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Bei Dao – Resposta

A degradação é o passaporte do vilão, A nobreza é epitáfio do nobre. Olhe: como o céu dourado é inundado do reflexo das sombras torcidas dos mortos. Passada a época do gelo, Por que ainda há gelo em toda a parte? Já foi descoberto O Cabo da Boa Esperança, por que mil velas ainda competem…
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Óssip Mandelstam – Pedra (excerto)

Não posso tocar, no escuro,Teu vulto vago e sombrio.“Senhor!”, por erro, murmuro,Alheio ao que balbucio. De mim, tal uma ave enorme,O nome de Deus se evola.À frente, um abismo informe,Atrás, vazia, a gaiola. Trad.: Augusto de Campos
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Jorge Luis Borges – Everness

Só uma coisa há. É o esquecimento. Deus, que salva o metal, salva a escória E cifra na sua profética memória as luas que serão e que hão sido. Já tudo está. Os mil reflexos, Que entre os dois crepúsculos do dia Teu rosto foi deixando nos espelhos e os que irá deixando ainda. E…
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Jorge Luis Borges – Cosmogonia

Nem treva nem caos. A treva Requer olhos que vêem, como o som. E o silêncio requer o ouvido, O espelho, a forma que o povoa. Nem o espaço nem o tempo. Nem sequer Uma divindade que premedita O silêncio anterior à primeira Noite do tempo, que será infinita. O grande rio de Heráclito o…
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Cassiano Ricardo – As Andorinhas de Antonio Nobre

—Nos —fios —ten sos —da —pauta —de me- tal —as — an/ do/ ri/ nhas —gri- tam —por —fal/ ta/ —de u- ma —cl’a- ve —de —sol
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Algernon Charles Swinburne – Uma Despedida

Vamos, canções, ela não ouviria Sigamos sem temor por nossa via. Silêncio, o tempo de cantar passou, Passou já tudo o que se quis um dia. Ela não quer o amor que nos marcou. Fôssemos a voz de um anjo em melodia E ela não ouviria. Vamos partir. Ela não saberia. Vamos ao mar, como…
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William Butler Yeats – Quando Estiveres Grisalha e com Sono…

Quando estiveres grisalha e com sono, Dormitando ante o fogo, lê meu livro Bem lentamente e lembra o sensitivo Olhar que tinhas de suave abandono. Muitos amaram tuas alegrias, Tua beleza; mas só num culmina O amor por tua alma peregrina E a mágoa que teu rosto pressentia. Reclina-te ante as chamas; e ao vê-las…
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William Butler Yeats – A Segunda Vinda

Girando em círculos sempre maiores Já não ouve o falcão ao falcoeiro; Tudo desaba; o próprio centro hesita; Livre, a anarquia reina sobre o mundo, Livre a maré sanguinolenta: em tudo Se afogam os rituais da inocência; Os melhores vacilam e os piores À intensidade passional se entregam. Na certa algo de novo se anuncia,…
