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Idea Vilariño – Ou foram nove

Talvez tivemos só sete noites não sei não as contei como poderia ter feito. Talvez não mais que seis ou foram nove. Não sei, mas valeram a pena como o amor mais duradouro. Talvez com quatro ou cinco noites dessas, mas precisamente como essas, talvez seja possível viver como de um longo amor uma vida…
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Manuel António Pina – Lugares da infância

Lugares da infância onde sem palavras e sem memória alguém, talvez eu, brincou já lá não estão nem lá estou. Onde? Diante de que mistério em que, como num espelho hesitante, o meu rosto, outro rosto, se reflecte? Venderam a casa, as flores do jardim, se lhes toco, ficam hirtas e geladas, e sob os…
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Paulo Henriques Britto – Queima de Arquivo

Houve um tempo em que eu amava em cada corpo o reflexo do que eu queria ter sido. No fundo do sexo eu buscava o meu desejo perdido. Acabei achando o outro que em mim mesmo destruí. Foi fácil reconhecê-lo: de tudo que vi em seu rosto somente o ódio era belo. Esse morto adolescente…
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Eduardo Chirinos – O que meu pai realmente quer de mim

1 Esta noite tive um sonho. Seguia com meu pai por uma estrada de terra. Os dois íamos a cavalo e mal trocávamos uma palavra. Ao longe se via a sombra de alguns salgueiros, as luzes de um povoado desconhecido e remoto. De repente, meu pai deteve seu cavalo e perguntou-me se eu sabia para…
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Wislawa Szymborska – Gato num apartamento vazio

Morrer — isso não se faz a um gato. Pois o que há de fazer um gato num apartamento vazio. Trepar pelas paredes. Esfregar-se nos móveis. Nada aqui parece mudado e no entanto algo mudou. Nada parece mexido e no entanto está diferente. E à noite a lâmpada já não se acende. Ouvem-se passos na…
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Manuel de Freitas – Grand Hotel København, 326

Onze horas: a tua mão adormecida marca agora um conto de Karen Blixen – veremos em breve essa casa cinzenta, em Helsingør – enquanto eu ouço uma sonata de Scarlatti tocada por Scott Ross e sei que também isso ficarei a dever à Dinamarca. Apontamentos culturais? Podem até chamar-lhes assim, ignorando a áspera nudez da…
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Jaime Gil de Biedma – Happy ending

Embora, à noite, comigo já não durmas mais, o acaso dirá talvez se é definitivo. Que embora o prazer nunca mais volte a ser o mesmo, na vida o esquecimento não costuma durar. Trad.: Nelson Santander Jaime Gil Biedma – Happy ending Aunque la noche, conmigo, no la duermas ya, sólo el azar nos dirá…
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Javier Salvago – Um pouco mais sábios, um pouco mais cegos

Quando você não é mais jovem, se convence de que o diabo sabe mais porque é velho e admite que os anos nos ensinam a distinguir a realidade do sonho. Talvez não. Talvez a vida só se nos mostre uma vez – quando temos olhos para aprecia-la – e depois vamos esquecendo seu rosto e…
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Inês Dias – Joaquim e Judite

Fizera toda a viagem com ele ao colo. Queria despedir-se junto ao mar, mas as partidas são tão imperfeitas se o coração é uma caixa de cinzas demasiado enferrujada para abrir ao vento. Mesmo agora, depois de lavada a última partícula que se lhe colara à pele, sabia que o amor passara a ter o…
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Manuel António Pina – Ruínas

Por onde quer que tenha começado, pelo corpo ou pelo sentido, ficou tudo por fazer, o feito e o não feito, como num sono agitado interrompido. O teu nome tinha alturas inacessíveis e lugares mal iluminados onde se escondiam animais tímidos que só à noite se mostravam, e talvez devesse ter começado por aí. Agora…