Edna St. Vincent Millay – Objeção de Consciência

Eu vou morrer, mas
isso é tudo o que farei pela Morte.
Eu a ouço tirar seu cavalo da baia;
Eu ouço pisadas no chão do celeiro.
Ela tem pressa; ela tem negócios em Cuba e
nos Bálcãs, muitas ligações a fazer na manhã.
Mas eu não vou segurar a rédea
enquanto ela ajusta a cilha.
Ela que monte sozinha:
não darei pé na subida.

Embora ela estrale meus ombros no chicote,
não direi a ela para onde a raposa correu.
Com os cascos em meu peito, não direi onde
o garoto negro se esconde no pântano.
Eu vou morrer, mas isso é tudo que farei pela Morte.
Eu não estou em sua folha de pagamentos.

Não direi a ela o paradeiro dos amigos,
nem o dos meus inimigos.
Ainda que ela me prometa muito,
não mapearei o endereço de ninguém.
Acaso sou uma espiã na terra dos vivos
para entregar pessoas à Morte?
Irmã, senha e as plantas de nossa cidade estão
seguras comigo; a depender de mim, nunca serás derrotada.

Trad.: Mariana Basílio

Edna St. Vincent Millay – Conscientious Objector

I shall die, but
that is all that I shall do for Death.
I hear him leading his horse out of the stall;
I hear the clatter on the barn-floor.
He is in haste; he has business in Cuba,
business in the Balkans, many calls to make this morning.
But I will not hold the bridle
while he clinches the girth.
And he may mount by himself:
I will not give him a leg up.

Though he flick my shoulders with his whip,
I will not tell him which way the fox ran.
With his hoof on my breast, I will not tell him where
the black boy hides in the swamp.
I shall die, but that is all that I shall do for Death;
I am not on his pay-roll.

I will not tell him the whereabout of my friends
nor of my enemies either.
Though he promise me much,
I will not map him the route to any man’s door.
Am I a spy in the land of the living,
that I should deliver men to Death?
Brother, the password and the plans of our city
are safe with me; never through me shall you be overcome.

Manuel António Pina – Forma, só Forma

Brincarei ainda na infância
lembrando-me agora?
E que recordação
me pensa a esta hora?
O que sou passou
pela minha existência,
tenho uma presença
mas já lá não estou:
sou também lembrança
de alguém em algum sítio,
onde não alcança
o que, lembrado, sinto.
E aí repousa já
tornado esquecimento
um dia que virá
há muito, muito tempo

Alejandra Pizarnik – Capítulos Principais

Chega a morte com sua manada de ossos
sorrio submissa a uma menina idiota
que implora em meu nome
juntas (a morte, a menina e eu)
não encontramos outro ofício para execrar.
No final todos se casam:
o mar e as ondas,
a noite e a escuridão,
a taça e o vinho,
o anel e o dedo,
a morte e o cadáver.

Trad.: Nelson Santander

Alejandra Pizarnik – Capítulos principales.

Llega la muerte con su manada de huesos
sonrío sumisa a una niña idiota
que implora en mi nombre
juntas (la muerte, la niña y yo)
no encontramos otro oficio que execrar
Al final todos se casan:
el mar y las olas,
la noche y lo oscuro,
el vaso y el vino,
el anillo y el dedo,
la muerte y el cadáver.

Georg Trakl – No Outono

Junto à cerca, os girassóis e o seu brilho,
Doentes sentados ao sol, sem alento.
No campo, as mulheres cantam no trabalho,
Ouvem-se ao longe os sinos do convento.

Os pássaros contam lendas de encantar,
Ouvem-se ao longe os sinos do convento.
Há um violino no pátio a gemer.
E já o vinho escuro vão recolhendo.

Todos parecem felizes, libertos,
E já o vinho escuro vão recolhendo.
Os jazigos dos mortos estão abertos,
Pintados pelo sol que vai entrando.

Trad.: João Barrento

Joan Margarit – Não jogues fora as cartas de amor

Elas não te abandonarão.
O tempo passará, apagar-se-á o desejo
— esta flecha da sombra —
e os rostos sensuais, belos e inteligentes,
ocultar-se-ão em ti, no fundo de um espelho.
Passarão os anos. Cansar-te-ão os livros.
Decairás ainda mais
e perderás até mesmo a poesia.
O ruído da cidade nas vidraças
acabará por ser tua única música,
e as cartas de amor que houveres guardado
serão tua última literatura.

