-
Giórgos Seféris – Existe

Existe, pelos deuses cruéis predestinada, uma dor universal, e cada um de nós dela pega a sua parte, quanto aguente levar. Julgamos insensatos os que, carregando pressurosamente nos ombros mais do que podiam carregar, aliviam assim a carga comum: os heróis, os mártires, os criminosos. Rogo-lhes que nos perdoem. Recordamos. Trad.: José Paulo Paes
-
Giórgos Seferis – São Assim os Túmulos

São assim os túmulos. Cheios de flores, no princípio, com a chama do pesar acesa por sobre a sua alvura. E tudo quanto a vida inventa de consolo – as mãos caídas, a cabeça baixa, a fonte dos lamentos – acompanha as horas pétreas dos que jazem. Depois, sob o sol indiferente, os passos vão-se…
-
Angela Leite de Souza – Do Lado de Cá Dessas Rosas

Nem percebi quando me cobriram com esta colcha rosa de rosas amorosamente. Dormia meu novo sono sem tranqulizantes, sem relógios: estou serena e não há pressa em acordar. Ser apenas, estar. Não me roem mais tristezas nem desejos, lateja leve leve uma saudade. Meu corpo vai não sendo, sou feliz. Livre do dever de viver e…
-
Carlos Drummond de Andrade – Os Rostos Imóveis

Pai morto, namorada morta. Tia morta, irmão nascido morto. Primos mortos, amigo morto Avô morto, mãe morta (mãos brancas, retrato sempre inclinado na parede, grão de poeira nos olhos). Conhecidos mortos, professora morta. Inimigo morto. Noiva morta, amigas mortas. Chefe de trem morto, passageiro morto. Irreconhecível corpo morto: sera homem ou bicho! Cão morto, passarinho morto.…
-
Carlos Drummond de Andrade – Palavras no Mar

Escrita nas ondas a palavra Encanto balança os náufragos, embala os suicidas. Lá dentro, os navios são algas e pedras em total olvido. Há também tesouros que se derramaram e cartas de amor circulando frias por entre medusas. Verdes solidões, merencórios prantos, queixumes de outrora, tudo passa rápido e os peixes devoram e a memória…
-
Carlos Drummond de Andrade – Noturno Oprimido

A água cai na caixa com uma força, com uma dor! A casa não dorme, estupefata. Os móveis continuam prisioneiros de sua matéria pobre, mas a água parte-se a água protesta. Ela molha toda noite com sua queixa feroz, seu alarido. E sobre nossos corpos se avoluma o lago negro de não sei que infusão.…
-
Cassiano Ricardo – Vociferação

I Homem em Adão. Homem em Cristo. Homem em globo. II como salvar Deus? nós faremos d’Ele novamente o Autor de tudo: do peixe, da ave, da cobra, da maçã, do sapo, do rouxinol do sol. O obrigaremos contudo a suar san- gue conosco, na guerra, na fome na peste na terra suja; a engolir…
-
Cassiano Ricardo – Gramática Visual de Cristo

1 “Cristo, terá sido em vão teu sacri- fício? vê, o sangue escorre, acre, no massacre das ruas.” Cristo espalmou a mão cobrindo os olhos horizontalmente pra não ver a destruição do ser 2 “Cristo, vê os pequeninos que tanto amaste agora garotos nos becos como ratos dentro de sapatos rotos.” Cristo escondeu, de novo,…
-
Cassiano Ricardo – Etc.

Existe tudo porque existo. Há porque vemos. (Fernando Pessoa) Para que o mundo exista, existimos. Pois seja. Sem os nossos olhos, sem o que somos, que adiantaria haver mundo? Seria a árvore dos dourados pomos, etc. O que é ignorado não existe. O que é eterno também não existe. A eternidade é uma forma…
-
Jorge Luis Borges – Remorso por qualquer morte

Livre da memória e da esperança,Ilimitado, abstrato, quase futuro,O morto não é um morto: é a morte.Como o Deus dos místicos,A quem se devem negar todos os predicados,O morto, onipresentemente alheio,Não é senão a perdição e a ausência do mundo.Tudo lhe roubamos,Não lhe deixamos nem uma cor, nem uma sílaba:Aqui está o pátio que seus…
