Já se passaram dez anos
Acabou a bateria do relógio que você me presenteou no natal que
seu tio ficou bêbado de vinho dom bosco e disse na frente dos filhos
e da esposa que era gay e viveria com um travesti búlgaro
em Londres
Já se passaram dez anos
Os poemas que escrevi quando gozava nos teus peitos de atriz da
nouvelle vague incorporada de pomba-gira amarelaram como sífilis
na fruteira
Já se passaram dez anos
A dona Gerusa que te vendia maconha morreu de AIDS na
penitenciária e o cachorro sem nome que adotamos morreu
atropleado por um táxi
Já se passaram dez anos
Hebe morreu. Michael Jackson Morreu. Roberto Piva morreu.
James Gandolfini morreu. Manoel de Barros morreu.
Já se passaram dez anos
Mas o cheiro da sua boceta ainda está impregnado no quarto, no
guarda-roupa, na cozinha, na varanda, nas estrelas.
Luis Alberto de Cuenca – Abre todas as Portas
Abre todas as portas, a que conduz ao ouro,
a que leva ao poder, a que esconde o mistério
do amor; a que oculta o segredo insondável
da felicidade, a que a vida te oferta
para sempre no gozo de uma visão sublime.
Abre todas as portas, sem te mostrares curioso,
nem dar importância às manchas de sangue
que salpicam as paredes das salas
proibidas, nem às jóias que revestem os tetos,
nem aos lábios que na sombra buscam os teus,
nem à palavra sagrada que intimida dos umbrais.
Desesperadamente, civilizadamente,
contendo o riso, secando as lágrimas,
nas bordas do mundo, no final da jornada,
não hesites, meu irmão: abre todas as portas.
Embora nada haja dentro.
Trad.: Nelson Santander
Luis Alberto de Cuenca – Abre todas las puertas
Abre todas las puertas: la que conduce al oro,
la que lleva al poder, la que esconde el misterio
del amor; la que oculta el secreto insondable
de la felicidad, la que te da la vida
para siempre en el gozo de una visión sublime.
Abre todas las puertas sin mostrarte curioso
ni prestar importancia a las manchas de sangre
que salpican los muros de las habitaciones
prohibidas, ni a las joyas que revisten los techos,
ni a los labios que buscan los tuyos en la sombra,
ni a la palabra santa que acecha en los umbrales.
Desesperadamente, civilizadamente,
conteniendo la risa, secándote las lágrimas,
en el borde del mundo, al final del camino,
oyendo cómo cantan los ruiseñores,
no lo dudes, hermano: abre todas las puertas.
Aunque nada haya dentro.
Jorge de Sena – Suma Teológica
Não vim de longe, meu amor, nem sossobraram
navios no alto mar, quando nasci.
Nada mudou. Continuaram as guerras;
continuou a subir o preço do pão;
continuaram os poetas, uma vez por outra,
a perguntar por ti.
É certo que, então, imensa gente
envelheceu instantânea e misteriosamente.
Mas até isso, meu amor, se não sabe ainda
se foi por minha causa,
se por causa de outros que terão nascido
ao mesmo tempo que eu.
Ángel González – Todos vocês parecem felizes…
… e sorriem, às vezes, quando falam.
E até dizem uns aos outros
palavras de amor. Mas
amam-se
de dois em dois
para
odiar de mil
em mil. E guardam
toneladas de asco
por cada
milímetro de felicidade.
E parecem – nada
mais que parecem – felizes,
e falam
com o fim de ocultar essa amargura
inevitável, e quantas
vezes não o conseguem, como
não posso ocultá-la
por mais tempo: esta
desesperante, estéril, longa,
cega desolação por qualquer coisa
que – não sei para onde – lentamente, me arrasta.
Trad.: José Bento
Maria Teresa Horta – Poema sobre a Recusa
Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
nem na polpa dos meus
dedos
se ter formado o afago
Sem termos sido a cidade
nem termos rasgado pedras
sem descobrirmos a cor
nem o interior da erva
Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
minha raiva de
ternura
meu ódio de conhecer-te
minha alegria profunda
César Cantoni – O Tempo Irreparável
Quem, então, poderia imaginar?