Trad.: Nelson Santander

Joan Margarit – No tires las cartas de amor

Ellas no te abandonarán.
El tiempo pasará, se borrará el deseo
-esta flecha de sombra-
y los sensuales rostros, bellos e inteligentes,
se ocultarán en ti, al fondo de un espejo.
Caerán los años. Te cansarán los libros.
Descenderás aún más
e, incluso, perderás la poesía.
El ruido de ciudad en los cristales
acabará por ser tu única música,
y las cartas de amor que habrás guardado
serán tu última literatura.

Tishani Doshi – Poema de Amor

No fim, perderemos um ao outro
para alguma coisa. Espero que para algo
grandioso – morte ou desastre.
Mas pode não ser dessa maneira.
Pode ser que você saia
para comprar cigarros uma manhã
depois de termos feito amor
e nunca mais retorne,
ou eu me apaixone por outro homem.
Pode ser uma lenta caminhada rumo à indiferença.
Seja como for, teremos que aprender
a suportar o peso de que eventualmente
perderemos um ao outro para alguma coisa.
Então por que não começar agora, enquanto sua cabeça
repousa como uma lua perfeita em meu colo,
e os cães na praia estão uivando lá fora?
Por que não alcançar a sutura que nos une nesta
noite indiana e rasga-la, só um pouco, para a queda
poder começar? Porque mais tarde, quando nos cruzarmos
nas ruas, e tivermos que desviar nossos olhares,
quando tivermos atirado
as partes rejeitadas de nossa vida comum
nas gavetas do quarto e o cheiro
de nossos corpos estiver desaparecendo como o doce
definhar dos lírios – do que iremos chamar isto,
quando não for mais amor?

Trad.: Nelson Santander

Tishani Doshi – Love Poem

Ultimately, we will lose each other
to something. I would hope for grand
circumstance — death or disaster.
But it might not be that way at all.
It might be that you walk out
one morning after making love
to buy cigarettes, and never return,
or I fall in love with another man.
It might be a slow drift into indifference.
Either way, we’ll have to learn
to bear the weight of the eventuality
that we will lose each other to something.
So why not begin now, while your head
rests like a perfect moon in my lap,
and the dogs on the beach are howling?
Why not reach for the seam in this South Indian
night and tear it, just a little, so the falling
can begin? Because later, when we cross
each other on the streets, and are forced
to look away, when we’ve thrown
the disregarded pieces of our togetherness
into bedroom drawers and the smell
of our bodies is disappearing like the sweet
decay of lilies — what will we call it,
when it’s no longer love?

Emily Dickinson – “Morrer por ti era pouco…”

Morrer por ti era pouco.
Qualquer grego o fizera.
Viver é mais difícil —
É esta a minha oferta —

Morrer é nada, nem
Mais. Porém viver importa
Morte múltipla — sem
O Alívio de estar morta.

Trad.: Augusto de Campos

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Too scanty ‘twas to die for you

Too scanty ’twas to die for you,
The merest Greek could that.
The living, Sweet, is costlier —
I offer even that —

The Dying, is a trifle, past,
But living, this include
The dying multifold — without
The Respite to be dead.

Antonia Pozzi – Novembro

E depois – quando eu partir
restará alguma coisa
de mim
no meu mundo –
restará um fino rasto de silêncio
no meio das vozes –
um ténue sopro de branco
no coração do azul –

E numa noite de Novembro
uma menina frágil
à esquina de uma rua
venderá braçadas de crisântemos
e lá estarão as estrelas
gélidas verdes distantes –
Alguém chorará
em algum lugar – em algum lugar –
Alguém irá procurar crisântemos
para mim
no mundo
quando sem regresso
eu tiver de partir.

Trad.: Inês Dias

Antonia Pozzi – Novembre

E poi – se accadrà ch’io me ne vada –
resterà qualchecosa
di me
nel mio mondo –
resterà un’esile scìa di silenzio
in mezzo alle voci –
un tenue fiato di bianco
in cuore all’azzurro –

Ed una sera di novembre
una bambina gracile
all’angolo d’una strada
venderà tanti crisantemi
e ci saranno le stelle
gelide verdi remote –
Qualcuno piangerà
chissà dove – chissà dove –
Qualcuno cercherà i crisantemi
per me
nel mondo
quando accadrà che senza ritorno
io me ne debba andare.

