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Laura Amélia Damous – Brevíssima Canção do Amor Constante

Ferindo o tempo Vestindo eternidade O meu amor tranqüilo e mudo Vive em ti Tão leve e manso Que tu não o sentes Tu
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Carlos Nejar – Gazel do Universo Começando

Irei, irás onde os ventos nos exigem. E o universo é o começo de estar contigo. 2. O arado com o trigo vai rodar. Irei, irás com os cabelos rodando. O céu irá rodar no colo plúmeo das espigas. Seguirás com as colinas e os plátanos rodando. O mundo é tua mão desprevenida. Vai rodando…
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Cassiano Ricardo – O Espelho

Um meio-dia nu, numa enorme moldura de prata. Parece mais o escudo de um arcanjo de fogo. Mas não é nada. É apenas um espelho. Um rico espelho. De extraordinário fulgor. Próprio pra ser colocado à parede de um ministério da Fazenda, ou de uma casa de jogo. Toda a cidade cabe dentro dele. Árvores,…
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William Blake – Londres

Em cada rua escriturada em que ando, Onde o Tâmisa escriturado passa, Eu nos rostos que encontro vou notando Os sinais da doença e da desgraça. Ouço nos gritos que os adultos dão, E nos gritos de medo do inocente, Em cada voz, em cada interdição, As algemas forjadas pela mente Se o Limpa-Chaminés acaso…
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Giuseppe Ungaretti – Natal

Natal Não tenho vontade de mergulhar-me em um novelo de estradas Carrego tanto cansaço sobre os ombros Deixai-me assim como uma coisa colocada em um canto e esquecida Aqui não se sente outra presença que o calor bom Estou com as quatro cabriolas de fumaça da lareira. Trad.: Luigi Lucchesi
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Lêdo Ivo – A Queimada

Queime tudo o que puder: as cartas de amor as contas telefônicas o rol de roupas sujas as escrituras e certidões as inconfidências dos confrades ressentidos a confissão interrompida o poema erótico que ratifica a impotência e anuncia a arteriosclerose os recortes antigos e as fotografias amareladas. Não deixe aos herdeiros esfaimados nenhuma herança de…
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Jorge Luis Borges – Poema dos Dons

Ninguém rebaixe a lágrima ou censura Esta declaração da maestria De Deus, que com magnífica ironia Me deu mil livros e uma noite escura. Desta terra de livros fez senhores A olhos sem luz, que apenas se concedem Sonhar com bibliotecas e com cores De insensatos parágrafos que cedem As manhãs ao seu fim. Em…


