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Ana Martins Marques – Penélope (I)

O que o dia tece, a noite esquece. O que o dia traça, a noite esgarça. De dia, tramas, de noite, traças. De dia, sedas, de noite, perdas. De dia, malhas, de noite, falhas.
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Ana Martins Marques – Batata Quente

Se eu te entregasse agora o meu amor aceso como ele está, como ele está, pesado, você o trocaria rapidamente de mão, você o guardaria um pouco na esquerda, um pouco na direita, por quanto tempo antes de o passar adiante?
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Raymond Carver – O que o Médico Disse

Ele disse não parece bom ele disse parece mau aliás muito mau ele disse eu contei trinta e dois deles em um pulmão antes de parar de contar eu disse fico feliz não ia querer saber que tem mais do que isso lá ele disse por acaso você é religioso você se ajoelha em bosques…
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Raymond Carver – Medo

Medo de ver a polícia estacionar à minha porta. Medo de dormir à noite. Medo de não dormir. Medo de que o passado desperte. Medo de que o presente alce voo. Medo do telefone que toca no silêncio da noite. Medo de tempestades elétricas. Medo da faxineira que tem uma pinta no queixo! Medo de…
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Maria Cecilia Brandi – A Dança

Se a festa começou às dez e meia e terminou por volta das quatro teve trezentos e trinta minutos e como foram setenta e dois convidados neste meu aniversário de trinta e oito anos tive menos de cinco minutos para conversar com cada um na verdade ainda menos pois poucos chegaram no início e saíram…
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Cassiano Ricardo – Depois de Tudo

Mas tudo passou tão depressa Não consigo dormir agora. Nunca o silêncio gritou tanto Nas ruas da minha memória. Como agarrar líquido o tempo Que pelos vãos dos dedos flui? Meu coração é hoje um pássaro Pousado na árvore que eu fui.
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Stig Dagerman – A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer

Sem fé, ouso pensar a vida como uma errância absurda a caminho da morte certa. Não me coube em herança qualquer deus, nem ponto fixo sobre a terra de onde algum pudesse ver-me. Tampouco me legaram o disfarçado furor do cético, a astúcia do racionalista ou a ardente candura do ateu. Não ouso por isso…
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Pedro Salinas – de “Presságios”

41 Estas frases de amor que se repetem tantonão são nunca as mesmas.Todas tem idêntico som,mas uma vida anima cada uma,virgem e só, se é que a percebes.E não te canses nuncade repetir as palavras iguais:sentirás a emoção que sente a almaao ver nascer a estrela primeirae ao ver que ela se multiplica, conforme a…
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Pedro Salinas – Não Quero que te Vás

Não quero que te vás dor, última maneira de amar. Sinto-me vivo quando me martirizas não em ti, nem aqui, além: no chão, no ano de onde tu vieste, naquele amor por ela e tudo o que foi. Nessa realidade submersa que nega a si mesma e se empenha em nunca ter havido, que só…
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Nicanor Parra – Perguntas e Respostas

então, tu achas que vale a pena assassinar deus se o mundo puder ser salvo? – é claro que vale a pena e vale a pena arriscar a vida por uma ideia que pode resultar falsa? – é claro que vale a pena pergunto se valerá a pena comer siri se vale a pena criar…