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Guilherme de Almeida – Soneto XXVII

Hoje voltas-me o rosto, se a teu lado passo; e eu baixo os meus olhos se te avisto. E assim fazemos, como se com isto pudéssemos varrer nosso passado. Passo, esquecido de teu olhar — coitado! Vais — coitada! — esquecida de que existo: como se nunca tu me houvesses visto, como se eu sempre…
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Goethe – Um Igual

Sobre cada monte A calma, Em cada fronde Nem sinal De brisa; calam- -se os pássaros na floresta. Espera! Em breve Descansas em paz. Trad.: André Vallias
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Angela Lago – Sem Título

a pedra estará aqui daqui a vinte anos quem sabe mais polida embora não se veja ou mais recortada pelo vento a árvore terá crescido com sua sombra nem o céu permanece azul ou cinza rubro dorado negro no entanto tem essa criança que busca colo – que seja um cão que vem ao teu…
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Ana Martins Marques – Sem Título

Porque sua camiseta secou ao sol ela tem a cor do sol porque seus cabelos secaram ao vento seus pensamentos têm a velocidade do vento porque você disse “noite” sua boca terá o gosto do mar noturno porque você não conheceu meu avô você me amará menos porque não te conheci quando criança eu te…
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Petrarca – Soneto CXXXIII (“O Amor me Assinalou com sua Seta”)

O amor me assinalou com sua seta,como a neve ao sol, como a cera ao fogo,como névoa ao vento; e já estou rouco,dama, de humilhar-me, feito um pateta. De teus olhos o golpe mortal veio,contra o qual tempo e espaço nada são;Vêm de ti, e vês como diversão,o sol, o fogo e o vento aos…
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Petrarca – Soneto CCLXXII

A vida foge e não recua um passoE a morte, em grande marcha, vai em frente;As coisas do passado e do presente,Ao futuro reclamam meu espaço. A jornada que nesta vida eu traçoNa espera e na lembrança inutilmente,Por pena de mim mesmo descontenteEste caminho que ora fiz, desfaço. Se à lembrança me vem algum desejoDo…
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Lucrécio – Da Natureza das Coisas (de rerum natura) (excerto)

Coisa nenhuma subsiste, mas tudo flui. Fragmento ajusta-se a fragmento e as coisas assim crescem Até que as conhecemos e nomeamos. Fundem-se, e já não são as coisas que conhecêramos. Formados dos átomos que caem velozes ou lentos Vejo os sóis, vejo os sistemas se ordenarem; É sólido que a natureza está em nós até…
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Federico García Lorca – 1910 (Intermezzo)

Aqueles olhos meus de mil e novecentos e dez não viram enterrar os mortos, nem a feira de cinzas daquele que chora pela madrugada, nem o coração que treme acossado como um cavalo marinho. Aqueles olhos meus de mil e novecentos e dez viram a parede branca onde as meninas mijavam, o focinho do touro,…
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Charles Baudelaire – A Giganta

Pois quando a Natureza, em seu capricho exato, Gerava estranhos seres raros, dia a dia, Uma giganta moça – eis do eu gostaria, Para viver-lhe aos pés com a volúpia de um gato. Ver seu corpo florir com a flor de sua alma E crescer livremente em seus terríveis jogos; Ver se não teria no…
