Ele morreu três semanas depois. Durante uma provação de doze horas, que começou pouco antes da meia-noite de 24 doutubro de 1989 e terminou logo após o meio-dia, ele lutou por cada sorvo de ar com uma erupção impressionante, uma derradeira exibição da tenacidade férrea que havia demonstrado ao longo da vida. Algo digno de ser visto.
Cedinho na manhã de sua morte, quando cheguei ao quarto de primeiros socorros para o qual ele fora levado de casa às pressas, me defrontei com um médico de plantão preparado para tomar “medidas extraordinárias” e ligá-lo a uma máquina de respiração artificial. Sem isso não haveria a menor esperança, embora, desnecessário dizer – acrescentou o médico –, a máquina não pudesse reverter o progresso do tumor, que aparentemente começara a atacar sua função respiratória. O médico também me informou que, por lei, uma vez acoplado à máquina, papai não seria desconectado a menos que voltasse a respirar por conta própria. A decisão precisava ser tomada de imechato e, uma vez que meu irmão ainda estava vindo de Chicago de avião, ela só cabia a mim.
E eu, que havia explicado a papai as cláusulas daquele testamento de saúde e o levara a assiná-lo, não sabia o que fazer. Como dizer não à máquina, se isso significava que ele não precisaria continuar a sustentar aquela batalha estertorante para respirar? Como eu poderia assumir a decisão de que papai diria adeus à vida, a esta vida que só nos é dado conhecer uma única vez? Longe de invocar a declaração que ele assinara, eu estava prestes a ignorá-la e dizer: “Qualquer coisa! Qualquer coisa!”.
Pedi ao médico que me deixasse a sós com meu pai, ou tão a sós quanto era possível em meio à azáfama da sala de emergência. Sentado ali e observando seu combate para continuar a viver, tentei me concentrar no que o tumor já lhe causara. Isso não era difícil, porque naquela maca ele parecia ter lutado cem assaltos com Joe Louis. Pensei nos horrores que inevitavelmente viriam pela frente, mesmo supondo que ele pudesse ser mantido vivo num pulmão de aço. Vi tudo, tudo, e mesmo assim tive de continuar sentado lá por um longo tempo antes de chegar o mais perto dele que pude e, com os lábios quase tocando seu rosto encovado e arruinado, finalmente encontrar forças para sussurrar: “Papai, vou ter que deixar você ir embora”. Ele já estava inconsciente havia horas e era incapaz de me ouvir, mas, em choque, aturdido, chorando, repeti aquilo muitas e muitas vezes até eu mesmo acreditar no que dizia.
Depois disso, só me restou seguir sua maca até o quarto onde o puseram e me sentar ao lado da cama. Morrer dá trabalho, e ele era um trabalhador. Morrer é pavoroso, e papai estava morrendo. Peguei sua mão, que ao menos eu ainda sentia como sendo sua mão, afaguei sua testa, que ao menos ainda parecia ser sua testa, e lhe disse todo tipo de coisas que ele não podia mais registrar. Por sorte, de tudo que eu lhe disse nessa manhã, nada havia que ele já não soubesse.
Durante essa tua natação de fera oculta há um papiro que se desdobra na minha boca e nunca o futuro teve o sabor de palavras tão sobejamente pronunciadas família rapaz umbigo palavras com que se poderia redigir tão pouca coisa se não fosse a reinvenção da tua chegada inscrita no mundo como pedra preciosa que não é pedra antes um modo inalienável de reluzir pelos braços fora
Sei que haverás de te deslocar timidamente por estas ruas e prédios que bocejam dos nomes que lhes deram e que contigo terão uma razão mais forte para conspirarem na longa malha inanimada em que se decidem os bichos a que chamamos homens e que tão pobremente os têm habitado — garanto-te — à excepção de uma ou outra carne mais obstinada em escapar à bala comum
Para tudo isso terás tempo ainda que rapidamente te dês conta de que tudo é já tão tarde eu próprio lamento o tempo que esperei e que não terei para testemunhar o incêndio dos teus olhos o fruto magro que hás-de roer noite dentro nalgum bairro de pormenor quando o escasso amor que te deram for o alimento oportuno de um amor mais desenvolto — estranho comércio, sim — o tempo que não terei para nos lançarmos os dois ao mar nalguma noite desesperada partilhando o sal de tudo largar esse gosto tão raro tão sigilosamente próximo
Perdoa a falta de graça o tom melancólico a guerra mas é que vivo numa época que como muitas antes dela repetiu os subsídios ao nojo bateu o sangue em castelo para se levar ao forno da ambição deu uma sova às pequenas respirações — sim, intersticiais, subtis, difíceis — sem as quais um corpo é apenas um estorvo à sua própria morte percebes isso? um estorvo à sua própria morte
Porque essas finuras de que te falo são sem dúvida a única ousadia frente à inevitável conflagração do espaço — perdoa uma vez mais, eu reformulo — tudo isto que ainda não vês mas verás tudo isto que ainda não tocas mas tocarás não durará mais do que a sua própria experiência e é essa a única lei e é esse o único hino país tão desabitado que festejas cada desembarque como se te trouxessem oceano
Se a eternidade fosse um espelho o que mostraria? Isto agora porque é aqui que vive a luz e é esta a paisagem que nenhum deus pode apagar senão à custa da sua fome não receies por isso deus nenhum nem eternidade nenhuma a tua carne é o único tesouro — sei-o enquanto nadas — digno de ser embrulhado pela treva
II
