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César Cantoni – O mais digno em nós

Eu sempre pensei que os ossos, com seu brilho mineral de pedra polida pela chuva, são o que há de mais digno em nós: sobrevivem largamente à putrefação indecorosa da carne e não têm a malícia nem a maldade da alma. Trad.: Nelson Santander César Cantoni – Lo más digno de nosotros Siempre pensé…
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Sophia de Mello Breyner Andresen – Terror de te Amar

Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo Mal de te amar neste lugar de imperfeição Onde tudo nos quebra e emudece Onde tudo nos mente e nos separa. Que nenhuma estrela queime o teu perfil Que nenhum deus se lembre do teu nome Que nem o vento passe onde tu passas.…
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Mario Benedetti – Angelus

Quem me diria que o destino era isso Vejo a chuva através de letras invertidas Uma parede com manchas que parecem homens Os tetos dos ônibus brilhantes como peixes E essa melancolia que impregna as buzinas Aqui não há céu, Aqui não há horizonte. Há uma mesa grande para todos os braços E uma cadeira…
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Hilda Hilst – Obriga-me

E por que haverias de querer minha alma Na tua cama? Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas Obscenas, porque era assim que gostávamos. Mas não menti gozo, prazer, lascívia Nem omiti que a alma está além, buscando Aquele Outro. E te repito: por que haverias De querer minha alma na tua cama? Jubila-te da memória de…
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Charles Bukowski – A Retirada

desta vez o negócio acabou comigo. me sinto como as tropas alemãs açoitadas pela neve e pelos comunistas caminhando curvadas as botas gastas forradas com papel jornal. minha condição é tão terrível quanto. talvez até pior. a vitória estava tão perto a vitória estava logo ali. enquanto ela estava ali diante de meu espelho mais…
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Paola Rodrigues – Vida Lúcida

Assim como ninguém explicou o início As ondas continuam a chegar na costa Tudo corre sempre em direção ao fim Os copos caem e as cidades se amontoam em nossas costas Amar o perdido deixa confundido este coração Ainda que os dias continuem a nascer Os ônibus andem, os outros durmam Meus pés tropeçam em…
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Miquel Martí i Pol – No ano que vem

No ano que vem já ninguém reparará em nós. Agora somos recém-chegados e fitam-nos com desprezo até mesmo os que andam por cá há quarenta anos e já nada os muda. Temos um ar aturdido e tenaz que faz rir as mulheres e quase nem nos atrevemos a mexer a cabeça por temor a perder…
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Manuel de Freitas – “Pela manhã o gato…”

Pela manhã o gato estende-se vagaroso nesse impreciso lugar em que luz e sombra se entretecem. Nas pedras rondantes do que sempre chamámos a nossa casa, esse sonho de irmos por detrás das janelas encarcerados nas agrestes paredes do amor. Todas as manhãs, enquanto a escola me espera, o gato é tão certo como os…
