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Eugénio Andrade – Passamos pelas coisas sem as ver

Passamos pelas coisas sem as ver, gastos, como animais envelhecidos: se alguém chama por nós não respondemos, se alguém nos pede amor não estremecemos, como frutos de sombra sem sabor, vamos caindo ao chão, apodrecidos.
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Manuel António Pina – Sob Escombros

Um tempo houve em que, de tão próximo, quase podias ouvir o silêncio do mundo pulsando onde tu também eras mundo, coisa pulsante. Extinguiu-se esse canto não na morte mas na vida excluída da clarividência da infância e de tudo o que pulsa, fins e começos, e corrompida pela estridência e pela heterogeneidade. Agora respondes…
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John Mateer – s/ título

Este poema vai ser escrito com um livro de fotografias em mente, comemorando esse retrato da jovem estudante de história de arte que se tornaria a mulher do fotógrafo, a mãe do seu filho, ela que se atiraria de uma janela do apartamento deles, e que, por ter existido, proliferaria, como tudo o que pode…
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Jaime Sabines – Algo sobre a Morte do Major Sabines

Primeira Parte I Deixa-me repousar, relaxar os músculos do coração e colocar a alma para dormir para poder falar, para poder recordar estes dias, os mais longos dos tempos. Mal convalescemos da angústia e estamos fracos, assustados, despertando duas ou três vezes do nosso escasso sonho para ver-te na noite e saber que respiras. Precisamos…
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Vitor Nogueira – Domingo

Acordamos com o céu encostado no ouvido, nuvens que ladravam e mordiam o domingo, a partir do alto das montanhas. E aqui continuamos, agarrados a nós próprios, como dois miúdos que não têm para onde ir. Estamos presos ao sofá unicamente porque sim, nem tristes nem alegres, metidos no roupão e nos chinelos, pequenos cadeados…
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Antonia Pozzi – Desalento

Tristeza destas minhas mãos demasiado pesadas para não abrirem feridas, demasiado leves para deixarem marca – tristeza desta minha boca que diz as mesmas palavras que tu – significando outras coisas – e esta é a expressão da mais desesperada distância. Trad.: Inês Dias Sfiducia Tristezza di queste mie mani troppo pesanti per non aprire…
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Nuno Júdice – Outra Imagem

Conheço o mundo dos mortos. É frio, com terra Por cima, restos de tábuas, ossos desfeitos pelos invernos. Os mortos vêem-nos; de onde eles estão, eles chamam pelos nomes Familiares, num murmúrio, e o vento dispensa-lhes os sopros – música de ciprestes. Por isso há quem ande entre as campas ao fim da tarde, com…
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Joan Margarit – A moça do semáforo

Tens a mesma idade que eu tinha quando comecei a sonhar em encontrar-te. Então ignorava, assim como tu o ignoras, que o amor se transforma na arma carregada de solidão e de melancolia que agora está apontada para ti nos meus olhos. Tu és a moça que busquei durante tanto tempo quando ainda não existias.…
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Manuel António Pina – Os Mortos

Eu sei, é preciso esquecer, desenterrar os nossos mortos e voltar a enterrá-los, os nossos mortos anseiam por morrer e só a nossa dor pode matá-los. Tanta memória! O frenesim escuro das suas palavras comendo-me a boca, a minha voz numerosa e rouca de todos eles desprendendo-se de mim. Porém como esquecer? Com que palavras…
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Alfonsina Storni – Leva-me

Quero esquecer que vivo: leva-me a algum lugar; Ata-me a tua alma; a alva a brilhar. Toma-me pelas mãos como em um branco casulo E mostra-me aos deuses com glória e com orgulho. Leva-me! É uma noite muito negra e sombria!… A morte caça pelo mundo tal qual harpia. Faz-me esquecer o muito que me…