Paulo Henriques Britto – Oficina

I

Escrever, mas não por ter vontade:
escrever por determinação.
Não que ainda haja necessidade
(se é que já houve) de autoexpressão,

ou sei lá qual carência faminta:
toda veleidade dessa espécie
estando de longa data extinta,
resta o desejo (que se não cresce

por outro lado também não míngua)
de estender frágeis teias de aranha
tecidas com os detritos da língua.

Uma ocupação inofensiva:
quem cai na teia sequer se arranha.
(E a maioria dela se esquiva.)

II

Umas às vezes aparecem
sem nem ter sido convocadas.
Não têm razão, origem, nada
que se calcule, pese ou meça.

E mesmo assim elas se impõem
com a força de quem não admite
contra-argumentos nem limites,
nem desculpas, nem exceções.

Há que deixá-las entrar sempre,
por dever de hospitalidade
e temor supersticioso:

pois não se bole impunemente
com a contingência, com o acaso,
esses deusinhos perigosos.

III

Música ingrata, música orgulhosa,
capaz de se enquistar nos intestinos
mais íntimos da mais agreste prosa

em cálculos duros e cristalinos,
à revelia de quem desejava
um rio de sentidos retilíneos,

colocando aqui e ali uma trava,
revelando aquilo que nada tem
de relevante, turvando o que estava

mais límpido, enviesando o que ninguém
vai desvirar, desviando da rota
o que não devia nunca ir além

do rotineiro, música que brota
onde a palavra era pra ser mais bruta.

IV

Tudo se perde, nada se aproveita,
eu sei. Porém a impressão permanece:
alguma (pouca) coisa que foi feita
pode talvez merecer uma espécie
de não exatamente eternidade,
mas mais que o imediato esquecimento.
Será ilusão? Será pura vaidade?
Bem provável. Sendo assim, me contento
com o vago prazer (se é mesmo prazer)
de rabiscar num caderno, ao acaso,
o que talvez jamais venha a ser lido
por mais ninguém. Nem por mim. Escrever
é preciso. Por quê? Não vem ao caso.
E faz sentido? Não. Não faz sentido.

v

Por só dispor destas palavras.
Não outras. As que se ambiciona,
mais plenas, mais prenhas, pejadas
de algum sentido além da soma
dos meros significados

das partes essas, não. E sim
nada mais do que um somatório de peças discretas (tão in-
discretas, tantas vezes) que ora

caem constrangedoramente
aquém do alvo, ora de tal
modo extrapolam o pensamento –

Nem mesmo destas, no final
das contas. A coisa vai mal.

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