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Charles Bukowski – Outra Cama

outra cama outra mulher mais cortinas outro banheiro outra cozinha outros olhos outro cabelo outros pés e dedos. todos à procura. a busca eterna. você fica na cama ela se veste para o trabalho e você se pergunta o que aconteceu à última e à outra antes dela… é tudo tão confortável — esse fazer…
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Eloy Sánchez Rosillo – Aviso aos Caminhantes

Na soma de dias indeterminados que a vida dá ao homem, talvez exista um em que o destino, trágico e belo, passe ao nosso lado e o acaso acenda uma insólita luz, um incomum fulgor inconfundível. Mas não hesites. Tem coragem, quando chegar o momento, de abandonares as coisas com que os hábitos sempre te…
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Marcia Vinci – Mãe Solteira

dadeira parideira nutriz criadeira toda mãe é sozinha toda mãe é solteira
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Vicente Gaos – Testamento

Eu, Vicente Gaos, natural de lugar nenhum, mil anos de idade, de estado civil solitário, instável domiciliado/refugiado em um canto do cosmos, profissão náufrago na sombra, sem documento de identidade, sem títulos, condecorações nem diplomas de qualquer tipo, nenhum sinal particular visível no peito ou em qualquer outra parte do corpo, sem nenhuma cicatriz além…
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Ernesto Pérez Vallejo – Perdão, falava em voz alta

Queres mesmo que eu seja sincero? Se não esperas nada de ninguém Nunca poderão decepcioná-la. A esperança é aquele relógio que sempre marca a hora errada. Se não escolheres o caminho errado algumas vezes como diabos saberás qual deles era o certo? Nos momentos felizes, não sabemos ao certo se estamos tristes. Mas, quando tristes,…
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Javier Salvago – Fim de Festa

Enfim sós, vida. A festa acabou e não há mais ninguém que possa nos obrigar a forçar sorrisos, ou a inventar incômodas mentiras piedosas. Todos sumiram. Despe-te sem medo. Conheço as velhas rugas de tua carne triste. Acariciei-as. Sei o que teu rosto oculta por baixo da maquiagem. Enfim sós, vida. A casa em silêncio…
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Luis Cernuda – No Meio da Multidão

Em meio à multidão a vi passar, com seus olhos tão dourados quanto seus cabelos. Caminhava cortando o ar e os corpos; uma mulher se ajoelhou em seu caminho. Senti como o sangue desertava de minhas veias gota a gota. Vazio, andei sem rumo pela cidade. Gente estranha passava a meu lado sem me ver.…
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Luis Alberto de Cuenca – Insônia

A vida dura muito pouco. Não dá tempo de se fazer nada. Não há meios de reunir dias suficientes para aprender algo. Levantas, abraças tua namorada, tomas teu café da manhã, trabalhas, comes, dormes, vais ao cinema, e nem sequer tens um momento para ler Sêneca e acreditar que tudo neste mundo tem conserto. A…
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Charles Bukowski – Até

Nós temos que viver com a perda e talvez jogar com uma mão de cartas ruim e nós sabemos o tempo todo qual é o placar. Nós o suportamos como Hemingway ou o descartamos como Camus mas nós sabemos nós sabemos. É assim que funciona e damos corda no relógio e esperamos pela madrugada ou…
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Manuel António Pina – Sétimo Dia

Ao Manuel Hermínio Voltamos, um a um, da tua morte para a nossa vida como quem regressa a casa de uma longa viagem. Para trás ficaram recordações, países, e agora é como se te tivéssemos sonhado. A voz que, diante da escuridão, suspendemos quando se desmoronou o mundo para o fundo de ti erguemo-la de…