O certo é que meu pai está morto
como se nunca houvesse estado vivo.
Um dia gelaram suas mãos e os pés,
e a casa se encheu de parentes,
e minha mãe chorou, de joelhos, junto ao leito.
Ainda lembro.
Meu pai está morto ou já não existe,
e não é suficiente agora saber que ele foi feliz.
Neste silencioso amanhecer de outono,
enquanto a água borbulha na chaleira,
e o rádio informa as últimas catástrofes,
e eu cumpro o rito habitual de me barbear,
só uma coisa é real: sua ausência, que não cessa.
Trad.: Nelson Santander
César Cantoni – El Tiempo Irreparable
Quién iba, entonces, a pensarlo.
Lo cierto es que mi padre está muerto
como si nunca hubiese estado vivo.
Un día se le helaron las manos y los pies,
y la casa se llenó de parientes,
y mi madre lloró, de rodillas, junto al lecho.
Todavía lo recuerdo.
Mi padre está muerto o ya no está,
y no es suficiente ahora saber que fue feliz.
En este callado amanecer de otoño,
mientras el agua burbujea en la pava,
y la radio reporta las últimas catástrofes,
y yo cumplo con el rito habitual de afeitarme,
sólo una cosa es real: su ausencia, que no cesa.
Mário Cesariny – Lembra-te
Lembra-te
que todos os momentos
que nos coroaram
todas as estradas
radiosas que abrimos
irão achando sem fim
seu ansioso lugar
seu botão de florir
o horizonte
e que dessa procura
extenuante e precisa
não teremos sinal
senão o de saber
que irá por onde fomos
um para o outro
vividos
Gonçalo M. Tavares – Os Mortos
Não há mortos que morram tanto como os nossos.
Se um daqueles que nos pertence morre sete
ou setenta vezes no coração,
de quem apenas ouvimos falar morre uma vez, na sua data,
e os que sempre viveram longe
morrem-nos metade ou um oitavo. E metade
de uma morte é quase nada, são casas
decimais no sofrimento. (Que digo? Milésimas, milésimas!)
Charles Bukowski – Foda
foda
ela tirou o vestido
por sobre a cabeça
e eu vi a calcinha
um tanto enterrada em suas
carnes.
é simplesmente humano.
agora teremos que fazê-lo.
eu terei que fazê-lo
depois de todo esse logro.
é como uma festa –
dois idiotas
numa cilada.
debaixo dos lençóis
depois que apaguei
as luzes
suas calcinhas ainda estavam
ali. ela esperava um
número introdutório.
eu não podia culpá-la. mas sim
me perguntar por que ela estava ali
comigo? onde estão os outros
caras? como você pode se julgar
sortudo tendo alguém que
outros abandonaram?
não precisávamos fazer aquilo
embora tivéssemos que fazê-lo
era algo como
renovar o crédito
com o homem do imposto de
renda. tirei a calcinha.
decidi não usar
a língua. ainda assim
pensava no momento
em que tudo estivesse terminado.
dormiremos juntos
esta noite
tentando nos acomodar
entre os papéis de parede.
tento, falho,
reparo no cabelo em sua
cabeça
mais do que tudo reparo no cabelo
em sua
cabeça
e de relance em
suas narinas
de porquinho
tento
novamente.
Isabel Bono – O Futuro Acabará Chegando
perdemos tempo
ordenando em um álbum as fotos do verão
para olhá-las algum dia com nostalgia
guardamos bolinhas de gude pedras
livros cartas poemas
adiamos assim a felicidade, a vida
ainda não sei por quê
ainda não sei para quando
Trad.: Nelson Santander
Isabel Bono – El Futuro Acabará por Llegar
malgastábamos el tiempo
ordenando en un álbum las fotos del verano
para mirarlas alguna vez con nostalgia
acumulábamos canicas piedras
libros cartas poemas
aplazábamos así la felicidad, la vida
todavía no sé por qué
todavía no sé para cuándo