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Mário Chamie – Cervo, Servo

1. E vem: som em torno, rumorações de margem, várzea vagido entre o mato de onde o mato cerca rinha menor de vinda. Refém: já muxoxo, convocações de talos, talhos rangidos entre o pasto de onde o pasto fecha largo maior de lida. Também: alto vôo, movemenções de asas,…
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Hart Crane – Louvor a uma urna

Louvor a uma urna In Memoriam: Ernest Nelson Era do norte o rosto ternoDe falso exilado, juntandoDe Pierrô o olhar eternoE a gargalhada de Gargantua. Os sonhos que me confiavaDo travesseiro branco, insone,Agora eu sei, eram heranças –Corcéis suaves do ciclone. No monte oblíquo a lua oblíquaNos deu presságios indistintosDo que ainda vivo o morto…
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Elizabeth Bishop – A Arte de Perder

A arte de perder não é nenhum mistério;Tantas coisas contêm em si o acidenteDe perdê-las, que perder não é nada sério. Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,A chave perdida, a hora gasta bestamente.A arte de perder não é nenhum mistério. Depois perca mais rápido, com mais critério:Lugares, nomes, a escala subseqüenteDa viagem não…
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Adam Zagajewski – Os três anjos

De súbito, três anjos apareceramaqui ao pé da padaria na Rua de São Jorge;mais um inquérito sociológico,suspirou um homem enfadado.Não, começou por explicar, com paciência, o primeiro anjo,gostaríamos só de saberem que é que se tornaram as vossas vidas,que sabor têm os dias e porque é que as noitesestão marcadas pelo desassossego e pelo medo.…
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Paulo Henriques Britto – de “Dez Sonetoides Mancos”

VI Nada de mergulhos. É na superfícieque o real, minúsculo plâncton, se trai.Sentidos, sentimentos e outros moluscos não passam pela finíssima peneirado funcional. E o sofrimento, ai,esse nefando pinguim de louça sobre o que deveria ser, na quiti-nete do eu, uma austera geladeira… Que ninguém nos ouça: guarda esse escafandro, meufilho. Só o raso é…
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Brigit Pegeen Kelly – Canção

Ouça: havia uma cabeça de cabra suspensa por cordas em uma árvore.Por toda noite ela ficou lá pendurada e cantou. E aqueles que a ouviramSentiram um aperto em seus corações e pensaram que estavam ouvindoO canto de uma ave noturna. Eles se sentaram em suas camas e depoisSe deitaram novamente. Na brisa noturna, a cabeça…
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Manuel Bandeira – Poema Só Para Jaime Ovalle

Quando hoje acordei, ainda fazia escuro(Embora a manhã já estivesse avançada).Chovia.Chovia uma triste chuva de resignaçãoComo contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite.Então me levantei,Bebi o café que eu mesmo preparei,Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando…– Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog…
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Lawrence Ferlinghetti – Receita para a felicidade em Khabarovsk ou em qualquer lugar

Uma grande avenida arborizadacom uma grande cafeteria ao solcom café preto forte em xícaras muito pequenas. Uma mulher ou um homem não necessariamentemuito bonito(a) que te ame. Um dia aprazível. Trad.: Nelson Santander Recipe For Happiness in Khabarovsk Or Anyplace One grand boulevard with treeswith one grand cafe in sunwith strong black coffee in very…
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Manuel Bandeira – Profundamente

Quando ontem adormeciNa noite de São JoãoHavia alegria e rumorEstrondos de bombas luzes de BengalaVozes, cantigas e risosAo pé das fogueiras acesas. No meio da noite desperteiNão ouvi mais vozes nem risosApenas balõesPassavam errantesSilenciosamenteApenas de vez em quandoO ruído de um bondeCortava o silêncioComo um túnel.Onde estavam os que há poucoDançavamCantavamE riamAo pé das fogueiras…