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Armando Freitas Filho – Escritor, Escritório

Não transponho Camões, mas me empenho. Não atravesso seu mar manuscrito porque me afogo na incompreensão no enfado, no palavreado castiço na análise sintática dos seus versos onde erro na prova urgente, aflita sem ouvi-los soar na página a pleno de difícil lida, da ilimitada luta na travessia da linha, da estrofe empolgante, empolada, que…
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Armando Freitas Filho – Antiquário

Mil folhas. Mesmo em algumas das mais passadas, um pouco do sabor, um risco de doçura e amargo, é remanescente. Anamnésia construída pelo fato e pela imaginação: vai do anátema ao enaltecimento, expressos em alta voz até ao murmúrio cifrado no coração. O acervo de uma vida se dispersará depois de ela parar: alguma coisa…
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W. H. Auden – Aquele que Ama Mais

Contemplando as estrelas, logo eu discirnoQue, por elas, eu posso ir para o inferno,Porém, na terra, a indiferença é o que menosTemos a temer, de animais e humanos Como seria se os astros de paixãoPor nós ardessem e disséssemos não?Se os afetos nunca podem ser iguaisPois que seja eu aquele que ama mais. Por mais…
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Ricardo Silvestrin – Bilhete

Não me parecias frágil, via-te doce. Talvez fosses mesmo forte, é preciso ser valente pra decretar a própria morte. Tinha-te por calmo. Que rio obscuro e discreto te puxava para o fundo, sem saber nadar, sem ninguém saber de nada? Não deixaste uma carta, um poema, um bilhete de suicida. Como se quisesses dizer que…
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Jaime Sabines – Te Amo às Dez da Manhã

Te amo às dez da manhã, e às onze, e ao meio-dia. Te amo com toda a minha alma e com todo o meu corpo, às vezes, em tardes chuvosas. Mas às duas da tarde, ou às três, quando eu me perco em pensar em nós dois, e tu pensas em comida ou nas tarefas…
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Sophia de Mello Breyner Andresen – Meio-dia

Meio-dia. Um canto da praia sem ninguém. O sol no alto, fundo, enorme, aberto, Tornou o céu de todo o deus deserto. A luz cai implacável como um castigo. Não há fantasmas nem alvas, E o mar imenso solitário e antigo, Parece bater palmas.
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Paul Auster – Fragmento de Frio

Porque ficamos cegos no dia que se esvai conosco, e porque vimos nossa respiração nublar o espelho de ar, o olho do ar vai se abrir para nada mais que a palavra a que renunciamos: o inverno terá sido lugar de madureza. Nós que viramos os mortos de uma vida que não a nossa. Trad.:…
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Zulmira Ribeiro Tavares – Após o inverno

Desarrumação em setembro. O vento batendo as portas e a floração rebentando nas cercas vivas. O céu por vezes de terracota bem acima das cabeças, mas também finas agulhas de gelo imiscuindo-se pelas frinchas, noite alta. Era em São Paulo. Então se entende: o mato bravo torcido pela chuva, o prédio em demolição pingando água…
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Rainer Maria Rilke – Hora Grave

Quem agora chora em algum lugar do mundo, Sem razão chora no mundo, Chora por mim. Quem agora ri em algum lugar na noite, Sem razão ri dentro da noite, Ri-se de mim. Quem agora caminha em algum lugar no mundo, Sem razão caminha no mundo, Vem a mim. Quem agora morre em algum lugar…
