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Cassiano Ricardo – Dedicatória

I Ao claro tempo, ao tempo das metamorfoses, não havia horizonte na alegria do ser e do acontecer. Havia a graça aérea com que as coisas brincavam de ser e de não ser, no jardim da matéria. Hoje uma coisa passa a ser outra coisa; nascem anjos sem asa dentro do dicionário; um monstro, um…
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Cassiano Ricardo – O Hipopótamo

Não adianta o rio lhe ofertar um espelho, se ele não sabe de quem é a imagem que o espelho reflete. Se ele pensa que a sua imagem n’água é a de um outro hipopótamo. A paisagem por volta tem algo de bíblico pois é a água da criação, ainda viva, como no primeiro dia.…
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Cassiano Ricardo – O Cacto

This is cactus land. Here the stone images are raised… T. S. ELIOT Vamos, todos, brincar de cacto na areia da nossa tristeza. Uma folha sobre outra, em caminho do céu intacto. Uns nos ombros dos outros, um braço a nascer de outro braço, uma folha sobre outra, formaremos um grande cacto. De cada braço,…
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Arnaldo Antunes – A Casa é Sua

Não me falta cadeira Não me falta sofá Só falta você sentada na sala Só falta você estar Não me falta parede E nela uma porta pra você entrar Não me falta tapete Só falta o seu pé descalço pra pisar Não me falta cama Só falta você deitar Não me falta o sol da…
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Robert Frost – A Estrada não Trilhada

Num bosque, em pleno outono, a estrada bifurcou-se, mas, sendo um só, só um caminho eu tomaria. Assim, por longo tempo eu ali me detive, e um deles observei até um longe declive no qual, dobrando, desaparecia… Porém tomei o outro, igualmente viável, e tendo mesmo um atrativo especial, pois mais ramos possuía e talvez…
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Carlos Drummond de Andrade – Declaração em Juízo

Peço desculpas de ser o sobrevivente. Não por longo tempo, é claro. Tranqüilizem-se. Mas devo confessar, reconhecer que sou sobrevivente. Se é triste/cômico ficar sentado na platéia quando o espetáculo acabou e fecha-se o teatro, mais triste/grotesco é permanecer no palco, ator único, sem papel, quando o público já virou as costas e somente baratas…
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Carlos Drummond de Andrade – Morte no Avião

Acordo para a morte.Barbeio-me, visto-me, calço-me.É meu último dia: um diacortado de nenhum pressentimento.Tudo funciona como sempre.Saio para a rua. Vou morrer. Não morrerei agora. Um diainteiro se desata à minha frente.Um dia como é longo. Quantos passosna rua, que atravesso. E quantas coisasno tempo, acumuladas. Sem reparar,sigo meu caminho. Muitas facescomprimem-se no caderno de…