Sem saber ainda os traços do teu rosto sei que me reconhecerei em ti não fisionomicamente mas no que é comum a todos os corpos esses tropeços primeiros que a memória não segura para que nada possa ser comparado com o júbilo da encarnação com a extrema vulnerabilidade capaz de concentrar em si as apostas circundantes
Gostaria no entanto de te receber num outro lugar não neste boi tombado que dá pelo nome de vinte e um peso morto arrastado pelos cornos apenas para que não o devassem as moscas — aprenderás a amar também o trabalho alquímico das moscas a sua centralidade nas salas como se pudessem medir todo o espaço e concluir que é no meio — um outro lugar mais consentâneo com o uso dos dentes com a urgência de cuidar com as loucas passadas dos cães
Sinto já a força dos teus dedos sucintos em torno do meu polegar o calor que esbanjamos em cada gesto na imensa consanguinidade das coisas vivas não há como fugir-lhe vamos de mãos dadas com o que nos rodeia em ininterrupta dedicatória os dados são lançados e apanhados sem tocar a mesa e a sorte sai conforme a sorte que se der pois de tudo se sabe apenas a medida da sua entrega
De ti carregarei até ao fim o anúncio cardíaco em pleno silêncio a ruína de uma espécie de solidão que se julgava inamovível e que a correnteza dos teus tambores os cascos do teu nome incógnito esboroaram num segundo para no seu lugar instaurarem uma costura que nos entrança pelos pulmões o número 3 deitado / como barca frente às vagas a equipagem para o futuro
Ouço-te nadar sempre nestes meus dias de náufrago posto em estrela sobre as águas e assim estarás tu também no teu elemento os dois talvez quietos e ser ela quem nos encurta aos dois para o seu ventre alucinado a mulher que transpôs comigo o limiar do cinismo a angústia do salão espelhado a tua mãe
III
Os momentos em que a claridade é um capricho dos eléctricos e os corpos se demoram nas praças como se de fato houvesse alma e devêssemos salva-la da crueldade e do tédio são esses os momentos que te desejo nalguma cidade futura nalguma encruzilhada de gente mas sobretudo que haja eléctricos ainda pois é à janela levantada de um eléctrico que a realidade é premente e o vento toda história do mundo.
Vem isto a propósito do cansaço em que ando e que nada tem a ver com a matéria da existência – da qual és ainda magma – antes com este logro quotidiano em que um homem e uma mulher se esfalfam para manter à tona a ampulheta instável dos seus nomes quando esse punhado de areia subtraído à erosão dos deuses merecia o sopro pleno de um dia sem rodeios um batismo mais vasto e súbito que não prendesse cada coisa aos seus próprios pés
Se algo tiveres absolutamente de fazer que seja a travessia das cerradas cordilheiras interiores em que acabarás por tropeçar não que sejas empurrado para lá mas porque vivem numa espécie de maturação do sangue que mais do que a pretensa inclinação dos teus músculos deverás escutar os animais noturnos as febres a tua solidão pactuada com a longínqua saga dos que se despenham em busca de um estrondo musical pequeníssima nota reverberada entre pálpebras que só os escafandristas puxam para a altura do olhar
Ter dos teus lábios essa sílaba nítida de língua nenhuma mera articulação de uma água antiga que me pende sobre a cabeça essa a espada que me falta e que me permitirá afugentar a angústia da pouca vida que sempre nos pertence recuando aos vocábulos indefesos com que a paisagem nos entra pela garganta e nos alaga os pulmões
Ninguém sabe ao certo com que esmero será capaz de arrombar a frágil película das horas e pilhar esses instantes de fraternidade com o espanto de existir porque é verdadeiramente digno de pasmo que uma coisa se precipite contra a lápide da sua própria duração e se ache na veleidade de dizer que está aqui ponto de chegada na atribulada imaginação do espaço
IV
Que não te enganem os que compram as horas por atacado para do teu suor extraírem a bandeira de um país que nunca será o da atenção que nunca será o da morada mas sempre e sempre o território homeopático da extinção em que os troféus são joelhos vergados à condição de cera para os soalhos do progresso cujo verdadeiro nome é despovoamento
Vender-te-ão o conforto a perseverança o brio como se tivéssemos por fito a acumulação do tempo sem o fruirmos boca a boca desesperadamente garantir o futuro dir-te-ão sem repararem na estupidez do repto pois que poder temos nós sobre as válvulas biológicas do nosso prazo para nos arrogarmos a garantir o que quer que seja quanto mais o sumo fruto da inexistência esse futuro-cano-enfiado-na-boca para ser disparado sem falta de manhã e ao deitar
Em volta sucedem-se clarões e abismos inóspitos os elementos torcem-se na pesca à linha dos lugares fundamentais há uma convulsão de panoramas para o brevíssimo turismo dos olhos mas o importante é a matemática mesquinha do sangue que furtamos uns aos outros a medalha de carne pútrida com que esperamos aparecer na fotografia da época
Que se foda a época digo-te já que se foda a sépia dos futuros eu quero aparecer no dia do teu nascimento desarmado como uma árvore sem outra missão que não amparar-te o susto e dizer-te baixinho bem-vindo ao continente dos frágeis podes parar de nadar
A música convoca as imagens
degradadas do tempo. De onde estão me
chamando, de qual
penumbra, quando retornam
para mim?
