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Inês Dias – Your Funeral, my Trial

O morto fica mais só quando quem fala lhe rouba a última memória desse barco desmesurado da infância, construído sem vista para o mar. O morto fica mais só ainda, quando quem ouve se esquece da música para escolher o seu próprio funeral, alinhando convidados e preferindo coroas de plástico a condizer com as lágrimas.…
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Manuel António Pina – Relatório

É um mundo pequeno, habitado por animais pequenos – a dúvida, a possibilidade da morte – e iluminado pela luz hesitante de pequenos astros – o rumor dos livros, os teus passos subindo as escadas, o gato brincando na sala com o último raio de sol da tarde. Dir-se-ia antes uma casa, um pouco mais…
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Vitor Nogueira – Sementes

É claro que me lembro. Havia dois atalhos pelo meio do pinhal, direcções espantosamente precisas, animais que não voltei a ver. Enquanto as colheitas amadureciam nos campos, havia talismãs pendurados nas árvores e mercúrio para tratar certas lesões, uma peça vital do equipamento. Havia girassóis à volta da casa e as palavras imortais dos…
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Jorge Luis Borges – Sobre nós

Amamos o que não conhecemos, o já perdido. O bairro que foi periferia. Os antigos, que já não podem nos decepcionar porque são mito e esplendor. Os seis volumes de Schopenhauer, que não acabaremos de ler. A lembrança, não a leitura, da segunda parte do Quixote. O Oriente que, sem dúvida, não existe para o…
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Ana Martins Marques – de “Três Postais”

São Paulo Depois de um tempo todas as coisas ficam marcadas como se estivessem impregnadas de veneno Há um tempo em que os lugares são limpos e novos abertos como clareiras mas já não é este o tempo Sobre cada lugar se sobrepõe a experiência do lugar como um selo num cartão postal Por exemplo…
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Alberto Caeiro – Quando vier a primavera

Quando vier a primavera, Se eu já estiver morto, As flores florirão da mesma maneira E as árvores não serão menos verdes que na primavera passada. A realidade não precisa de mim. Sinto uma alegria enorme Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma. Se soubesse que amanhã morria E a primavera era…
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José Alcaraz – Volta para Casa

Atravessa as ruas absorto nos ecos das pessoas, distante inclusive de seus pensamentos. Não chove, não abre seu guarda-chuva, no entanto, como sempre, molham-se não só seus sapatos como a vida também, porque às vezes não recorda que o mundo o reclama. Caminha como quem não sabe para onde, a cada passo crê estar só…
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Hans Magnus Enzensberger – A Visita

Quando levantei os olhos da página em branco havia um anjo no quarto. Um anjo bastante comum presumivelmente de menor hierarquia. Você não pode imaginar, ele disse, o tanto que você é dispensável. Dos quinze mil tons de azul, ele disse, cada um faz mais diferença Do que tudo que você possa fazer ou deixar…
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Manuel António Pina – Interiores

Onde estamos agora que não nos vemos, tu sentada diante da TV e eu escrevendo isto, não sei o quê, como outros dois que nós não conhecemos? Será que alguma coisa permaneceu do nosso amor como uma inevitabilidade, uma saudade pousada agora na mão de Deus existindo para sempre na sua breve eternidade? Talvez percorramos…
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Sophia de Mello Breyner Andresen – Reza da Manhã de Maio

Senhor, dai-me a inocência dos animais Para que eu possa beber nesta manhã A harmonia e a força das coisas naturais. Apagai a máscara vazia e vã De humanidade, Apagai a vaidade, Para que eu me perca e me dissolva Na perfeição da manhã E para que o vento me devolva A parte de mim…