Jorge Luis Borges – Cambridge

Nova Inglaterra e a manhã.
Dobro por Craigie.
Penso (já pensei)
que o nome Craigie é escocês e que a palavra crag é de origem celta.
Penso (já pensei)
que neste inverno estão os antigos invernos
dos quais deixaram escrito
que o caminho está prefixado e que já somos do Amor ou do Fogo.
A neve e a manhã e os muros vermelhos
podem ser formas da felicidade,
mas eu venho de outras cidades
onde as cores são pálidas,
e nelas uma mulher, ao cair da tarde,
regará as plantas do pátio.
Alço os olhos para perdê-los no ubíquo azul.
Ao longe estão as árvores de Longfellow
e o adormecido rio incessante.
Ninguém nas ruas, mas não é um domingo.
Não é uma segunda-feira,
o dia que nos depara a ilusão de começar.
Não é uma terça-feira,
o dia que preside o planeta rubro.
Não é uma quarta-feira,
o dia daquele deus dos labirintos
que no Norte foi Odin.
Não é uma quinta-feira,
o dia que já se resigna ao domingo.
Não é uma sexta-feira,
o dia regido pela divindade que nas selvas
os corpos dos amantes entretece.
Não é um sábado.
Não está no tempo sucessivo,
mas nos reinos espectrais da memória.
Como nos sonhos,
atrás das altas portas não há nada,
nem sequer o vazio.
Como nos sonhos,
atrás do rosto que nos contempla não há ninguém.
Anverso sem reverso,
moeda de uma única efígie, as coisas.
Essas misérias são os bens
que o precipitado tempo nos deixa.
Somos nossa memória,
somos esse quimérico museu de formas inconstantes,
essa pilha de espelhos rotos.

Trad.: Carlos Nejar e Alfredo Jacques.
Revisão de trad.: Maria Carolina de Araújo e Jorge Schwartz

Jorge Luis Borges – Cambridge

Nueva Inglaterra y la mañana.
Doblo por Craigie.
Pienso (yo lo he pensado)
que el nombre Craigie es escocés
y que la palabra crag es de origen celta.
Pienso (ya lo he pensado)
que en este invierno están los antiguos inviernos
de quienes dejaron escrito
que el camino esta prefijado
y que ya somos del Amor o del Fuego.
La nieve y la mañana y los muros rojos
pueden ser formas de la dicha,
pero yo vengo de otras ciudades
donde los colores son pálidos
y en las que una mujer, al caer la tarde,
regará las plantas del patio.
Alzo los ojos y los pierdo en el ubicuo azul.
Más allá están los árboles de Longfellow
y el dormido río incesante.
Nadie en las calles, pero no es un domingo.
No es un lunes,
el día que nos depara la ilusión de empezar.
No es un martes,
el día que preside el planeta rojo.
No es un miércoles,
el día de aquel dios de los laberintos
que en el Norte fue Odin.
No es jueves,
el día que ya se resigna al domingo.
No es un viernes,
el día regido por la divinidad que en las selvas
entreteje los cuerpos de los amantes.
No es un sábado.
No está en el tiempo sucesivo
sino en los reinos espectrales de la memoria.
Como en los sueños
detrás de las altas puertas no hay nada,
ni siquiera el vacío.
Como en los sueños,
detrás del rostro que nos mira no hay nadie.
Anverso sin reverso,
moneda de una sola cara, las cosas.
Esas miserias son los bienes
que el precipitado tiempo nos deja.
Somos nuestra memoria,
somos ese quimérico museo de formas inconstantes,
ese montón de espejos rotos.

Renata Correia Botelho – O Vento a Rondar os Dragoeiros

morreu Ulrich Mühe e o seu rosto antigo
que olhara em tempos na minha direcção
enquanto ouvia a ‘Appassionata’ de Beethoven,
o amor e ‘As Vidas dos Outros’. eu vira o filme
sozinha, num teatro vazio como uma igreja

abandonada de Tonino Guerra, com a cerejeira
a erguer-se entre as cadeiras e o palco
que ninguém vê. ficou tudo ligado: aquele olhar
subterrâneo que regressava agora a águas fundas,
a minha avó a ajeitar, com os seus dedos térreos,
a planta que morreu com ela, a resignação
das gaivotas ao longo da praia
e as palavras de Borges sobre
as coisas que morrem em cada agonia.

ouvirá Mühe, nos seus auscultadores,
a nostalgia do vento a rondar os dragoeiros?
és tu que cantas, Lhasa, com os melros negros,
a luz melancólica desta manhã?
quem dormirá no colo da minha tia,
protegido pelas suas mãos de árvore?

o que morrerá comigo, avô, quando eu morrer?