Nada me pertence
senão aquilo que perdi.
Máscara do passado, a memória conflui
para um fundo difuso de alegrias
em que tudo soçobra e se reduz
a nada, onde está minha verdade
tornando-se mais crédula.
Oh transfiguração
do que já não existe, marca
tenaz do caduco, cúmplice
reclusão da memória
que cinge o tempo em rajadas de música.
Trad.: Nelson Santander
Transfiguración de lo perdido
La música convoca las imágenes
degradas del tiempo. ¿Dónde
me están llamando, desde qué
penumbra, hacía qué día
me regresan?
Nada me pertenece
sino aquello que perdí.
Máscara del pasado, la memoria confluye
sobre un fondo difuso de alegrías
donde todo zozobra y se reduce
a nada, donde está mi verdad
haciéndose más crédula.
Oh transfiguración
de lo que ya no existe, marca
tenaz de lo caduco, cómplice
reclusión de la memoria
que ciñe al tiempo en ráfagas de música.
“Quando se visita uma sepultura, todo mundo tem pensamentos mais ou menos iguais, que, abstraída a questão da eloquência, não diferem muito daqueles que Hamlet expressou ao contemplar o crânio de Yorick. Há muito pouco para se pensar ou dizer que não seja uma variante de “Ele me carregou nos ombros mil vezes”. Num cemitério, a gente costuma se dar conta de como são limitados e banais nossos pensamentos sobre o assunto. Ah, pode-se tentar conversar com o morto, caso você acredite que isso possa ser útil; pode-se começar, como fiz naquela manhã, dizendo: “Muito bem, mamãe…”, porém é difícil não pensar – mesmo que se tenha ido além da primeira frase- que você poderia, do mesmo modo, estar conversando com a coluna vertebral pendurada no consultório de alguma osteopata. Você pode fazer promessas a eles, pô-los a par das últimas notícias, implorar que o compreendam, que o desculpem ou que lhe deem seu amor – ou pode optar por uma abordagem oposta, mais efetiva, arrancando as ervas daninhas, ajeitando os cascalhos, passando o dedo pelas letras gravadas na lápide; pode até se abaixar e pôr as mãos diretamente sobre os vestígios deles – tocando a terra, a terra deles, pode fechar os olhos e recordar-se de como eram quando ainda estavam ao seu lado. Mas nada se modifica com tais recordações, exceto que os mortos parecem ainda mais distantes e fora do alcance do que estavam quando você dirigia o carro dez minutos antes. Se não há ninguém no cemitério para observá-lo, você pode fazer algumas coisas bem doidas a fim de conseguir que os mortos pareçam algo mais do que são. Mas, mesmo que você tenha êxito e se motive suficientemente para sentir a presença deles, ainda assim irá embora sem eles. O que os cemitérios provam, ao menos para gente como eu, não é que os mortos estão presentes, mas que se foram de vez. Eles se foram, enquanto nós, por enquanto, não fomos. Isso é fundamental e, embora inaceitável, bem fácil de compreender.”
A conversa era sobre Deus,
embora o teólogo estivesse inclinado
a pensar que fosse sobre outra coisa,
pois era hora de jantar.
Pegou num cigarro e perguntou às senhoras se podia fumar.
Tinha devorado o pargo com honesto apetite
e elogiava as virtudes do cozinheiro.
Só Deus, algures, chorava sobre
os despojos da sua pequena criatura na travessa
a caminho da copa, antes da sobremesa.
Os lábios rachados do porteiro noturno uniformizado Murmuram horrivelmente contra o vidro embaçado De nossa ambulância escura. Nossa aflição Inspira um único olhar marcial de desdém E logo ele nos indica o caminho, para a “Pátria”.
Trad.: Nelson Santander
Admission
The chapped lips of the uniformed night-porter Mumble horribly against the misted glass Of our black ambulance. Our plight Inspires a single, soldierly, contemptuous stare And then he waves us on, to Blighty.
Quantos homens
se apaixonam por ti
ao sábado à tarde
enquanto passeiam os filhos
no parque
e se distraem
do balanço
do baloiço
na adivinhação
das partes do corpo
que trazes tapadas
Mal sabem que a tua solidão
não se preenche
com a desventura erótica
de um corpo
que te cubra
sem consolo
Não há falta
de quem se deite
contigo
sábado à noite
apenas quem acorde
ao teu lado
domingo de manhã