Onde está a memória dos dias,
que foram teus na terra e teceram
fortuna e mágoa, e foram para ti o universo?
O rio numerável dos anos
os perdeu: foste uma palavra num índice.
A outros deram glória interminável os deuses,
inscrições e exergos e monumentos e historiadores pontuais;
de ti somente sabemos, obscuro amigo,
que ouviste o rouxinol numa tarde.
Entre os asfódelos da sombra, a tua sombra vã
pensará que os deuses foram avaros.
Porém os dias são uma rede de misérias triviais –
e haverá sorte melhor do que ser a cinza
de que se faz o olvido?
Sobre outros lançaram os deuses
a inexorável luz da glória, que mira as entranhas e enumera as fendas –
da glória, que acaba por fazer murchar a rosa que venera;
contigo foram mais piedosos, irmão.
No êxtase de um entardecer que não será uma noite,
ouves a voz do rouxinol de Teócrito.
Efêmero é algo breve, de curta duração. Efêmera é a tua história na história da humanidade. A humanidade é efêmera. Tudo o que é material é efêmero. Também o imaterial: um olhar, um gesto, uma saudação, um beijo, um orgasmo. As coisas que são e as que não são mais, mas que foram um dia: aqueles dias na praia, aquele deus a quem tu rezaste, aquela excitação que sentiste e até a próxima pessoa que irás conhecer. São efêmeros os teus seguidores e os “likes” de teu perfil… O efêmero nos prende, nos apaixona, precisa de nós. Tudo sucumbe ante a fragilidade do tempo. O tempo torna efêmera toda existência e pensamento, como um nascimento. E o nascimento de um palhaço é um ato de fé que raras vezes ocorre neste mundo em constante movimento. Assim começa esse espetáculo onde as palavras desaparecem, a emoção e a improvisação se tornam a linguagem principal e o tempo se transforma na urgência de viver. Cuco, é aquele palhaço que te olha nos olhos para que você reflita sobre ele. Ele só quer brincar, aprender, experimentar, fracassar. E sobretudo divertir-se com um público que frequentemente esqueceu o significado de rir como uma criança. Porque o riso também é efêmero. E é por isso que ele é tão desejado. Bem-vindo ao teatro, senta-te e deixa-te levar.
Texto de apresentação da peça “Cucko, cuando lo efímero se detiene”, de Francis J. Quirós
Efímero
Efímero, es algo breve, de poca duración. Efímera es tu historia en la historia de la humanidad. La humanidad es efímera. Todo lo material es efímero. También lo inmaterial: una mirada, un gesto, un saludo, un beso, un orgasmo. Las cosas que son y las que ya no son pero fueron algún día: esos días en la playa, ese dios al que rezasteis, esa euforia que sentisteis e incluso la próxima persona que conozcas. Son efímeros tus seguidores y los “likes” de tu perfil… Lo efímero nos engancha, nos enamora, nos necesita. Todo sucumbe ante la fragilidad del tiempo. El tiempo convierte en efímero toda existencia y pensamiento, como un nacimiento. Y el nacimiento de un payaso es un acto de fe que pocas veces sucede en este veloz mundo. Así comienza este espectáculo donde la palabra desaparece, la emoción y la improvisación se convierten en el lenguaje principal y el tiempo se transforma en la urgencia de vivir. Cucko, es ese payaso que te mira a los ojos para que te reflejes en él. Sólo quiere jugar, aprender, experimentar, fracasar. Y sobre todo divertirse con un público que, a veces, ha olvidado qué es eso de reír como un niño o una niña. Porque la Risa, también es efímera. Y por eso todos la deseamos con tanta fuerza. Bienvenidos al teatro, siéntate y déjate llevar.
Quando mergulhaste na água
Não sentiste como é fria
Como é fria assim na noite
Como é fria, como é fria?
E ao teu medo que por certo
Te acordou da nostalgia
(Essa incrível nostalgia
Dos que vivem no deserto…)
Que te disse a Poesia?
Que te disse a Poesia
Quando Vênus que luzia
No céu tão perto (tão longe
Da tua melancolia…)
Brilhou na tua agonia
De moribundo desperto?
Que te disse a Poesia
Sobre o líquido deserto
Ante o mar boquiaberto
Incerto se te engolia
Ou ao navio a rumo certo
Que na noite se escondia?
Temeste a morte, poeta?
Temeste a escarpa sombria
Que sob a tua agonia
Descia sem rumo certo?
Como sentiste o deserto
O deserto absoluto
O oceano absoluto
Imenso, sozinho, aberto?
Que te falou o Universo
O infinito a descoberto?
Que te disse o amor incerto
Das ondas na ventania?
Que frouxos de zombaria
Não ouviste, ainda desperto
Às estrelas que por certo
Cochichavam luz macia?
Sentiste angústia, poeta
Ou um espasmo de alegria
Ao sentires que bulia
Um peixe nadando perto?
A tua carne não fremia
À ideia da dança inerte
Que teu corpo dançaria
No pélago submerso?
Dançaste muito, poeta
Entre os véus da água sombria
Coberto pela redoma
Da grande noite vazia?
Que coisas viste, poeta?
De que segredos soubeste
Suspenso na crista agreste
Do imenso abismo sem meta?
Minha casa está calma,
eu é que sou turbulento,
o país navega, dizem,
eu é que me arrebento
eu é que sempre invento
toda esta ventania
eu é que não me contento
com o rumo da romaria
não sei se a sorte é cega
ou eu que vivo a teimar:
sei que eu sou o barco
o marinheiro
e o mar.