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César Cantoni – Uma Arte Invisível

O poeta caminha nu pelas ruas, mas ninguém o vê. O poeta vai ao cinema, desvia de putas, anda de ônibus, sempre nu, mas as pessoas olham para outro lado. O poeta não tem meios de chamar a atenção porque a poesia é uma arte invisível. A poesia se escreve sem palavras. Trad.: Nelson Santander…
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Carlos Marzal – Estranha Forma de Vida

A Vicente Gallego Sob a bigorna de fogo que o sol de agosto acende no muro caiado, derretem-se as pétalas de uma sedenta buganvília grená. Que estranha esta beleza moribunda, esta desaforada desnudez grandiosa, esta sílaba breve do milagre. Trad.: Inês Dias Carlos Marzal – Extraña Forma de Vida Bajo el yunque de…
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Billy Collins – Pardal de Natal

A primeira coisa que ouvi esta manhã foi um rápido bater de asas, suave, insistente – asas contra vidro, como se percebeu depois, lá em baixo, quando vi um pequeno pássaro agitando-se na moldura de uma janela alta, tentando lançar-se através do enigma de vidro até a ampla luz. E então um ruído na garganta…
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Ana Hatherly – A Verdadeira Mão

A verdadeira mão que o poeta estende não tem dedos: é um gesto que se perde no próprio ato de dar-se O poeta desaparece na verdade da sua ausência dissolve-se no biombo da escrita O poema é a única a verdadeira mão que o poeta estende E quando o poema é bom não te aperta…
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Inês Lourenço – Balada dos Amores Difíceis

Não me refiro aos trágicos Romeu e Julieta Tristão e Isolda, Pedro e Inês nem a alguns ignorados ícones como Yourcenar e Grace ou Rimbaud e Verlaine. Refiro-me aos que se buscam sem saber nada do fogo que arde sem se ver, órficos cantos, mas côncavos e convexos se combinam cruzando genes e transitórios tempos…
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Ana Martins Marques – Religião

‘If I were called in to construct a religion I should make use of water’ – Philip Larkin Inaugurar uma religião: adorar os pontos em que se formam as estações do ano os gestos de desnudar-se o dia depois da chuva a distância: entre uma árvore e outra árvore, entre cidades com o mesmo nome…
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Inês Lourenço – As Coisa que Cessam

Tanto desprezo pelo que é transitório e finito. Não servirei senhor que possa morrer. Mas passamos a vida a amar todas as fragilidades das coisas que cessam. Há coisa mais breve do que um sorriso? Coisa mais curta que a alegria de um reencontro? Tudo o que amamos é passageiro e frágil ou as duas…
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Amalia Bautista – O Anjo Perplexo

Nunca houve deus, nem virgens, nem santos, nem ídolo que proteja, nem oração que console; nunca houve milagres ou maravilhas, nem a salvação da alma, nem a vida eterna; nem palavras mágicas, nenhum bálsamo eficaz contra a dor que não desaparece nunca; nem luz do outro lado das sombras, nem saída do túnel, nem esperança.…
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Mario Quintana – Envelhecer

Antes, todos os caminhos iam. Agora todos os caminhos vêm. A casa é acolhedora, os livros poucos. E eu mesmo preparo o chá para os fantasmas.
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Amalia Bautista – Agora

Agora que a estrada que devo percorreré um viaduto por sobre uma rodoviado qual dá medo de olhar, porque o abismoimplacável me chama.Agora que morreu a esperançacomo um pássaro jogado de seu ninhopor irmãos mais fortes.Agora que é noite todo dia,inverno todo anoe as semanas só têm segundas-feiras,para onde olhar, para onde voltar os olhos,que…