-
Eugénio de Andrade – Não é verdade

Cai, como antigamente, das estrelas um frio que se espalha na cidade. Não é noite nem dia, é o tempo ardente da memória das coisas sem idade. O que sonhei cabe nas tuas mãos gastas a tecer melancolia: um país crescendo em liberdade, entre medas de trigo e de alegria. Porém a morte passeia nos…
-
Miguel Torga – Rogo

Não, não rezes por mim. Nenhum deus me perdoa a humanidade. Vim sem vontade E vou desesperado. Mas assinei a vida que vivi. Doeu-me o que sofri. Fui sempre o senhorio do meu fado. Por isso, quero a morte que mereço. A morte natural, Solitária e maldita De quem não acredita Em nenhuma oração De…
-
Konstantinos Kaváfis – Um velho

No meio do café ruidoso, sem ninguém, por companhia, está sentado um velho. Tem à frente um jornal e se inclina sobre a mesa. Imerso na velhice aviltada e sombria, pensa quão pouco desfrutou as alegrias dos anos de vigor, eloqüência, beleza. Sabe que envelheceu bastante. Vê, conhece. No entanto, o seu tempo de moço…
-
Sophia de Mello Breyner Andresen – Fundo do mar

No fundo do mar há brancos pavores,Onde as plantas são animaisE os animais são flores. Mundo silencioso que não atingeA agitação das ondas.Abrem-se rindo conchas redondas,Baloiça o cavalo-marinho.Um polvo avançaNo desalinhoDos seus mil braços,Uma flor dança,Sem ruído vibram os espaços. Sobre a areia o tempo poisaLeve como um lenço. Mas por mais bela que seja…
-
Susan Mitchell – Os mortos

À noite, os mortos descem até o rio para beber.Livram-se dos medos e de suas preocupaçõespor nós. Tiram dos bolsos as velhas fotografias.Alisam as linhas de nossas mãos e leem nosso futuro,rachado e amarelado.Alguns mortos encontram o caminho até nossas casas.Sobem aos sótãos.Leem as cartas que nos enviaram, insaciáveispor vestígios de seu amor.Contam histórias uns…



