-
Ferreira Gullar – Cantiga pra não Morrer

Quando você for se embora, moça branca como a neve, me leve. Se acaso você não possa me carregar pela mão, menina branca de neve, me leve no coração. Se no coração não possa por acaso me levar, moça de sonho e de neve, me leve no seu lembrar. E se aí também não possa…
-
Paulo Henriques Britto – De “Cinco Sonetos Frívolos”

IV Até onde a vista alcança é real todo o visível. Como dançarina e dança formam um todo indistinguível, assim também não há esperança de se atingir algum nível em que uma e outra substância se separem, dando alívio à consciência inquietante de que no próximo instante o erro vai ser dissipado. Não vai. O…
-
Wislawa Szymborska – Escrevendo um Currículo

O que é preciso?É preciso fazer um requerimentoe ao requerimento anexar um currículo. O currículo tem que ser curtomesmo que a vida seja longa. Obrigatória a concisão e seleção dos fatos.Trocam-se as paisagens pelos endereçose a memória vacilante pelas datas imóveis. De todos os amores basta o casamento,e dos filhos só os nascidos. Melhor quem…
-
Paulo Henriques Britto – Horácio no Baixo

Tentar prever o que o futuro te reserva não leva a nada. Mãe de santo, mapa astral e livro de autoajuda é tudo a mesma merda. O melhor é aceitar o que de bom ou mau acontecer. O verão que agora inicia pode ser só mais um, ou pode ser o último – vá saber.…
-
Wislawa Szymborska – Ocaso do Século

Era para ter sido melhor que os outros o nosso século XX. Agora já não tem mais jeito, os anos estão contados, os passos vacilantes, a respiração curta. Coisas demais aconteceram, que não eram para acontecer, e o que era para ter sido não foi. Era para se chegar à primavera e à felicidade, entre…
-
Paulo Henriques Britto – Oficina

I Escrever, mas não por ter vontade: escrever por determinação. Não que ainda haja necessidade (se é que já houve) de autoexpressão, ou sei lá qual carência faminta: toda veleidade dessa espécie estando de longa data extinta, resta o desejo (que se não cresce por outro lado também não míngua) de estender frágeis teias de…
-
Mario Quintana – O Tempo
A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa. Quando se vê, já são seis horas! Quando de vê, já é sexta-feira! Quando se vê, já é natal… Quando se vê, já terminou o ano… Quando se vê perdemos o amor da nossa vida. Quando se vê passaram 50 anos! Agora…
-
Ch’ang Wu Chien – Poema Chinês do Século VIII

Praguejei contra a chuva Que tamborilando no telhado Não me deixou dormir. Praguejei contra o vento Que destruía todo o jardim. Mas você chegou de surpresa E agradeci à tempestade Que te fez despir A roupa molhada. Agradeci à ventania Por ter soprado, Apagado a vela. via Carlito Azevedo (https://www.facebook.com/profile.php?id=100007266525928)
-
Paulo Mendes Campos – O Amor Acaba

O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o…
-
Paulo Henriques Britto – de “Uma Doença”

III Nenhuma posição é natural. Qualquer ordenação de pé e mão e tronco é tão-somente parcial e momentânea, uma constelação tão arbitrária e pouco funcional quanto a Ursa Maior ou o Escorpião. Nenhuma é estritamente indispensável. Nenhuma é realmente lenitiva. Nenhuma é propriamente confortável. Apenas uma é definitiva.