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Goethe – Pensamentos Noturnos

Tão belas na rútila luz soberana, Guia do navegante aflito, sem norte (E sem recompensa, divina ou humana), – Tenho dó de vocês, estrelas sem sorte, Sem jamais amar e sem saber do amor! Tangendo, incansáveis, as horas eternas Na ronda do tempo das vastas esferas, Vocês vão cumprindo percursos sem conta. Mas eu, se…
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Thomas Hardy – Acaso

Se ao menos do alto me chamasse um deus De ódio, e risse: “Ó homem coisa-dor, Teu sofrimento é o júbilo dos céus, Teu deve-amor é o meu haver-rancor”, Eu me conformaria, indo ao extremo De não dobrar-me, réu de um juiz verdugo, Mas orgulhoso que um poder sumpremo Me obrigasse a gemer sob o…
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William Carlos Williams – A Árvore sem Folhas

A cerejeira sem folhas mais alta que o teto deu ano passado muita fruta. Como falar porém de fruta diante desse esqueleto? Embora possa estar vivo não há fruta nele. Por isso derrubem-no e usem a lenha contra este frio cortante. Trad.: José Paulo Paes The bare tree The bare cherry tree higher than…
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Ivan Junqueira – No Leito Fundo

No leito fundo em que descansas, em meio às larvas e aos livores, longe do mundo e dos terrores que te infundia o aço das lanças; longe dos reis e dos senhores que te esqueceram nas andanças, longe das taças e das danças, e dos feéricos rumores; longe das cálidas crianças que ateavam fogo aos…
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Ivan Junqueira – de “Três Meditações na Corda Lírica”

Only through time time is conquered. T. S. Eliot, Four Quartets, Burnt Norton, 92 I Deixa tombar teu corpo sobre a terra e escuta a voz escura das raízes, do limo primitivo, da limalha fina do que…
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Ivan Junqueira – Lição

À beira do claustro o monge se inclina e na pedra aprende o que a pedra ensina: que a vida é nada com a morte por cima, que o tempo apenas este fim lhe adia e que o ser carece de não ser ainda, pois à luz se esquiva do que o purifica: a doce…
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Ivan Junqueira – Antes que o Sol se Ponha

Antes que o sol se ponha e seja tarde, e o azul crepuscular me deite a garra, e eu, nu, retorne à terra sem fanfarra ou mortalha que o corpo me resguarde; antes que murche a pétala na jarra, e eu cale, para sempre, sem alarde, e tudo o que me coube, por covarde, não…
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Attila József – Dois Fragmentos

Igual motor já engatado, mas sem caminho a ser seguido, sou assim, e se fosse mais ousado só diria palavras sem sentido. ***** Quando se escreve um verso, ação diversa nos convém, o mar em vez de firme chão, navio em vez de trem. Quando se escreve em verso, não escrever nos convém. Trad.: Nelson…
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José Jorge Letria – Meditação sobre os Poderes

Rubricavam os decretos, as folhas tristes sobre a mesa dos seus poderes efémeros. Queriam ser reis, czares, tantas coisas, e rodeavam-se de pequenos corvos, palradores e reverentes, dos que repetem: és grande, ninguém te iguala, ninguém. Repartiam entre si os tesouros e as dádivas, murmurando forjadas confidências, não amando ninguém, nada respeitando. Encantavam-se com o…
