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Josep M. Rodríguez – Equação

De pé neste penhasco, aceito a mentira da paisagem. Tudo é inacessível: o orvalho – que é suor vegetal – e o comboio que passa. Uma cegonha voa a preto e branco. Tem o seu ninho no cimo da igreja que fica junto ao cemitério. Estranho paradoxo, a pedra testemunha a fugacidade, a carne é…
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Renato Russo – Música Urbana 2
[wpvideo ktLJm0wd] Em cima dos telhados as antenas de TV tocam música urbana Nas ruas os mendigos com esparadrapos podres cantam música urbana Motocicletas querendo atenção às três da manhã É só música urbana Os PMs armados e as tropas de choque vomitam música urbana E nas escolas as crianças aprendem a repetir a música…
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Miquel Martí i Pol – Tua Solidão

Enquanto puderes, não desperdices tua solidão, dedicando-a a uma absurda busca do nada, nem persigas a ti próprio obsessivamente por escuras galerias. Assustado pela luz dos preceitos. Sai no sol a pino e olha para as coisas difíceis. Considera que o jogo desmedido das palavras não te servirá de nada se não te apoiares naquilo…
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Jorge Luis Borges – Elogio da Sombra

A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão) pode ser o tempo de nossa felicidade. O animal morreu ou quase morreu. Restam o homem e sua alma. Vivo entre formas luminosas e vagas que não são ainda a escuridão. Buenos Aires, que antes se espalhava em subúrbios em direção à planície incessante,…
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Joan Margarit – Quando se perde o sinal

À noite, em um pequeno aeroporto, vês um avião que está decolando. Vai-se perdendo o sinal. Sem nenhuma piedade pelo que foste, pois a piedade é demasiado efêmera e não há tempo para construir nada sobre ela, convences-te de que vives, embora sem esperanças, uma época que é a mais feliz de tua vida. Há…
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Stein Mehren – A Pedra

Eu acumulei tanto tempo em cada grama de matéria, diz a pedra que milhões de anos são um mero piscar de olhos em mim Eu conheço a dor do mundo continua a pedra. O peso que é necessário carregar. Peso que é o sofrimento do mundo em espaços banhados de luz Se ficares totalmente calado…
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Doris Lessing – Fábula

Quando olho para trás me parece recordar o canto, embora sempre houvesse silêncio naquele largo e cálido salão. Impenetráveis, essas paredes, acreditávamos, escuras como escudos antigos. A luz brilhava na cabeça ou nas pernas esparramadas com indolência por uma menina. E as vozes baixas subiam no silêncio a se perder como a água. Assim, tudo…
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Jane Hirshfield – Alzheimer

Quando os ratos roem um tapete velho e de boa qualidade, as cores e os padrões do que resta não se alteram. Como um leito de rocha, inclinado, continua um leito de rocha, as estrias roxas e vermelhas por interromper. Grandeza inata que se não pode roubar. “Como está?”, perguntei, sem saber o que esperar.…
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Nuno Júdice – Fotografia

Naquilo a que o jornal chama um nu sulfuroso deatget (1925) a mulher está de gatas em cima da cama,e olha para trás, de esguelha, como se quisessemostrar-se ao fotógrafo, por um lado, e esconder-sede nós, por outro. Mas quando a olhamos, adivinha-seum sorriso que, não se sabe porquê, se esbate comessa espécie de névoa…
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Werner Aspenström – Domingo

Pela simples razão de que nunca mais voltará hoje é um dia memorável. O sol nasceu no leste e se pôs no oeste, deixou o céu para as estrelas e uma nave espacial nadando no espaço. O rádio falava e cantava através da janela aberta atrás dos pelargônios vermelhos imutáveis. Uma mulher colhia cachos de…