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América, Aztecas – O rio passa, passa

O rio passa, passa e nunca cessa. O vento passa, passa e nunca cessa. A vida passa: nunca regressa. Versão: Herberto Helder
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Ian Hamilton – Memorial

Quatro lápides desgastadas inclinam-se contra a parede do seu hospício Vitoriano. Além dos limites, você se ajoelha na grama alta Decifrando nomes obliterados: Velhos lunáticos que aqui morreram. Trad.: Nelson Santander Ian Hamilton – Memorial Four weathered gravestones tilt against the wall Of your Victorian asylum. Out of bounds, you kneel in the long grass…
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Joan Margarit – Tchaicovsky

Não te suicides nunca. Olha a escuridão: nunca poderás saber quem te estende a mão. Lembras-te do inverno de luz nos cristais e a cumplicidade daquela música? Ouço a Patética e me vejo desejando que a morte de Joana nos devolvesse a ordem e a felicidade que acreditamos perder quando ela nasceu. Amor meu, Joana,…
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Manuel António Pina – Uma noite com Vladimir

Eu sou mais mortal do que o meu corpo, e as minhas palavras mais mortais do que eu. E o teu silêncio, nenhum leitor, que as minhas palavras avidamente ouvem, mais mortal do que as minhas palavras. Ouvir-me-emos não é a morte o que as palavras procuram? sob tanta terra?
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José Carlos Soares – Camel Blue

No pequeno cemitério comovente ninguém, a não ser o latido de algum cão, o canto de um galo vermelho, a tosse de um pequeno deus desempregado. Também pude reparar como saía de uma velha campa abandonada um exército de formigas sob um intenso céu azul que nada respondia.
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Rui Costa – A Minha Bisavó

A minha bisavó é um quadro na parede. Roída pela traça, ela sucumbe à dentição do tempo nos seus olhos escuros de discreta bruxa. Um dia a minha bisavó nem quadro há-de ser. Continuará, apesar disso, a beber a água do copo onde lavou as cerejas (fingindo-se distraída) e a arrazoar antes da visita extemporânea…
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Rui Pires Cabral – Welcome Break

Estações de serviço como ilhas de vidro no mar alto dos campos. O acaso governa as estradas e os viajantes que se cruzam despidos da teia do seu passado. Atravesso há horas um país chuvoso: anoiteceu e não se vê ninguém nas aldeias. Contra o seu escuro mistério, estas casas são reais? Nelas nasceu gente…
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Eugénio de Andrade – Adeus

Já gastamos as palavras pela rua, meu amor e o que nos ficou não chega para afastar o frio de quatro paredes. Gastamos tudo menos o silêncio. Gastamos os olhos com o sal das lágrimas, gastamos as mãos à força de as apertarmos, gastamos o relógio e as pedras das esquinas em esperas inúteis. Meto…
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Inês Lourenço – Sala Provisória

Nunca se sabe quando estamos num lugar pela última vez. Numa casa que vai ser demolida, numa sala provisória que vai encerrar, num velho café que mudará de ramo, como página virada jamais reaberta, como canção demasiado gasta, como abraço tornado irrepetível, numa porta a que não voltaremos.
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Francisco Brines – Sitiado pela Divindade

Hoje voltas-te para o mar, com o corpo nu como na juventude, e todo o peso de ouro caindo sobre as costas como um interminável falcão que, azul, plana ao largo e pousa no braço, sem emitir sons, e respira. Descubro, com sereno assombro, minha existência, e o mundo então existe – o mar, que…