, você sentirá
o vazio da paz.

Mas no quarto ao lado
sua dor já está se agitando.

Em breve, estará
chamando seu nome.

Trad.: Nelson Santander

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Instruction

You must rock your pain in your arms
until it’s asleep, then leave it

in a darkened room
and tiptoe out.

For a moment you will feel
the emptiness of peace.

But in the next room
your pain is already stirring.

Soon it will be
calling your name.

François Villon – Balada dos Enforcados

Irmãos humanos que ao redor viveis,
Não nos olheis com duro coração,
Pois se aos pobres de nós absolveis
Também a vós Deus vos dará perdão.
Aqui nos vedes presos, cinco, seis:
Quanto era cara viva que comia
Foi devorado e em pouco apodrecia.
Ficamos, cinza e pó, os ossos, sós.
Que de nossa aflição ninguém se ria,
Mas suplicai a Deus por todos nós.

Se dizemos irmãos, vós não deveis
Sentir desprezo, embora condenados
Tenhamos sido em vida. Bem sabeis:
Nem todos têm os sentidos sentados.
Desculpai-nos, que já estamos gelados,
Perante o filho da Virgem Maria.
Que seu favor não nos falte um só dia
Para livrar-nos do inimigo atroz.
Estamos mortos: que ninguém sorria,
Mas suplicai a Deus por todos nós.

A chuva nos lavou e nos desfez
E o sol nos fez negros e ressecados,
Corvos furaram nossos olhos e eis-
Nos de pelos e cílios despojados,
Paralíticos, nunca mais parados,
Pra cá, pra lá, como o vento varia,
Ao seu talante, sem cessar, levados,
Mais bicados do que um dedal. A vós
Não ofertamos nossa confraria,
Mas suplicai a Deus por todos nós.

Meu príncipe Jesus, que a tudo vês,
Não nos entregues à soberania
Do Inferno, que só ouvimos tua voz.
Homens, aqui não cabe zombaria,
Mas suplicai a Deus por todos nós.

Trad.: Augusto de Campos

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 03/08/2019

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Ballade des pendus

Frères humains, qui après nous vivez,
N’ayez les coeurs contre nous endurcis,
Car, si pitié de nous pauvres avez,
Dieu en aura plus tôt de vous mercis.
Vous nous voyez ci attachés, cinq, six :
Quant à la chair, que trop avons nourrie,
Elle est piéça dévorée et pourrie,
Et nous, les os, devenons cendre et poudre.
De notre mal personne ne s’en rie ;
Mais priez Dieu que tous nous veuille absoudre !

Se frères vous clamons, pas n’en devez
Avoir dédain, quoique fûmes occis
Par justice. Toutefois, vous savez
Que tous hommes n’ont pas bon sens rassis.
Excusez-nous, puisque sommes transis,
Envers le fils de la Vierge Marie,
Que sa grâce ne soit pour nous tarie,
Nous préservant de l’infernale foudre.
Nous sommes morts, âme ne nous harie,
Mais priez Dieu que tous nous veuille absoudre !

La pluie nous a débués et lavés,
Et le soleil desséchés et noircis.
Pies, corbeaux nous ont les yeux cavés,
Et arraché la barbe et les sourcils.
Jamais nul temps nous ne sommes assis
Puis çà, puis là, comme le vent varie,
A son plaisir sans cesser nous charrie,
Plus becquetés d’oiseaux que dés à coudre.
Ne soyez donc de notre confrérie ;
Mais priez Dieu que tous nous veuille absoudre !

Prince Jésus, qui sur tous a maistrie,
Garde qu’Enfer n’ait de nous seigneurie :
A lui n’ayons que faire ne que soudre.
Hommes, ici n’a point de moquerie ;
Mais priez Dieu que tous nous veuille absoudre !