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Raymond Carver – A carteira do meu pai

Muito antes de pensar em sua própria morte meu pai dizia que gostaria de descansar perto dos seus pais. Sentia muita falta deles desde que tinham partido. Falou isso o bastante para que minha mãe se lembrasse, e eu me lembrasse. Mas quando o ar deixou seus pulmões e todo sinal de vida se extinguiu,…
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Francisco Brines – A Piedade do Tempo

Em que escuro recanto do tempo que morreu vivem ainda, a arder, aqueles coxas? Dão luz ainda a estes olhos tão velhos e enganados, que voltam agora a ser o milagre que foram: desejo de uma carne, e a alegria do que não se nega. A vida é o naufrágio de uma obstinada imagem que…
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Paulo Henriques Britto – Uma nova teoria de tudo

Todas as coisas que existem no mundo fazem sentido. Senão não teria sentido elas serem. Ou estarem. Tudo mais depende desse princípio. Os dias vêm antes das noites, não depois. Nunca faz parte de sempre, assim como zero é apenas um número entre outros números. Toda forma é perfeita: não só a esfera, que é…
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Helena Zelic – Dimensões

dimensões e se todos esses dias toda a angústia, toda a treva todos esses sonhos todos os abraços toda guerra e invasão mais as terras dos quilombos as festas e as decapitações históricas o grande amor de nossas vidas a revolução bolivariana o nosso medo do escuro os reflexos das poças d’água o barulho dos…
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Sophia Mello Breyner Andresen – 25 de abril

Esta é a madrugada que eu esperava O dia inicial inteiro e limpo Onde emergimos da noite e do silêncio E livres habitamos a substância do tempo
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Rainer Maria Rilke – Tira-me a luz dos olhos

Tira-me a luz dos olhos; continuarei a ver-te. Tapa-me os ouvidos; continuarei a ouvir-te. E, mesmo sem pés, posso caminhar para ti. E, mesmo sem boca, posso chamar por ti. Arranca-me os braços e tocar-te-ei Com o meu coração como com uma mão… Despedaça-me o coração; e o meu cérebro baterá E, mesmo que faças…
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Eugénio de Andrade – O Amigo

Não voltará – o que dele me ficou é como no inverno entre cortinas de chuva um tímido fio de sol: ilumina mas não aquece as mãos.
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Joan Margarit – Esboço para um Epílogo

Diante de ti sentes um rumor de passosque vem do futuro, essa torredemolida antes de ser construída.Só existe a dúvida moral: ama,não penses na camada de póa que tanto aludes, ostensivamente,quando dizes: “minha vida”.E, do prestígio das negações,desconfia: a vida representanão só a vitória dos anossobre nós. Também nos ensinaquão gloriosa foinossa primeira inicial sobre…
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Israel Zangwill – Um dia, estando entre nós dois o Atlântico…

Um dia, estando entre nós dois o Atlântico, senti a tua mão na minha; Agora, tendo a tua mão na minha, sinto entre nós dois o Atlântico. Trad.: Cecília Meireles
