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Jorge Luis Borges – Arte Poética

Fitar o rio feito de tempo e águae recordar que o tempo é outro rio,saber que nos perdemos como o rioE que os rostos passam como a água. Sentir que a vigília é outro sonhoque sonha não sonhar e que a morteque teme nossa carne é essa mortede cada noite, que se chama sonho. No…
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Rainer Maria Rilke – Solidão

A solidão é como uma chuva. Ergue-se do mar ao encontro das noites; de planícies distantes e remotas sobe ao céu, que sempre a guarda. E do céu tomba sobre a cidade. Cai como chuva nas horas ambíguas, quando todas as vielas se voltam para a manhã e quando os corpos, que nada encontraram, desiludidos…
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Cassiano Ricardo – Ladainha

Por que o raciocínio, os músculos, os ossos? A automação, ócio dourado. O cérebro eletrônico, o músculo mecânico mais fáceis que um sorriso. Por que o coração? O de metal não tornará o homem mais cordial, dando-lhe um ritmo extra- corporal? Por que levantar o braço para colher o fruto? A máquina o fará por…
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Heinrich Heine – “Larga as parábolas sagradas”

Larga as parábolas sagradas, Deixa as hipóteses devotas, E põe-te em busca das respostas Para as questões mais complicadas. Por que se arrasta miserável O justo carregando a cruz, Enquanto, impune, em seu cavalo, Desfila o ímpio de arcabuz? De quem é a culpa? Jeová Talvez não seja assim tão forte? Ou será Ele o…
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Heinrich Heine – Morfina

É grande a semelhança desses dois jovens e belos vultos, muito embora um pareça mais pálido e severo ou, posso até dizer, bem mais distinto do que o outro, o que, terno, me abraçava. Havia em seu sorriso tanto afeto, carinho e, nos seus olhos,tanta paz! Ornada de papoulas, sua fronte tocava a minha, às…
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Friedrich Hölderlin – As Parcas

Dai-me, Potestades, mais um verão apenas, Apenas um outono de maduro canto, Que de bom grado, o coração já farto Do suave jogo, morrerei então. A alma que em vida nunca desfrutou os seus Direitos divinos nem no Orco acha repouso; Mas se eu lograr o que é sagrado, o que Trago em meu coração,…
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William Butler Yeats – Bizâncio

As imagens febris do dia se desfazem; Os guardas imperiais, bêbados, jazem; Noite sem som, sombras noctívagas se alongam Da catedral e do seu gongo; À luz de estrela ou lua um domo desmerece Tudo o que é humanidade, Mera complexidade As veias, fúria e lama, em toda humana espécie. Diante de mim a imagem,…
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John Keats – Ode a um Rouxinol

Meu peito dói; um sono insano sobre mim Pesa, como se eu me tivesse intoxicado De ópio ou veneno que eu sorvesse até o fim, Há um só minuto, e após no Letes me abismado: Não é porque eu aspire ao dom de tua sorte, É do excesso de ser que aspiro em tua paz…
