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Robinson Jeffers – Falcão ferido

Falcão Ferido I O pilar quebrado da asa se projeta da espádua coagulada,A asa arrasta-se como um estandarte no fracasso,Não mais para usar o céu, apenas para viver com fomeE dor por uns poucos dias: nem gato nem coioteAbreviarão a semana de espera pela morte: há caça sem garras.Ele permanece sob o carvalho e esperaOs…
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Jacques Prévert – Bárbara

Lembra-te BárbaraChovia em Brestsem cessar naquele diaCaminhavas à chuvasorridenteradiosa encantadora deslumbranteLembra-te Bárbarachovia em Brestsem cessare eu passei por tina Rua do Sião.Sorriase eu sorriaLembra-te Bárbaratu a quem não conheciatu que não me conheciasLembra-teLembra-te mesmo assimdaquele diaNão te esqueçasSob um pórticoabrigava-se um homemque gritou o teu nomeBárbaraCorreste para eleà chuvadeslumbrante encantadoraradiosalançaste-te nos seus braçosLembra-te BárbaraE não…
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Joan Margarit – A senha

Sozinho entre dois infernos— o da liberdade e o da idade —,já não consigo abrir nosso cofre.A porta com seus dígitos giratóriosé a roleta na qual já não aposto.Desde o primeiro suspiro conserveia blindada clarezadaquela rosa.Agora, nu em nosso quarto,a janela aberta e a luz apagada,ouço o rumor urbano da noite,enquanto a leve brisa me…
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Todo mundo deveria ler este poema
E tenho dito. A condição poética um poema de Czeslaw Milosztraduzido por Ana Cristina César e Grazyna Drabik Como se tivesse em vez de olhos binóculos ao contrário, o mundose distancia e pessoas, árvores, ruas, tudo diminui, mas nada,nada perde a clareza, fica mais denso. Já tive antes momentos assim, escrevendo poemas; conheço entãoa distância,…
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Rainer Maria Rilke – Elegias de Duíno – Décima Elegia

Que um dia, ao emergir da terrível intuição, ascenda meu canto de júbilo e glória até os Anjos aprovadores! Que nenhum claro golpe dos malhos do coração desentoe sobre cordas frouxas, vacilantes ou desgarradas! Que meu rosto se ilumine sob o pranto! Que a obscura lágrima floresça! Oh, como então vos amaria, noites de aflição!…
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Rainer Maria Rilke – Elegias de Duíno – Nona Elegia

Por que, sendo possível o prazo da existência levar como o loureiro, de um verde mais sombrio que todos os outros verdes, com leves ondulações no contorno das folhas (como um sorriso do vento) – por que então, escravos do humano, anelar pelo destino fugindo ao destino?… Oh, não porque a felicidade exista, essa prematura…
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Rainer Maria Rilke – Elegias de Duíno – Oitava Elegia

Oitava elegia dedicada a Rudolf Kassner Com todos os seus olhos, a criatura vê o Aberto.Nosso olhar, porém, foi revertido e como armadilhase oculta em torno do livre caminho.O que está além, pressentimos apenasna expressão do animal; pois desde a infânciadesviamos o olhar para trás e o espaço livre perdemos,ah, esse espaço profundo que há…
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Rainer Maria Rilke – Elegias de Duíno – Sétima Elegia

Não, não mais buscar: que seja esta, voz da madurez, a essência do teu grito. Gritaste, em verdade, com a pureza do pássaro, quando erguido pela estação que ascende, quase esquece que é um ser desamparado, coração solitário lançado às alturas, na intimidade do céu. Como ele, buscavas a amiga invisível que te pressentisse, a…
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Rainer Maria Rilke – Elegias de Duíno – Sexta Elegia

Figueira, há muito que te vejo esquecer quase inteiramente a floração, precipitando no fruto prematuro, incompreendido, teu puro segredo. Como o canal de uma fonte teus ramos sinuosos impelem para a luz a seiva adormecida, abandonando-a, ainda sonolenta ao seu doce destino: como o deus em cisne transformado. Nós porém que nos detemos, gloriosos de…
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Rainer Maria Rilke – Elegias de Duíno – Quinta Elegia

Quinta elegia dedicada a Frau Hertha von Kœnig Mas quem são eles, dizei-me, os saltimbancos, um pouco mais efêmeros que nós mesmos, desde a infância por alguém torcidos – por amor de que vontade jamais saciada? Entretanto ela os torce, curva-os, entretece-os, vibra-os, atira-os e os toma de volta! Do ar untado e mais liso,…